Com o desafio de alfabetizar em português duas meninas haitianas, estudantes e professores da escola La Salle fazem da rotina escolar uma troca de experiências
O que se mostrava um desafio preocupante no início do ano letivo transformou-se em uma agradável oportunidade de aprendizado e troca de experiências para os estudantes e professores da Escola Estadual São João Batista de La Salle. Desde que as aulas iniciaram a comunidade escolar vem se adaptando de diversas formas para colaborar no processo de alfabetização das pequenas Beetholivens Staline, de oito anos, e sua irmã Beatrice Jean Bart, de 10.
Elas vieram do Haiti junto com seus pais para viver em Erechim. Apesar de dominarem duas línguas – inglês e francês – as meninas não falavam português, fato que desafiou a escola a buscar maneiras diferentes para a alfabetização. Se para professores, direção e monitores o desafio pareceu um tanto difícil, para as crianças a tarefa vem sendo tirada de letra. Com gestos, brincadeiras, muita paciência e amizade, elas contam com um diferencial em relação aos adultos: a infância, uma linguagem universal.
A vice-diretora da instituição, Vera Lucia Trentin se diz impressionada com a facilidade com que as meninas se entrosaram com os demais estudantes. “Muitos dos avanços que temos alcançado no processo de ensino-aprendizagem delas se deve à ajuda das crianças. É curioso que muitas vezes falamos com elas e elas parecem não entender, já os pequenos, com o jeito deles, conseguem se comunicar de uma maneira muito mais fácil”, relata.
Um jeito diferente de ensinar e de aprender
Beetholivens e Beatrice estudam no quarto e quinto ano do ensino fundamental, respectivamente. O Jornal Bom Dia acompanhou parte da aula ministrada na tarde de ontem na turma de Beetholivens, já que a turma de sua irmã estava realizando prova. A professora da menina, Maria Kozerski Giaretton, destaca que precisou se preparar para um jeito diferente de ensinar. Com experiência em inclusão, ela destaca que a tarefa tem sido motivadora. “De certa forma, é uma maneira de inclusão diferente da que eu estava acostumada, mas tão interessante quanto. Tem sido motivador participar do processo de alfabetização dela”, ressalta.
A professora também reforça que a ajuda dos colegas tem sido fundamental no processo de ensino. “Por serem crianças, eles se comunicam de forma mais fácil e ajudam bastante. Para auxiliar, todos os dias colocamos um coleguinha sentado lado a lado da Beetholivens para que possa ajuda-la e isso tem sido bem positivo”, relata. Ela destaca ainda que as principais dificuldades da menina estão relacionadas à interpretação. “Ela sabe ler, mas não consegue entender, pois são coisas de outra língua. Por isso, usamos gravuras, o que faz com que ela assimile melhor as palavras”, ressalta.
Otimista, a professora estima que até o fim do ano letivo, a pequena já estará alfabetizada por completo. “Ela tem se saído muito bem. Por ela ser criança, o aprendizado é mais rápido e fácil, então acredito que até o fim do ano ela estará fluente em nossa língua”, projeta, destacando ainda que a pequena é querida por todos os colegas devido ao seu carisma e amizade. “Todo mundo adora ela e se esforça muito para ajudá-la”, completa.
Troca de experiências
A pequena Betholivens já tem várias amigas em sua turma. A atenção dela é disputada entre as meninas que além de ensiná-la, aprendem palavras de sua língua. “Eu ensino para ela como falamos as palavras em português e ela explica como se fala na língua dela. Aprendemos juntas”, destaca a colega, Caroline Dassoler, de nove anos. A menina afirma ainda que fica muito feliz em poder trocar experiências com a haitiana. “É muito legal, eu nunca tinha tido uma amiga assim para ensinar e aprender junto”, destaca. As demais colegas também contam que os pais as incentivam a convidar a colega nova para interagir. “Meus pais pedem para convidá-la para ir em nossa casa para interagirmos e para ela aprender mais a nossa língua e não ter dificuldades para estudar”, revela outra aluna.
Por fim, a professora destaca que a relação amigável e positiva entre as crianças tem sido animadora. “O que nos deixa feliz é perceber que entre eles não há preconceito e que todos se esforçam de alguma maneira para ajudar e incluí-la nas atividades da turma. Isto acontece porque as diferenças em geral somos nós adultos que percebemos enquanto entre eles, são todos iguais, são todos apenas crianças”, finaliza.