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Segurança

Queda de parede expõe precariedade do presídio em Erechim

Parede desmoronou durante a madrugada de ontem, provocando danos na estrutura e telhado. Segundo a Defesa Civil, não estão descartados novos desabamentos

Escombros bloquearam acesso ao pátio interno
Por Alan Dias
Foto Defesa Civil

O desmoronamento de uma das paredes do Presídio Estadual de Erechim expôs a precariedade do antigo prédio localizado no centro da cidade. A penitenciária, inaugurada há quase 66 anos, hoje sofre com a deterioração causada pelo tempo e com as diversas tentativas de fuga, que resultaram em paredes esburacadas e remendadas, diversos túneis escavados em diferentes celas e incêndios.

A ruptura de uma das paredes laterais interna na madrugada de ontem (3) ocorreu devido a um “colapso na estrutura de alvenaria na qual foi fixada as telas de proteção, sendo que também sofreu danos o telhado da instituição prisional”, diz laudo de atenção emitido pelo coordenador municipal de Defesa Civil, Natival Freitas Júnior, após avaliação visual do setor de engenharia que assessora o órgão em Erechim.

O laudo diz ainda que devido ao desmoronamento, o telhado da instituição prisional foi deslocado e “ainda está apresentando fissuras e partes soltas onde não sofreu colapso, que se encontra em eminência de risco da estrutura entrar em colapso e queda”. A Defesa Civil recomendou ainda que “não se utilize o pátio até que a estrutura seja consertada e apresente segurança, após nova avaliação”.

Natival acredita que houve uma fragilização do local após incêndio ocorrido em uma das celas, em abril do ano passado.

O temor de que um novo desmoronamento ocorra, acontece principalmente devido ao fato de as hastes de metal que seguram as telas de proteção terem pendido para o lado interno da penitenciária e pela previsão de chuva.

Na manhã de ontem, a assessoria de imprensa da Susepe (Superintendência dos Serviços Penitenciários) informou que uma equipe de engenharia do órgão chegaria ao município durante a tarde para avaliação das estruturas afetadas. Disse ainda que a segurança do local não foi afetada, já que o desmoronamento ocorreu em uma galeria que estava interditada, mas que os apenados não poderão utilizar o pátio interno até a reconstrução da parede, que cobria um corredor da ala feminina e parte da galeria do semi-aberto e também serve como muro interno, com cerca de seis metros de altura e 30 metros de comprimento.

O desmoronamento

O desmoronamento ocorreu por volta das 5h30min e segundo relatos, ocorreu juntamente a um forte estouro na parte que ruiu. Os agentes penitenciários adotaram as medidas de segurança cabíveis, acionaram a Brigada Militar para apoio e a Defesa Civil para vistoria. Apesar de não terem ocorrido princípios de tumulto, a Avenida Comandante Kraemer, na lateral da penitenciária, e a Rua Jacinto Godoy, em frente ao presídio, foram interditadas por prevenção.

Nas imagens do sistema interno de vídeo da casa prisional, é possível visualizar um clarão no canto da parede e em seguida ela vem abaixo. Possivelmente o brilho tenha sido causado por cabos de energia elétrica que se romperam.

Novo presídio

O atual presídio, erguido na década de 50, além de enfrentar problemas estruturais, está entre os que apresentam maior superlotação no estado. Construído para pouco mais de 100 detentos, décadas depois passou por reformas, com a capacidade subindo para 230, mas atualmente está com 600 apenados, e a situação se agrava ainda mais devido a interdição de galeria, que reduz ainda mais a capacidade.

Enquanto isso, a construção de uma nova penitenciária na cidade, parece andar em círculos. Em novembro de 2009 o município adquiriu um terreno às margens da ERS 477, entre Erechim e Áurea. A compra do terreno era uma exigência do governo do Estado para abrir qualquer possibilidade de construir um novo no município. O investimento ultrapassou R$ 497 mil e o prazo para início da construção seria de dois anos, caso contrário, a área voltaria para o município. O secretário de Segurança visitou a Capital da Amizade e anunciou a construção, começaria em 2010. O tempo passou, o local foi coberto por uma lavoura de soja, voltou para o município e posteriormente ao seu primeiro proprietário, que comprou novamente a área no ano de 2014.

Em dezembro de 2016, o vice-governador, José Paulo Dornelles Cairoli, esteve em Erechim e anunciou que o governo teria interesse em construir um novo presídio no município. Uma das exigências seria um terreno para que a obra fosse erguida.

Em fevereiro de 2017, autoridades da área de Segurança Pública de Erechim estiveram reunidas com representantes da 4ª Delegacia Penitenciária Regional (DPR)- Passo Fundo, que apresentaram proposta para construção do novo presídio na cidade. Na reunião, o prefeito atual, Luiz Francisco Schmidt, e o então presidente da Câmara de Vereadores, Rafael Ayub, se comprometeram em cumprir com a contrapartida do município, ou seja, doar um terreno para a obra. Os recursos viriam do Governo Federal e era necessário elaborar um novo projeto. O projeto foi elaborado e a proposta lançada, Erechim doaria o terreno e o governo pagaria a empresa construtora com terrenos do estado existentes no município, em valor de aproximadamente R$ 45 milhões, mas desde então, as negociações entre município e estado não avançaram.

Medo

Em 2018 o Presídio Estadual de Erechim registrou pelo menos seis fugas e durante operações realizadas no local, foi apreendida considerável quantidade de drogas, facas artesanais, revólveres, munições e até mesmo explosivos. Para moradores das áreas próximas, a rotina é de medo. “A gente está sempre apreensivo, quando tem algum tumulto ou fuga, nunca sabemos se eles (detentos) não irão invadir nossas casas, e ficamos restritos no direito de ir e vir. Dá medo até de ficar ali fora”, relata uma moradora.

“A gente sabe que quando foi construído, aqui não era centro, não tinha nada. Anos atrás, meu pai deixou de comprar um terreno nas proximidades porque dizia que era muito longe da cidade, mas hoje mudou, se tornou área central e é inadmissível que ainda tenhamos um presídio aqui. É preciso pensar nos moradores, comerciantes e na escola que tem aqui perto”.

Os moradores que conversaram com a reportagem preferiram não se identificar.

Rebelião

Um dos fatos mais graves registrados no Presídio Estadual de Erechim ocorreu em abril de 2006, quando cerca de 100 presos fizeram outros detentos e um agente penitenciário como reféns. A rebelião durou quase 21h e terminou com um apenado morto carbonizado e outros nove feridos, além de dois agentes. Cinco líderes dos detentos foram transferidos para outras penitenciárias. Na época, a Susepe informou que o motivo da revolta foi a descoberta de um plano de fuga.

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