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Rural

Paixão por produzir alimentos

Apesar da falta de mão de obra e as dificuldades de saúde, o agricultor José Revers Sobrinho se reinventa aos 70 anos e investe na produção de morangos orgânicos

Agricultor José Revers Sobrinho, 70 anos
Para conter a mosca da fruta usa garrafas pets penduradas na parte debaixo dos slabs
É necessário criar alternativas para agricultura familiar para ela produzir outros alimentos
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Ígor Dalla Rosa Müller

Muito trabalho, cuidado e dedicação diária. Essas palavras resumem um pouco do que é a vida de quem produz alimento. Quando cheguei a propriedade do agricultor José Revers Sobrinho, 70 anos, em Paulo Bento, na manhã de ontem, ele estava operando o trator. Ao me ver, prontamente parou a máquina e veio conversar comigo. Não tinha marcado a pauta, mas há dias queria conversar com o responsável das estufas à beira do asfalto, que ficam uns poucos quilômetros adiante da divisa dos municípios de Erechim e Paulo Bento. Com muita educação, o experiente agricultor me recebeu e contou sobre a sua atividade e também o futuro da agricultura familiar. Apesar da falta de mão de obra e as dificuldades de saúde, o agricultor se reinventou aos 70 anos e investiu na produção de morangos orgânicos. Isso demonstra a sua paixão pelo campo, mas principalmente, a importância em se preservar os recursos naturais para o futuro e do alimento para a vida. A sua meta é trabalhar ainda mais uns 20 anos.   

O senhor José sempre cultivou frutas na sua propriedade de cerca de 15 hectares. Segundo ele, trabalha na roça desde pequeno, a sua vida foi dedicada à agricultura. Nos últimos anos, em função da falta de mão de obra e problemas de saúde foi deixando as culturas de maçã, ameixa, uva, figo, pêssego, mas não parou de trabalhar, partiu para uma atividade mais “leve”, a cultura orgânica de morango em slabs.  

“O projeto de morango iniciou quando apareceram as dificuldades de saúde. Há três anos não conseguia mais trabalhar em área maior e tive que migrar para outra atividade”, explica.  

O agricultor iniciou a cultura de morango com uma estufa de 50 metros, mas logo viu que a produção não era suficiente para atender a demanda e os clientes. A partir daí, fez um projeto de seis estufas de 50 metros, investimento de cerca de R$70 mil, que já está implantado, desde maio desse ano, e hoje produz em torno de 200 quilos de morango por semana, nessa fase inicial. A colheita é feita pela família, os morangos são vendidos na Feira do Daer nas quartas-feiras à tarde e sábado de manhã. “O investimento vai se pagar”, afirma.

Segundo José, a produção de morango dá retorno financeiro, principalmente, ainda quando é feita no sistema agroecológico. “Não uso produtos caros. Para insetos utilizo chá de arruda, própolis, manjericão”, comenta.

Para conter a mosca da fruta que causa os maiores estragos ele tem garrafas pets penduradas na parte debaixo dos slabs com açúcar e fermento de pão. E para inibir os insetos que vem de cima também usa garrafas pets com vinagre e suco de laranja. “No início da produção deu uma infestação de fungos, para tratar pulverizei leite com água, orientação da produção orgânica”, observa.

O agricultor observa que, apesar de ser feita em estufas cobertas, num espaço reduzido, a cultura do morango é muito exigente, e cada vez que se colhe tem que tirar as folhas e galhos velhos que produziram. “Isso dá bastante serviço e se não fizer não solta o cacho novo”, afirma.  

As estufas consomem em torno de 10 mil litros de água por dia, que deve ser distribuída em três a quatro etapas. Para se manter a produção tem que ter muito cuidado, não tem domingo, todo dia tem serviço, são muitas horas extras e trabalho permanente, inclusive nos fins de semana.

Conforme José, depois de implantado os pés de morango vão produzir durante três anos ininterruptamente, diariamente, tendo receita todo o mês. “Em determinadas épocas menos, mas vai ter sempre”, salienta.

Como os familiares ajudam mais na hora da colheita e têm outras atividades, o produtor está à procura de alguém para auxiliá-lo com a manutenção das plantas.

Com 60 anos de experiência na agricultura, seu José vê a produção de comida e a agricultura familiar, que produz e coloca o alimento na mesa, numa situação preocupante. “A sucessão familiar é bastante difícil. É tão difícil que eu não fiz, tenho um filho que é veterinário, e minhas duas filhas têm outras atividades”, comenta.

E, acrescenta, falta mais incentivo a agricultura e também assessoria técnica. “Embora a Emater tenha dado um bom salto em qualidade, mas ainda falta”, observa.

Ele observa que é necessário criar alternativas para agricultura familiar para ela produzir outros alimentos, e colocá-los direto na mesa do consumidor.  Cita como exemplo a agricultura agroecológica, que é uma alternativa viável, muito mais econômica e produtiva igual. E, que além disso, observa a questão de preservação da natureza e a saúde do trabalhador, “pensa na vida e no futuro”.

A sua meta é trabalhar ainda mais uns 20 anos, não quer ficar parado nos seus últimos anos de vida. “Tem que viver mais uns 20 anos ainda, mas com qualidade, trabalhar menos, embora dê serviço, é mais leve essa cultura”, ressalta.

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