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Ensino

Mais de metade dos brasileiros adultos não tem diploma do ensino médio

Professora comenta dado divulgado recentemente pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)

ensino medio
Adriana Salete Loss
Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br
Foto Dolisete Levandoski/Divulgação/UFFS.

Divulgado nesta semana, o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), revelou que 52% dos adultos brasileiros, com idade entre 25 e 64 anos, não têm diploma do ensino médio. O dado representa mais do que o dobro da média da OCDE e a organização aponta ainda que o menor nível de escolaridade tende a ser associado com a maior desigualdade de renda.

Partindo deste cenário, o Bom Dia entrevistou a professora Adriana Salete Loss. Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do RS e pós-doutora em Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, a educadora é formada em Pedagogia pela URI de Erechim e atua na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS).

BD: Que fatores podem contribuir para que mais de metade dos brasileiros com idades entre 25 e 64 anos não tenham formação no ensono médio?

Adriana Salete Loss: Compreendo que muitos brasileiros entre 25 e 64 anos não tenham formação no ensino médio por necessitarem do trabalho para o seu sustento e de sua família; também, porque ainda o currículo do ensino médio não corresponde efetivamente para o contexto desta faixa etária.

BD: Quais são/podem ser as consequências desta não formação na vida destas pessoas?

ASL: As consequências: as pessoas com menos possibilidades de inserção no mercado de trabalho; aumento das desigualdades sociais, dos preconceitos, etc.; falta de conhecimento e de ampliação da consciência crítica.

BD: Em uma pauta recente feita com alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no município de Erechim, uma das constatações das instituições que ofertavam esta modalidade foi o alto índice de jovens com menos de 20 anos buscando pela modalidade para se formar no ensino médio, o que mostra que muitos acabam desistindo desta etapa muito mais cedo do que se pensa. Quais seriam os motivos para esta decisão? E por que muitos optam por buscar esta formação depois?

ASL: Penso que a busca pela modalidade da EJA se dá porque nosso país ainda não prioriza políticas de permanência dos estudantes no Ensino Médio, principalmente os da classe trabalhadora; Os estudantes, muitas vezes diante da necessidade de buscar o seu sustento e contribuir com a família, acabam desistindo dos seus estudos e buscam como uma possibilidade a EJA.  Acredito que não basta simplesmente ofertarmos a possibilidade da EJA, é preciso uma proposta curricular e pedagógica de EJA compatível com a realidade nacional, regional e local, bem como, com as características da faixa etária. Uma das possibilidades é pensarmos uma EJA na modalidade da pedagogia da alternância. Nesse sentido, uma proposta curricular tem seu ponto de partida na pergunta fundante e necessária de Arroyo (2011, p. 102), “[…] Como os currículos veem os educandos e como os vemos quando ensinamos ou elaboramos material e propostas curriculares?”. Nesse viés, o autor nos chama atenção para um cuidado necessário frente à concepção de currículo que estamos desenvolvendo em nossas realidades educacionais.

Um currículo ousado está aberto para incluir os projetos emergentes da sociedade, para estudá-los cientificamente e produzir ações interventivas na realidade, bem como, provocar a seguinte reflexão: “A luta contra a injustiça cognitiva nos leva para além da distribuição mais equitativa do saber científico e reconhecer que toda experiência produz conhecimento. […] Reconhecer que todo conhecimento é uma produção social, produzido em experiências sociais e que toda experiência social produz conhecimento pode nos levar a estratégias de reconhecimento” (ARROYO, 2011, p. 117).

BD: Que políticas poderiam mudar este cenário?

ASL: Políticas de acesso e permanência dos estudantes na escola; políticas de formação continuada para os professores do ensino médio, com enfoque na construção de um currículo interdisciplinar, para o fomento de projetos de pesquisa e intervenção e, na perspectiva da pedagogia da alternância. Políticas de fomento para a efetivação da escola em que se aprende pelo trabalho e não para o trabalho.

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