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Ensino

Educação: os avanços da última década e os desafios futuros

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Foto: Divulgação
Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br

Doutor em Educação, Arnaldo Nogaro dissertou acerca das mudanças ocorridas na área de ensino nos últimos anos

Da boa formação de professores, passando pela emergência do acesso à educação infantil e superior à qualidade do ensino oferecido. Estes foram alguns dos aspectos elencados pelo professor da Universidade Regional Integrada (URI) campus Erechim, Arnaldo Nogaro, sobre suas percepções do ensino no Brasil na última década.

Nogaro é doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Possui mestrado em Antropologia Filosófica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e graduação em Filosofia pela Faculdade Filosofia Imaculada Conceição.

O professor tem experiência nas áreas de filosofia, antropologia filosófica, formação de professores e filosofia da educação com ênfase em fundamentos da educação, atuando principalmente nos temas: avaliação, educação escolar, aprendizagem, docência universitária e formação docente.

Atualmente é professor titular dos cursos de graduação e pós-graduação da URI campus de Erechim e professor do Programa de Pós-Graduação em Educação - Mestrado - do Campus de Frederico Westphalen. Confira a entrevista na íntegra:

Bom Dia - O que o senhor considera como principais avanços na área da educação na última década?

Arnaldo Nogaro - Há vários avanços que podem ser citados. Começo pelo reconhecimento da Educação Infantil como nível da educação básica que concretiza a perspectiva da criança como sujeito de direitos. Há a ampliação do ensino superior gratuito, os programas de inclusão como o PROUNI e os de financiamento como o FIES, aliás, este é uma lástima que o governo tenha reduzido em função das dificuldades financeiras. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), mesmo que com muitos desafios, qualifica muitas pessoas que nunca tiveram a oportunidade de ter uma experiência educacional formal na vida. Programas como o Plano Nacional de Formação de Professores (Parfor) e Programa de Iniciação à Docência (Pibid) que capacitam professores e futuros professores. A educação para deficientes e o respeito às diferenças também merecem ser lembrados.

BD - É possível afirmar que a educação ainda é vista como uma ferramenta de transformação da sociedade? Por quê?

AN - Embora esta visão seja de outras décadas não podemos desconsiderar que a educação promove a inclusão e cria oportunidades, especialmente para pessoas de segmentos mais pobres economicamente. Uma educação sólida promove o pensamento criativo e criador, como consequência gera a posicionamento crítico do sujeito perante o mundo, abre as avenidas da percepção da realidade que levam a questionar sua condição, provoca a transformação da condição do sujeito. Paulo Freire, educador brasileiro, aborda muito bem esta questão quando trata do tema da conscientização. Talvez por isso ainda há no Brasil desníveis educacionais tão grandes nas suas diferentes regiões. Um estado de lucidez de consciência, em muitas situações, geraria demandas de outras naturezas e o questionamento das relações de poder, dos desmandos políticos, por exemplo.

BD - A emergência das universidades públicas e o aumento das possibilidades de acesso a estas pode mudar o perfil da sociedade em um futuro próximo? Por quê?

AN - Sem dúvida! Novas possibilidades de acesso ao ensino gratuito, provocado pela expansão do ensino superior púbico permitem que segmentos até então excluídos tenha a oportunidade de estudar. A mudança do perfil da sociedade ocorrerá não em um período tão próximo, mas ela virá. Mas ressalvo uma questão que é muito importante e que foi objeto de abordagem do sociólogo polonês Zigmunt Bauman em sua visita ao Brasil. Ele alerta para a baixa qualidade, superficialidade e o pouco interesse constatado no público universitário quando faz referência ao fato dos estudantes não desenvolverem a capacidade de ler um livro todo. No entendimento do estudioso, não se refere à obra “Guerra e Paz” do Tolstói, mas de outros livros menos densos. Junto com o acesso e ampliação da educação pública há que vir uma mudança de atitude, de pensamento, diria até cultural em relação ao que é estudar, para que a escolaridade ampliada repercuta de forma qualificada no perfil social que teremos.

BD - O que o senhor considera desafios da educação ainda?

AN - Começo pelo que acabo de apontar, ou seja, em muitas situações o acesso à escolaridade e o ingresso na escola já está feito, o que precisamos pensar é na qualidade da aprendizagem que está ocorrendo. Junto com isso vem o pensar em formas de dar acesso às tecnologias para muitas escolas em muitas regiões de nosso país, bem como repensar o uso que está sendo feito de forma muito instrumental e pouco pedagógico. A questão da formação, qualificação e remuneração dos professores é um desafio urgente. Nos países onde a educação ganhou grande alento e atingiu patamares respeitáveis começou-se pela qualificação e remuneração adequada dos professores. Temos área do conhecimento em que há uma defasagem muito grande de profissionais qualificados e isto também decorre em função da remuneração que não é atraente. O MEC recentemente publicou novas diretrizes de formação do professor para a educação básica, foi aprovado o Plano Nacional de Educação, está em discussão a Base Comum Nacional, mas a preocupação com os professores é urgente, especialmente na questão de reconhecimento profissional e de condições de trabalho.

BD - Como o senhor vê o aumento do período da trajetória escolar (hoje as crianças entram mais cedo e os jovens saem mais tarde da educação básica)?

AN - O ingresso da criança com idade menor pode ser considerado um ganho, especialmente para aquelas oriundas de ambientes familiares mais pobres econômica e culturalmente. Com o ingresso na escola, muitas terão alimentação, proteção, cuidados e acesso aos bens culturais, ao menos no turno que estão na escola, mais cedo e isso contribui para garantir direitos e para uma melhor qualidade de vida. Terão oportunidade de desenvolver potencialidades e aprender no tempo adequado. Mas cabe ressaltar que ainda precisamos melhorar muito a formação do professor, a atendimento didático-pedagógico e os espaços escolares, especialmente da educação infantil para que estas crianças tenham as condições de desenvolverem-se plenamente.

Com o ingresso mais cedo as crianças e adolescente permanecem mais tempo na escola até a conclusão da educação básica, o que se constitui em um desafio no sentido de pensar esta trajetória de forma a atender cada faixa etária de acordo com sua idade/maturidade/desenvolvimento. Não podemos antecipar etapas, como muitas vezes vemos em relação à educação infantil. Ampliou-se o tempo, mas ao que tudo indica ainda há a necessidade de qualificarmos o tempo pedagógico para que mais tempo na escola represente melhores oportunidades de aprendizado.

BD - Especificamente em nossa região, quais são as principais demandas na área da educação?

AN - Acredito que o atendimento à educação infantil seja a grande demanda. Não só de oportunizar o ingresso na escola, mas de espaços pensados especificamente para esta faixa etária, bem como de implementação de propostas político-pedagógicas estruturadas com o intuito específico de atender a esta faixa etária. Também carecemos ampliar o atendimento especializado para alguns casos de deficiências e transtornos, sem falar em criar condições para que as crianças superdotadas ou com potencialidades superiores possam ter um atendimento diferenciado.

No ensino superior há falta de profissionais para algumas áreas, cito como exemplo o caso de Física e Química.

BD -  Considerações finais

AN - Percebo que os professores estão enfrentando muitas dificuldades para fazer com que crianças e adolescentes percebam o quanto a escola pode ser importante para sua vida. Acredito que a educação pode fazer a diferença na vida das pessoas, mas esta tarefa de conscientização não pode ficar só sob a responsabilidade dos educadores, é uma atribuição dos pais, da família, das autoridades públicas, das lideranças comunitárias. Muitas vezes, as escolas são cobradas e responsabilizadas por resultados ruins, mas em que condições trabalham os professores? As escolas possuem as condições físicas, espaços adequados, recursos pedagógicos e humanos suficientes? Os professores são remunerados de forma digna? Possuem reconhecimento profissional? Possuem apoio pedagógico adequado?  Qual o envolvimento da família na educação de seus filhos? Estas questões não podem fugir do horizonte quando pensamos em uma educação de melhor qualidade em nosso país. 

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