A fim de defender direitos e igualdade, movimento ganha forças difundindo o empoderamento feminino e o debate acerca das questões de igualdade de gênero
“Você concorda que uma mulher deve receber o mesmo valor que um homem para realizar o mesmo trabalho?; Que mulheres devem ser as únicas responsáveis pela escolha da profissão, e que essa decisão não pode ser imposta pelo Estado, pela escola nem pela família?; Você concorda que mulheres devem receber a mesma educação escolar que os homens?; Você concorda que mulheres devem escolher se, e quando, se tornarão mães?; Você concorda que uma mulher não pode sofrer violência física ou psicológica por se recusar a fazer sexo ou a obedecer ao pai ou marido?” A cada resposta positiva para as perguntas listadas acima, você acabou de defender um ponto de vista feminista”.
O teste criado pela doutoranda em Direito, Cynthia Semíramis, e divulgado em seu blog “História dos direitos das mulheres” explica um pouco dos ideais defendidos pelo feminismo de maneira simples e clara. O movimento, que no Brasil teve sua origem no século XIX, é marcado pela defesa dos direitos das mulheres e pela promoção do debate de questões de gênero.
Outro ponto que merece atenção acerca do movimento é que, diferente da interpretação de muitos, feminismo não é o contrário do machismo. O primeiro não prega ódio, tampouco a dominação das mulheres sobre os homens, pois clama por igualdade, pelo fim da dominação de um gênero sobre outro. Já o machismo é um sistema de dominação no qual o homem é considerado superior à mulher. Seu conceito contrário seria o femismo, no qual há defesa de que o sexo feminino seria superior ao masculino.
Feminismo em ascensão?
De acordo com a socióloga e professora do curso de Ciências Sociais da UFFS, Ísis Matos, as discussões feministas sempre estiveram presentes na sociedade brasileira, de um modo geral. “Por vezes somos levados a crer que algumas pautas são recentes, como se nunca estivessem presentes nas discussões sociais. Ledo engano. Não é de hoje que mulheres são minorias em espaços de decisão, não é de hoje que mulheres recebem remunerações menores, não é de hoje que mulheres sofrem assédio sexual. Porém, o que tem acontecido é uma maior publicização dos abusos sofridos, sejam eles de ordem profissional ou pessoal”, pontua.
Ela comenta ainda que, equivocadamente, entende-se o feminismo como algo homogêneo e conciso, não levando em consideração a pluralidade de interesses que constituem a mulher. “Temos que ter em mente que as pessoas são plurais, logo, seus interesses e necessidades são diversos. E mais, esses interesses vão mudando com o desenvolvimento da sociedade. Ou seja, as demandas das mulheres de hoje são também frutos das lutas passadas. Logo, não se tem como datar o início das discussões que pretendiam buscar igualdade de direito, podemos dizer que essa discussão sempre esteve latente, cada discussão acompanhando o seu tempo”, explica.
Redes sociais
Questionada se as redes sociais alavancaram as discussões acerca das pautas feministas, a socióloga ressalta que “o espaço virtual é como um recipiente a ser preenchido. Você só vai tirar do recipiente o que for colocado ali. As redes sociais possuem uma gama tão grande de conteúdos que, se por um lado, elas dão visibilidade e pautam as discussões sociais importantes como o feminismo, por outro lado, muitas vezes, reproduzem sentimentos e práticas perniciosas. Ou seja, o espaço da internet é também um espaço social, dissociá-lo do mundo real é um erro, na minha opinião”, explica salientando também que “o feminismo é plural. Cada tipo é multifacetado, tem suas próprias demandas oriundas, muitas vezes, das suas condições sociais”.
Rompendo paradigmas
Ísis comenta ainda o fato de historicamente a mulher ter sido vista e tratada como inferior ao homem: “esse é o papel central nas discussões feministas. Por que a mídia objetifica a mulher? Por que nós, mulheres, apesar de estarmos em maior número somos minorias em espaços de decisão? Por que a mulher que anda sozinha "está pedindo" para que algo de ruim lhe aconteça? O problema é que a inferiorização da mulher na nossa sociedade é tão naturalizada que as pessoas simplesmente reproduzem hábitos sem pensar”, pondera.
Por fim, sobre a discussão do tema a socióloga afirma que a questão central do feminismo é romper paradigmas. “Discutir práticas corriqueiras mas extremamente abusivas que ainda hoje as mulheres sofrem, sejam elas dentro de um ônibus lotado ou na dificuldade de se chegar a espaços de decisão política, por exemplo. [...]Essas discussões são importantes para que não continuemos a ensinar a meninas mais novas que é comum ser assediada no ônibus, que é comum não ocuparmos cargos de chefia ou ainda que é normal a competição entre mulheres. Desde sempre somos levadas a crer que as mulheres são inimigas umas das outras quando na verdade todas nós sofremos da mesma forma”, diz.
A professora ressalta ainda que as discussões feministas não querem de forma alguma uma superioridade da mulher em detrimento dos homens. “Pelo contrário. O que se busca é justamente uma isonomia de direitos tendo em vista a diferentes necessidades. Justiça é isso, é prover direitos levando em conta as diferentes necessidades. O que importa é dar substância ao debate e fugir das respostas rasas e sem pensamento crítico. Vamos começar a discutir porquê ainda hoje temos presentes práticas abusivas contra mulheres por simplesmente serem mulheres”, finaliza.
Marias de Luta
Erechim conta com um coletivo feminista denominado Marias de Luta. Sua criação tem forte relação com o 'Dia Internacional da não-Violência contra a Mulher', celebrado no dia 25 de novembro. As integrantes contam que o coletivo se formou quando algumas das que já lutavam pela causa tiveram a ideia de reunir mulheres do município para pensar sobre o dia em questão. A partir da realização de um ato de rua, surgiu a ideia de encontros para debates e estudos feministas.
Assim formou-se um espaço auto organizado de mulheres. O Coletivo conta ainda com um grupo fechado no Facebook, que tem como intuito a promoção e o compartilhamento de discussões sobre assuntos feministas. O espaço é exclusivo para mulheres, que podem compartilhar temas relacionados a vida da mulher, empoderamento feminino, denúncias contra o machismo, além de relatos e vivências.
As integrantes do coletivo ressaltam que sua importância se dá pelo fato de que o espaço das mulheres na sociedade já é reduzido. “A sociedade de sistema patriarcal já enfatiza desde que as mulheres são pequenas que elas são do lar (com as brincadeiras reduzidas a cuidar de boneca e fazer comida no fogãozinho, passar maquiagem para agradar os meninos e outros tipos de submissão) então a sociedade já naturalizou essa questão da mulher não ter um espaço seu nem mesmo pensar nela, na sua saúde, no seu corpo... então aí surgem grupos de mulheres que reservam um espaço somente delas, para discutir esses assuntos, para dialogar sobre a saúde da mulher, sobre políticas públicas específicas para elas, para fazer relatos, se organizarem pra desconstruir tudo isso que a sociedade naturalizou que a mulher é submissa ao homem”, explicam.
A partir desta organização e destas discussões, é possível fazer a luta para que se consiga um espaço igualitário para não serem vista como o segundo sexo. “Por isso é importante a existência de coletivos que nada mais são que espaços que as mulheres criam para seu próprio empoderamento”, resumem. “Além de toda essa questão teórica que agrega muito na questão do conhecer o que é feminismo também há uma relação na prática. O coletivo já fez oficinas de artesanatos e tem envolvimento com teatro, a exemplo da peça “Basta!” que mostra formas de violência contra a mulher”.