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Ensino

Mais de metade dos alunos do 3º ano têm nível insuficiente em leitura e matemática

“Resultados são fruto de políticas equivocadas, de descontinuidades e de baixo investimento em educação”, afirma educador

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Por Najaska Martins com informações da Agência Brasil
Foto Najaska Martins

“Resultados são fruto de políticas equivocadas, de descontinuidades e de baixo investimento em educação”, afirma educador

Mais de metade dos estudantes do terceiro ano do ensino fundamental apresentam nível insuficiente de leitura e em matemática para sua idade, ou seja, têm dificuldade em interpretar um texto e fazer contas. Isso é o que apontam os resultados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), divulgados na última semana pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

O levantamento revela que 54,73% dos alunos tinham nível de leitura insuficiente em 2016 e 45,27% tinham nível suficiente. Em 2014, o percentual de estudantes avaliados com nível insuficiente era um pouco maior: 56,17%. No caso da escrita, 33,95% dos estudantes apresentaram proficiência insuficiente e 66,15% tiveram níveis adequados.

Com relação aos conhecimentos em matemática, 54,46% apresentaram desempenho abaixo do adequado, enquanto 45,53% com nível suficiente. Em 2014, 57,07% dos estudantes tiveram seus conhecimentos matemáticos classificados como insuficientes; e 42,93% como suficientes.

A pesquisa foi feita entre os dias 14 e 25 de novembro do ano passado em escolas públicas com pelo menos 10 estudantes matriculados no 3° ano do ensino fundamental em 2016. Foram mais de 2 milhões de estudantes de aproximadamente 105 mil turmas em 48 mil escolas. Quase 90% dos estudantes avaliados tinham 8 anos ou mais.

Para tentar reverter esse quadro, o Ministério da Educação apresentou medidas da Política Nacional de Alfabetização. Trata-se de um conjunto de iniciativas que envolvem a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a formação de professores, o protagonismo das redes e o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD).

Para comentar estes dados, o Bom Dia entrevistou o especialista em Educação, Arnaldo Nogaro. Pró-reitor de Ensino da URI e com vasta experiência na formação docente, ele afirma que este cenário é “fruto de políticas equivocadas, de descontinuidades e de baixo investimento em educação”.

Confira a entrevista com Arnaldo Nogaro

Bom Dia: Como o senhor avalia estes dados?

Arnaldo Nogaro: Vejo os dados com preocupação pois o início da escolaridade é a base para toda vida e se nesta etapa não forem sanadas as dificuldades ou ocorrer uma formação deficiente compromete-se a vida pessoal e profissional da pessoa, especialmente num cenário como o do século 21 em que o conhecimento e a boa formação são fundamentais para se obter trabalho e conviver na sociedade. Acredito que estamos colhendo o que plantamos. Os resultados são fruto de políticas equivocadas, de descontinuidades e de baixo investimento em educação.

BD: A que fatores o senhor atribui este cenário no aprendizado de matemática e português? Por quê?

AN: A responsabilidade do ensino fundamental é de estados e municípios. Para atuar nos anos iniciais o professor precisa ter formação de Magistério no Ensino Médio ou Curso de Pedagogia. No Brasil há um grande contingente de professores com formação somente de Ensino Médio ou nem esta, muitas vezes. Muitos professores atuam pela formação de Nível Médio e possuem licenciatura em outra área e não em Pedagogia que é o recomendado, fazendo com que haja menor desempenho como fruto da baixa formação. As condições físicas de muitas escolas são precárias, a realidade social das famílias, a falta de expectativa em relação ao estudo por parte dos alunos, dentre outros fatores geram como resultado os dados que obtivemos. Só para exemplificar, o desempenho em Língua Portuguesa também está associado à leitura. Qual o investimento que tem sido feito no Brasil em livros para bibliotecas das escolas?

BD: O Ministério da Educação apresentou medidas da Política Nacional de Alfabetização para tentar reverter este quadro. Como o senhor as avalia e o que tem a dizer sobre elas?

AN: O grande problema em relação às políticas é a falta de convicção e a facilidade com que são alteradas ou anuladas. A descontinuidade das políticas é outro problema. Outro fator diz respeito ao financiamento. Não basta haver políticas há necessidade de recursos para serem implementadas e o momento que estamos vivendo demonstra que há retração e diminuição de recursos. Não vamos conseguir atender ao que está previsto no Plano Nacional de Educação. Países que melhoraram seus indicadores começaram aumentando o investimento de recursos em educação. No Brasil parece que esta questão é tida como secundária. 

BD: O senhor sugere outros caminhos e/ou alternativas para a mudança deste cenário? Por quê?

AN: Penso que se programas como o Pibid e o Parfor tivessem sido implementados há vinte anos atrás teríamos outra realidade da educação no Brasil. O que vemos hoje? Estes programas sendo alterados ou extinguidos por outros que ainda não sabemos quais são ou como serão. Há necessidade de atacar várias frentes: a primeira é aumentar o percentual do PIB investido em educação, aumentar a jornada escolar, fazer investimentos em infraestrutura nas escolas, desde espaços para prática de atividades físicas até as bibliotecas, criar programas permanente de formação continuada para professores, implementar de fato a Lei do Piso do Magistério e Planos de Carreira que sejam atrativos, disponibilizar recursos para investir em formação inicial de professores nas áreas em que há maior defasagem de professores, entre outras medidas que podem ser pensadas para melhorar os indicadores.

BD: Considerações finais:

AN: A escola pode resolver algumas questões. A questão social econômica das famílias está associada ao contexto do país e sobre a qual a escola pouco pode. Há vários estudos que mostram que o dinheiro investido no início da vida da criança seja em saúde ou educação representa menor gasto posterior em segurança, em saúde curativa e outras despesas que serão necessárias em razão dos problemas que surgirão. Um depoimento de uma socióloga nesta semana demonstra que muitos jovens infratores e envolvido em delitos e crimes abandonaram a escola muito cedo. Se não pensarmos com seriedade o início da escolaridade estaremos sempre tentando secar o chão com a torneira aberta.

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