Não bastasse a dor de perder um filho no auge de sua carreira, Luis Carlos Agnolin tem passado por uma série de situações que mal lhe permitiram pensar direito em tudo o que aconteceu naquele fatídico 29 de novembro de 2016. Pai do jornalista erechinense Renan Agnolin, ele tem vivido os últimos meses imerso nos desdobramentos da tragédia aérea que matou 71 pessoas nas proximidades de Medellín, na Colômbia, onde a Chapecoense disputaria a primeira partida da final da Copa Sul-Americana, contra o Atlético Nacional. Apesar de toda a comoção popular em torno do ocorrido e das frequentes homenagens às vítimas, Luis Carlos afirma que a situação está mais complicada do que parece.
Pertences devolvidos, mas nem tanto
De todas as vítimas do acidente, apenas 23 - inclusive Renan - tiveram seus pertences recuperados e devolvidos a suas respectivas famílias. Embora seus documentos tenham sido enviados corretamente e chegado às mãos de seus pais, o mesmo não se pode dizer dos demais objetos do jornalista. "Tinha roupas de outras pessoas, sapatos que não eram dele, tudo misturado. Só pegamos a mochila, o rádio e mais algumas coisas que eram dele", conta Luis Carlos.
A questão da seguradora
Um dos aspectos mais nebulosos da tragédia diz respeito ao seguro contratado pela companhia aérea LaMia para o voo. Segundo reportagem veiculada ontem (25) no site do canal CNN, o avião estava com seu seguro suspenso e não podia voar na Colômbia. De acordo com Luis Carlos, foi marcada uma reunião entre todas as partes (clube, seguradora e familiares das vítimas) em Florianópolis, em março, mas a resseguradora não compareceu. "Não mostraram apólice, não mostraram documento nenhum. Propuseram um valor 'x' para as famílias, mas teríamos que acabar com todas as questões judiciais. Ninguém aceitou. Estamos reivindicando justiça", frisa.
Em entrevista à CNN, o especialista colombiano em litígios relacionados a seguros Fredy Gutierrez vê como omissão o fato de o voo ter partido sem o seguro estar em vigor, e responsabiliza os países de onde partiu o voo (Bolívia) e de onde chegou (Colômbia). "O que vejo neste caso é que há uma dupla omissão, por parte das autoridades dos dois países. Então, se houve um acidente, esses familiares podem processar esses países", disse Gutierrez.
A postura da Chape
Ao longo destes seis meses pós-tragédia, não faltaram homenagens ao clube catarinense. Jogos amistosos entre Chapecoense x Palmeiras e Brasil x Colômbia, além dos espetáculos proporcionados pelas torcidas do Verdão do Oeste e do Atlético Nacional quando as duas equipes se reencontraram na final da Recopa Sul-Americana, emocionaram os fãs de futebol - e até mesmo quem pouco liga para o esporte bretão. Essa comoção, segundo Luis Carlos, não pode deixar em segundo plano o que realmente interessa: o amparo às famílias das vítimas. "A Chapecoense cresceu, todo mundo está vendo. É uma das maiores marcas do Brasil hoje. Mas ela tem faturado em cima do acidente, e esse acidente não é o clube, são pessoas, vítimas. O clube se reestruturou, as famílias estão abandonadas", lamenta o pai de Renan, ressaltando que o clube não tem cumprido com o combinado. "A Chapecoense fez reuniões com as famílias, explicou um monte de coisa, que ia ajudar, auxiliar juridicamente, com acompanhamento psicológico, mas isso tudo morreu na casca", critica.
A fim de acompanhar com mais rigor todo o imbróglio judicial e buscar justiça, foi fundada uma associação de familiares das vítimas. A iniciativa é de Fabianne Belle, viúva de Cesinha, ex-fisiologista da Chapecoense, e Mara Paiva, viúva do ex-jogador e comentarista do canal Fox Sports Mário Sérgio.
Seis meses depois
Quando não está trabalhando ou às voltas com o desenrolar do caso, Luis Carlos dedica um tempo a montar um memorial no quarto de Renan. Lá, expõe, orgulhoso, itens que contam a trajetória do jovem jornalista, falecido aos 27 anos. "Para mim não caiu a ficha. O piá tá vivo, viajando por aí", diz o pai, que, apesar das noites mal dormidas e de todo o cansaço acumulado nestes últimos meses, garante que a luta vale o esforço. "É uma coisa torturante. Não precisávamos passar por tudo isso. Faço isso por ele, eu sei que ele faria o mesmo por mim", completa.
Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Chapecoense informou que o clube analisa o assunto e se manifestará em breve.