21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Geral

Além do 8 de março

Data comumente associada a um incêndio ocorrido em Nova Iorque tem origem anterior embasada na luta por direitos trabalhistas das mulheres

teste
Incêndio que vitimou mais de 100 mulheres foi em 1911
Clara Zetkin.jpg
Eva Blay - Cecília Bastos USP Imagens.jpg
Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br
Foto Wikipédia

Data comumente associada a um incêndio ocorrido em Nova Iorque tem origem anterior embasada na luta por direitos trabalhistas das mulheres

Celebrado mundialmente neste oito de março, o Dia Internacional da Mulher marca a luta por reconhecimento do papel feminino na sociedade e a busca por igualdade. A origem da data é comumente associada a um incêndio ocorrido em uma fábrica em Nova Iorque quando mais de 100 mulheres morreram.

Entretanto, a origem da escolha desta data para celebrar o dia da mulher é anterior ao sinistro em questão e está ligada à luta pelos direitos trabalhistas das mulheres. Em um ensaio publicado na plataforma SciELO, (que abrange periódicos científicos brasileiros), a socióloga Eva Alterman Blay recupera a história do dia 8 de março. É partindo deste artigo que a reportagem busca explicar as movimentações que resultaram na criação de um dia para marcar a luta e o reconhecimento feminino.

Um pouco de história

No artigo intitulado “8 de março: conquistas e controvérsias”, Eva Blay afirma que o século XIX e o início do XX foram marcados por uma série de reivindicações trabalhistas, motivadas por salários de fome e terríveis condições nos locais de produção. “Sucediam-se as manifestações de trabalhadores, por melhores salários, pela redução das jornadas e pela proibição do trabalho infantil. A cada conquista, o movimento operário iniciava outra fase de reivindicações, mas em nenhum momento, até por volta de 1960, a luta sindical teve o objetivo de que homens e mulheres recebessem salários iguais, pelas mesmas tarefas”, esclarece.

As trabalhadoras participavam das lutas gerais mas, quando se tratava de igualdade salarial, não eram consideradas. Alegava-se que as demandas das mulheres afetariam a “luta geral”, prejudicariam o salário dos homens e, afinal as mulheres apenas “completavam” o salário masculino. É neste contexto que emergem nomes de pessoas que lutavam por uma nova consciência do papel da mulher como trabalhadora e cidadã, entre elas, Clara Zetkin.

Assim como na Europa, era intenso o movimento trabalhador nos Estados Unidos desde a segunda metade do século XIX, sobretudo nos setores da produção mineira e ferroviária e no de tecelagem e vestuário. Em 1903 formou-se, pela ação de sufragistas e de profissionais liberais, a Women’s Trade Union League, com o propósito de organizar trabalhadoras assalariadas. Em meio a crises industriais, no último domingo de fevereiro de 1908, mulheres socialistas dos Estados Unidos fizeram uma manifestação a que chamaram Dia da Mulher, reivindicando o direito ao voto e melhores condições de trabalho. No ano seguinte, em Manhatan, o Dia da Mulher reuniu 2 mil pessoas.  O período, permeado por greves protagonizadas também por mulheres, reascendeu o debate sobre o papel da figura feminina.

Clara Zetkin e a criação do Dia Internacional da Mulher

Clara Zetkin (1857-1933), alemã, membro do Partido Comunista Alemão, deputada em 1920, militava junto ao movimento operário e se dedicava à conscientização feminina. Ao participar do II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, em Copenhagem, em 1910, Clara Zetkin propôs a criação de um Dia Internacional da Mulher sem definir uma data precisa. Contudo, vê-se erroneamente afirmado no Brasil e em alguns países da América Latina que Clara teria proposto o 8 de Março para lembrar operárias mortas num incêndio em Nova Iorque.

O incêndio em Nova Iorque

Conforme Eva Blay, na tarde de 25 de março de 1911, aconteceu de fato um incêndio em Nova Iorque, vitimando 146 pessoas, sendo 125 mulheres e 21 homens. O sinistro ocorreu na Triangle Shirtwaist Company. A fábrica empregava 600 trabalhadores e trabalhadoras, a maioria mulheres imigrantes judias e italianas, jovens de 13 a 23 anos. Fugindo do fogo, parte das trabalhadoras conseguiu alcançar as escadas e desceu para a rua ou subiu para o telhado. Outras desceram pelo elevador. Mas a fumaça e o fogo se expandiram e trabalhadores/as pularam pelas janelas, para a morte. Outras morreram nas próprias máquinas. A tragédia teve consequências para as condições de segurança no trabalho e sobretudo serviu para fortalecer o sindicato que associava trabalhadores do setor de confecções.

No século XX, as mulheres trabalhadoras continuaram a se manifestar em várias partes do mundo. Causas e datas variavam. Em 8 de março 1917 trabalhadoras russas do setor de tecelagem entraram em greve e pediram apoio aos metalúrgicos. Para Trotski esta teria sido uma greve espontânea, não organizada,18 e teria sido o primeiro momento da Revolução de Outubro. Na década de 60, o 8 de Março foi sendo constantemente escolhido como o dia comemorativo da mulher e se consagrou nas décadas seguintes. Certamente esta escolha não ocorreu em consequência do incêndio na Triangle, embora este fato tenha se somado à sucessão de enormes problemas das trabalhadoras em seus locais de trabalho, na vida sindical e nas perseguições decorrentes de justas reivindicações.

No Brasil

No Brasil vê-se repetir a cada ano a associação entre o Dia Internacional da Mulher e o incêndio na Triangle, quando na verdade Clara Zetkin o tenha proposto em 1910, um ano antes do incêndio. É muito provável que o sacrifício das trabalhadoras da Triangle tenha se incorporado ao imaginário coletivo da luta das mulheres. Mas o processo de instituição de um Dia Internacional da Mulher já vinha sendo elaborado pelas socialistas americanas e europeias há algum tempo e foi ratificado com a proposta de Clara Zetkin.

 

Leia também

Publicidade

Publicidade

Blog dos Colunistas

;