Data comumente associada a um incêndio ocorrido em Nova Iorque tem origem anterior embasada na luta por direitos trabalhistas das mulheres
Celebrado mundialmente neste oito de março, o Dia Internacional da Mulher marca a luta por reconhecimento do papel feminino na sociedade e a busca por igualdade. A origem da data é comumente associada a um incêndio ocorrido em uma fábrica em Nova Iorque quando mais de 100 mulheres morreram.
Entretanto, a origem da escolha desta data para celebrar o dia da mulher é anterior ao sinistro em questão e está ligada à luta pelos direitos trabalhistas das mulheres. Em um ensaio publicado na plataforma SciELO, (que abrange periódicos científicos brasileiros), a socióloga Eva Alterman Blay recupera a história do dia 8 de março. É partindo deste artigo que a reportagem busca explicar as movimentações que resultaram na criação de um dia para marcar a luta e o reconhecimento feminino.
Um pouco de história
No artigo intitulado “8 de março: conquistas e controvérsias”, Eva Blay afirma que o século XIX e o início do XX foram marcados por uma série de reivindicações trabalhistas, motivadas por salários de fome e terríveis condições nos locais de produção. “Sucediam-se as manifestações de trabalhadores, por melhores salários, pela redução das jornadas e pela proibição do trabalho infantil. A cada conquista, o movimento operário iniciava outra fase de reivindicações, mas em nenhum momento, até por volta de 1960, a luta sindical teve o objetivo de que homens e mulheres recebessem salários iguais, pelas mesmas tarefas”, esclarece.
As trabalhadoras participavam das lutas gerais mas, quando se tratava de igualdade salarial, não eram consideradas. Alegava-se que as demandas das mulheres afetariam a “luta geral”, prejudicariam o salário dos homens e, afinal as mulheres apenas “completavam” o salário masculino. É neste contexto que emergem nomes de pessoas que lutavam por uma nova consciência do papel da mulher como trabalhadora e cidadã, entre elas, Clara Zetkin.
Assim como na Europa, era intenso o movimento trabalhador nos Estados Unidos desde a segunda metade do século XIX, sobretudo nos setores da produção mineira e ferroviária e no de tecelagem e vestuário. Em 1903 formou-se, pela ação de sufragistas e de profissionais liberais, a Women’s Trade Union League, com o propósito de organizar trabalhadoras assalariadas. Em meio a crises industriais, no último domingo de fevereiro de 1908, mulheres socialistas dos Estados Unidos fizeram uma manifestação a que chamaram Dia da Mulher, reivindicando o direito ao voto e melhores condições de trabalho. No ano seguinte, em Manhatan, o Dia da Mulher reuniu 2 mil pessoas. O período, permeado por greves protagonizadas também por mulheres, reascendeu o debate sobre o papel da figura feminina.
Clara Zetkin e a criação do Dia Internacional da Mulher
Clara Zetkin (1857-1933), alemã, membro do Partido Comunista Alemão, deputada em 1920, militava junto ao movimento operário e se dedicava à conscientização feminina. Ao participar do II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, em Copenhagem, em 1910, Clara Zetkin propôs a criação de um Dia Internacional da Mulher sem definir uma data precisa. Contudo, vê-se erroneamente afirmado no Brasil e em alguns países da América Latina que Clara teria proposto o 8 de Março para lembrar operárias mortas num incêndio em Nova Iorque.
O incêndio em Nova Iorque
Conforme Eva Blay, na tarde de 25 de março de 1911, aconteceu de fato um incêndio em Nova Iorque, vitimando 146 pessoas, sendo 125 mulheres e 21 homens. O sinistro ocorreu na Triangle Shirtwaist Company. A fábrica empregava 600 trabalhadores e trabalhadoras, a maioria mulheres imigrantes judias e italianas, jovens de 13 a 23 anos. Fugindo do fogo, parte das trabalhadoras conseguiu alcançar as escadas e desceu para a rua ou subiu para o telhado. Outras desceram pelo elevador. Mas a fumaça e o fogo se expandiram e trabalhadores/as pularam pelas janelas, para a morte. Outras morreram nas próprias máquinas. A tragédia teve consequências para as condições de segurança no trabalho e sobretudo serviu para fortalecer o sindicato que associava trabalhadores do setor de confecções.
No século XX, as mulheres trabalhadoras continuaram a se manifestar em várias partes do mundo. Causas e datas variavam. Em 8 de março 1917 trabalhadoras russas do setor de tecelagem entraram em greve e pediram apoio aos metalúrgicos. Para Trotski esta teria sido uma greve espontânea, não organizada,18 e teria sido o primeiro momento da Revolução de Outubro. Na década de 60, o 8 de Março foi sendo constantemente escolhido como o dia comemorativo da mulher e se consagrou nas décadas seguintes. Certamente esta escolha não ocorreu em consequência do incêndio na Triangle, embora este fato tenha se somado à sucessão de enormes problemas das trabalhadoras em seus locais de trabalho, na vida sindical e nas perseguições decorrentes de justas reivindicações.
No Brasil
No Brasil vê-se repetir a cada ano a associação entre o Dia Internacional da Mulher e o incêndio na Triangle, quando na verdade Clara Zetkin o tenha proposto em 1910, um ano antes do incêndio. É muito provável que o sacrifício das trabalhadoras da Triangle tenha se incorporado ao imaginário coletivo da luta das mulheres. Mas o processo de instituição de um Dia Internacional da Mulher já vinha sendo elaborado pelas socialistas americanas e europeias há algum tempo e foi ratificado com a proposta de Clara Zetkin.