Paróquia São Pedro quer urgência na desocupação do imóvel
O Albergue Municipal de Erechim está com dos dias contatos para trocar de endereço ou ser desativado. A locação do espaço onde funciona a instituição vinculada a Secretaria Municipal de Cidadania está sem contrato com a Paróquia São Pedro que emitiu ontem (9) o último aviso prévio para desocupação do local que abriga mais de 25 pessoas e serve mais de 70 refeições diárias.
De acordo com o pároco Paulo Bernardi, estão encerradas as tratativas para manter o funcionamento do albergue no espaço paroquial. "O contrato venceu em 2014 e não temos a intenção de renovar. Desde então estamos pedindo a entrega do imóvel, mas até o momento nada foi feito pela prefeitura. Se nos próximos dias eles não se manifestarem, vamos pedir uma ordem despejo na Justiça, pois estamos há mais de quatro anos pedindo o imóvel e só nos enrolam", explica o padre em tom de desabafo.
Em recente reportagem do Bom Dia a secretária Linir Zanella e a primeira dama Rosmari Schmidt, afirmaram que o governo municipal trabalhava para melhorar o sistema de atendimento e alimentavam a esperança de continuar no local.
O pároco admite que com a nova administração o cenário mudou. "Está mais calmo", segundo ele, mas mesmo assim a paróquia quer retomar o imóvel e dar outra finalidade para o mesmo. "A comunidade está pressionando. Esse pessoal (moradores de rua) fica na região o dia inteiro e você não sabe quem é quem. Reitero que não somos contra os pobres, mas sim, contra essa situação que não pode continuar," ressalta Paulo Bernardi.
Problema antigo
A discussão sobre a problemática provocada pela localização do albergue ganhou força nos últimos dias. Ao esclarecer a morte da universitária Carla Bernardo Chagas a Polícia Civil descobriu que o assassino confesso era morador de rua e usuário de drogas. O Bom Dia apurou com exclusividade que o jovem de 18 anos utilizava os serviços assistenciais oferecidos pelo município e tomava banho e café na parte da manhã no local onde são atendidas pessoas em situação de vulnerabilidade social.
De acordo com moradores e comerciantes das redondezas a presença de criminosos e desocupados nas imediações do albergue faz parte do cotidiano de insegurança para muitas pessoas. Para pressionar o poder público e tentar resolver o problema foi organizado um abaixo-assinado com nomes de aproximadamente 800 pessoas. O documento foi encaminhado para a prefeitura com o pedido de desocupação imediata do prédio, após 30 anos.
O que diz a prefeitura?
Antes de emitir o aviso final nesta quinta-feira (2), a Paróquia São Pedro já tinha requisitado o imóvel com data de desocupação em 31 de dezembro de 2016. Conforme a secretária Municipal de Cidadania, Lenir Zanella, a situação do albergue está sendo tratada como prioridade. A gestora destaca que o governo está buscando soluções, inclusive um novo espaço relocar a instituição. "Até o momento não encontramos outro local. Enquanto isso já reforçamos as regras para quem utiliza o serviço, inclusive com normas de identificação das pessoas e respeito às normas internas e externas", explicou Linir Zanella.
A secretária também destaca que esta disposta a reunir-se com o pároco para construir uma solução para o caso. "Queremos manter o local, mas também futuramente construir um novo espaço. Sabemos que para isso são necessários muitos recursos e verificar se o projeto está dentro do plano diretor do município. São objetivos que vamos buscar em longo prazo", ressaltou.
Ao lado de Lenir Zanella, a secretária adjunta Fabiane Cavagni, destaca que a secretaria também estuda parceria para melhorar as condições e segurança no ambiente do albergue. "Nos próximos dias vamos nos reunir com representantes da Polícia Civil e Brigada Militar. Nosso objetivo é modernizar o sistema da administração para que pessoas de má fé não se misturem com aqueles que necessitam realmente daquele serviço prestado pelo município", comenta.
O que dizem os vizinhos?
Revoltados com a demora de uma solução para o impasse, comerciantes e vizinhos do albergue se dizem indignados com a situação. O empresário Deivison Brusmanello, relata que a região do albergue está ficando a cada dia mais perigosa. "Trabalho aqui há cinco anos e meio, e já fui alvo de uma tentativa de assalto praticada por dois homens que estavam no albergue. Eles roubaram e fugiram para lá. Todos os dias, muitos destes indivíduos ficam nas duas praças aqui em volta, cobrando dinheiro de quem estaciona e ameaçando se riscar os carros. Eles ficam aqui por que recebem comida e banho. Este albergue precisa sair daqui! Não temos mais segurança", relata.
Próximo dali, outro comerciante que trabalha como cabeleireiro e há mais de dez anos é vizinho do albergue, diz que recentemente foi vítima de um assalto. "O marginal não era do albergue, mas vi ele passar aqui várias vezes acompanhado de outros que comem e moram ali", explicou o homem que prefere não divulgar seu nome.
Bem próximo do local uma moradora da mesma rua há mais de 30 anos, que também prefere manter sua identidade em sigilo, destaca que o maior problema está nos fim de semana. "Eles ficam nas praças, bebendo e sujando. Sei que muitos não querem o albergue próximo de sua casa, mas nas últimas décadas já cumprimos nossa cota. Esta na hora de mudar", pede a moradora.
Administração do albergue
Na busca de uma solução rápida para diminuir o clima de tensão a Secretária de Cidadania, mudou administração do albergue, que desde janeiro é coordenado por Isakiel Silva da Fonseca. O novo coordenador, explica que todos que entram no albergue estão sendo revistados e orientados a seguirem as regras. “Não temos como controlar do lado de fora, mas aqui dentro os problemas diminuíram”, ressaltou Fonseca, que mostrou as armas apreendidas, entre os materiais, facas, facões artesanais e até mesmo pedaços de objetos que simulam falsos revólveres.
Fonseca confirma que ainda existem a situação de alguns moradores de rua, irem ao local apenas para se alimentar e tomar banho. “Não podemos fechar as portas para essas pessoas, reforçamos a segurança e estamos trabalhando alternativas para melhorar”, ressalta o coordenador que mostrou o espaço organizado e bem limpo a reportagem.
Segundo Fonseca, no caso do jovem que confessou a morte da universitária, ele confirmou que Marcos Lima Trindade (18), frequentava o local a pouco mais de um ano. “Era considerado um exemplo entre os albergados, já chegou a dormir aqui algumas vezes, sempre respeitava os funcionários e na última semana queria refazer seus documentos e nos pediu ajuda”, lembrou o administrador.
A assistente social do albergue, Leda Ramos, lembrou que o rapaz que morava na rua, tem família em Erechim, em que os mesmos não o quiseram novamente pelo seu envolvimento no mundo das drogas. “Infelizmente, histórias assim em que a família não quer por causa das drogas, são comuns, mas estamos sempre buscando que estas pessoas voltem para suas casas”, finalizou a funcionária.