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Transtornos mais comuns entre crianças e adolescentes em idade escolar

Transtornos mais comuns entre crianças e adolescentes em idade escolar

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Crianças transtorno
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Por Ricardo Fasolo
Foto Shutterstock

Especialista explica como família e escola podem trabalhar juntas na identificação e no tratamento de psicopatologias

*Por Ricardo Fasolo - Médico psiquiatra, especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência e Psicoterapia

A psiquiatria da infância e da adolescência possui características muito particulares, pois embora sendo uma especialidade médica, com raízes muito profundas na pediatria, na psiquiatria, na neurologia e na genética, apresenta também interface extremamente importante com as correntes de psicologia do desenvolvimento, da pedagogia e dos estudos sociais ligados à família.

O que nós somos? Somos herança genética, que sofre a influência epigenética e do ambiente (cuidadores e experiências de vida se entrelaçam produzindo o desenvolvimento próprio de cada indivíduo). Os primeiros anos de vida (especialmente de zero a três anos) são essenciais como base psico-biológica do desenvolvimento. Os estados carências (nutricionais, afetivos) neste período podem ter repercussões tardias de variadas extensões, dependendo da resiliência de cada criança.

A literatura científica nos últimos anos tem contribuído para a identificação dos possíveis fatores associados à ocorrência de transtornos mentais, os quais podem ser agrupados em: fatores biológicos, relacionados a anormalidades do sistema nervoso central, causadas por lesões, infecções, desnutrição ou exposição a toxinas; fatores genéticos, relacionados à história familiar de transtorno mental; fatores psicossociais, relacionados a disfunções na vida familiar e situações indutoras de estresse; e fatores ambientais, como problemas na comunidade (violência urbana) e tipos de abuso (físico, psicológico e sexual).

Os transtornos mentais são frequentes na infância e adolescência (pré-escolares 8%, pré-adolescentes 12%, adolescentes 15%). As psicopatologias mais prevalentes nessa faixa etária são depressão, transtornos de ansiedade, TDAH, uso de substâncias e transtorno de conduta, associados principalmente com fatores biológicos, genéticos e ambientais, tais como sexo masculino, histórico familiar de transtorno mental, violência familiar e comunitária. É importante destacar a presença  dos transtornos de aprendizagem (dislexia, disgrafia, discalculia) que são comprometimentos específicos e significativos das habilidades escolares, podem coexistir com outros transtornos e persistir até a idade adulta. Quando estamos diante de dificuldades de aprendizado devemos avaliar se existe rebaixamento cognitivo, deficiência neurossensorial, transtornos neurológicos, aspectos emocionais e transtornos psiquiátricos.

Ao analisarmos a epidemiologia dos transtornos mentais na escola verificamos as seguintes prevalências: distúrbios na área de conduta (53,84%): agressividade, indisciplina e violência; problemas com a família (47,25%): transferência de responsabilidade dos pais para escola, não aceitação dos problemas, abuso sexual, negligência, desestruturação familiar; dificuldades emocionais (24,17%): falta de interesse, desânimo, baixa tolerância a frustração, ansiedade de separação; questões de desenvolvimento (21,97%): linguagem, controle esfincteriano, medos, dificuldades de aprendizagem (13,18%) e TDAH (8,79%). Um assunto que merece destaque é Bullying escolar que é um fenômeno difícil de ser detectado porque sua prática às vezes é velada, sendo confundido com violência escolar, mas com grande poder destrutivo.

As sugestões aos professores são: não é papel do professor realizar diagnósticos de transtornos mentais, porém ao identificar um aluno possivelmente portador de alguma psicopatologia é fundamental conversar em particular com o aluno, com os familiares do aluno, orientar o encaminhamento para avaliação psiquiátrica e manter a comunicação com os profissionais da saúde durante o tratamento. A função da escola é identificar, acolher e orientar. Segundo a LDB nº 02/2001 a inclusão escolar não significa matricular todos os educandos com necessidades especiais na classe comum, ignorando suas necessidades específicas, mas significa dar ao professor e à escola o necessário a sua ação pedagógica. O psiquiatra deve realizar a psicoeducação explicando o possível diagnóstico, a importância do uso de psicofarmacos, se forem necessários, na dose correta, o tempo de tratamento, para os pais, familiares, professores, todos profissionais, pessoas próximas esclarecendo as dúvidas, expectativas e formando um vínculo de confiança decisivo para o sucesso terapêutico.

Problemas de comportamento na infância representam déficits ou excessos comportamentais que prejudicam não só a interação da criança com seus pares e adultos, como também a aquisição de repertórios adequados de aprendizagem. Tais problemas, quando não identificados, costumam provocar prejuízos funcionais em diversas áreas da vida da criança e do adolescente. Alguns dos fatores de risco mais estudados, relacionados a problemas de saúde mental e de comportamento na infância, são as habilidades sociais deficitárias, as dificuldades no desempenho acadêmico e as práticas educativas parentais inadequadas. Quando os pais estabelecem um ambiente familiar adequado (clima emocional familiar positivo, suporte à autonomia, estruturação de regras e rotinas no lar) e propiciam momentos favoráveis ao desenvolvimento infantil, eles estão criando fatores de proteção frente a situações ameaçadoras às quais as crianças podem ser expostas.

A verdade salva vidas sendo um dever da sociedade, incluindo obviamente os profissionais da saúde, abolir a negação. Quando diagnosticamos e tratamos corretamente as enfermidades mentais na infância e adolescência, criamos a possibilidade de melhorar toda a trajetória de uma vida e da sociedade.

 

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