Iniciativa da ONU reforça a importância do ensino pela prevenção da violência contra as mulheres e meninas
Uma iniciativa da ONU Mulheres deve promover a discussão sobre a igualdade de gênero nas escolas neste ano. Intitulada “Volta às aulas sem machismo”, a proposta consiste no incentivo da abordagem em sala de aula de temas como estereótipos de gênero, masculinidades e violência. Para isso, a entidade, - ligada à Organizações das Nações Unidas - divulgou na última semana um currículo e seis planos de aula sobre estes assuntos para que eles possam ser discutidos com os estudantes no decorrer do ano letivo.
“Para prevenir a violência decorrente do machismo, a ONU Mulheres lembra a importância de promover a prevenção da violência contra mulheres e meninas nas instituições de ensino, como as escolas e universidades, por se tratarem de espaços voltados para a formação integral de meninos e meninas, homens e mulheres, para o exercício da cidadania e a promoção de mudanças sociais”, consta na justificativa da proposta.
A iniciativa traz ainda dados do relatório da UNESCO sobre violência escolar e bullying, lançado no dia 17 de janeiro deste ano. O documento aponta, segundo a ONU, que milhões de meninas e meninos sofrem violência relacionada ao ambiente escolar todo ano. “O relatório destaca ainda que a violência escolar é impulsionada por “dinâmicas de poder desiguais, que muitas vezes são reforçadas por normas e estereótipos de gênero, orientação sexual e demais fatores que contribuem para a marginalização – como pobreza, identidade étnica ou idioma”.
Secretaria de Educação apoia a ideia
A Secretaria Municipal de Educação apoiou a iniciativa da ONU Mulheres e deverá levar os temas sugeridos pela ONU para abordagem em sala de aula. De acordo com a coordenadoria pedagógica da secretaria, o assunto bem como os planos de aula serão apresentados às coordenadorias escolares para pautarem discussões com os discentes. Na 15ª Coordenadoria Regional de Educação, conforme o setor pedagógico, algumas iniciativas semelhantes por parte de escolas já promovem o debate destes assuntos. Entretanto, a coordenadoria ainda não definiu se a proposta da ONU Mulheres será levada às escolas, uma vez que a pessoa responsável pelo planejamento com as instituições está de férias.
“Tema pertinente e necessário”
Professora da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Naira Roesler Mohr elogiou a proposta da ONU Mulheres. Ela trabalha a disciplina de História da Educação no curso de Pedagogia na instituição e ressalta ser comum nesta área a desqualificação da profissão motivada por questões históricas. “Mesmo na área da educação temos uma desigualdade muito grande com as mulheres, já que a elas por muito tempo foi negado o direito de buscarem qualificação profissional e estas foram sujeitadas a determinadas profissões. A própria ideia que se tem dos pedagogos já se volta aos estereótipos de gênero ao se acreditar que a mulher se sairia melhor porque ela teria o “dom de cuidar da criança”, o que acaba, muitas vezes, afastando os homens desta profissão”, ressalta.
Nesse contexto, ela pontua a necessidade de desconstrução em sala de aula. “Até porque, partindo da sala de aula a reflexão sobre igualdade de gênero, os alunos acabarão levando aos seus discentes essa pauta e, consequentemente, contribuindo para que crianças possam crescer com uma visão diferente acerca do papel das mulheres na sociedade”, afirma. “A longo prazo isso certamente refletirá em um tratamento mais igualitário e justo no sentido de não reforçar mais os fatores que resultam na violência contra as mulheres”, enfatiza.
Delegada reforça a importância da discussão sobre o tema
A delegada Diana Zanatta, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, também reforçou a importância da discussão de temas que visem o fim da violência contra as mulheres. “É uma pauta de extrema relevância. Inclusive eu credito a violência contra a mulher como algo cultural e justamente por isso precisa ser trabalhado desde cedo não apenas no âmbito criminal, mas especialmente na formação do indivíduo”, pondera.
A delegada salienta ainda que quanto mais cedo são trabalhados estes assuntos, melhor é o resultado a longo prazo. “A abordagem sobre igualdade de gênero deve começar ainda na família, pois é onde se começa a formação que resultará na cultura que a criança terá. E é na escola que esse tema deverá ser ainda mais enfatizado ao longo da formação pessoal, pois só assim que poderemos vislumbrar mudanças positivas no cenário de violência contra a mulher que ainda hoje, infelizmente, é assustador”, completa.
Suporte para professores
Segundo a ONU Mulheres, “uma das formas de prevenir a violência é garantir que os profissionais de educação estejam preparados para ensinar sobre igualdade de gênero. Com o intuito de contribuir com a transversalização do ensino de gênero, a ONU Mulheres elaborou um currículo e seis planos de aula para conscientizar professores e professoras, meninos e meninas sobre o direito das mulheres e meninas a uma vida livre de violências”. Financiado pelo União Europeia, o currículo também trabalha o conceito de masculinidades, com o intuito de promover masculinidades positivas e desconstruir comportamentos machistas. As aulas abordam os seguintes temas: Sexo, gênero e poder; Violências e suas interfaces; Estereótipos de gênero e esportes; Estereótipos de gênero, raça/etnia e mídia; Estereótipos de gênero, carreiras e profissões: diferenças e desigualdades e Vulnerabilidades e Prevenção. O currículo e os planos de aula podem ser acessados aqui.