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Saúde

Neuroarquitetura traz mais segurança e autonomia para população 60+

Iluminação, organização dos espaços e escolhas de cores ajudam a reduzir riscos, facilitar a orientação e melhorar o bem-estar de idosos

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Um ambiente para pessoas 60+ deve unir acolhimento, conforto, segurança e funcionalidade, promovendo
A arquiteta especialista em neuroarquitetura Daniela Gasparin, explica que a neuroarquitetura aplica
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Divulgação IA e Marcelo V. Chinazzo

O envelhecimento torna mais perceptíveis os efeitos que os espaços exercem sobre o cérebro e a qualidade de vida. Segundo a arquiteta especialista em neuroarquitetura Daniela Gasparin, os ambientes não apenas são ocupados pelas pessoas, mas também influenciam sua forma de viver, perceber e interagir com o mundo.

“A neuroarquitetura, na verdade, a neurociência, faz com que a gente entenda como é que o cérebro funciona e como algumas decisões de projeto vão influenciar no nosso cérebro, no nosso cotidiano”, explica.

Para Daniela, muitos elementos que passam despercebidos por adultos mais jovens podem representar obstáculos importantes para quem envelhece, especialmente em razão das mudanças na mobilidade, na visão e na orientação espacial.

Layout, iluminação e cores fazem diferença

Entre os cuidados mais importantes está a organização do ambiente. Móveis posicionados no caminho de circulação, peças muito baixas e quinas vivas aumentam o risco de acidentes, já que a mobilidade e a visão periférica tendem a diminuir com a idade.

A iluminação também precisa ser adaptada. Daniela explica que uma pessoa com mais de 60 anos pode necessitar de até três vezes mais iluminação do que um adulto jovem para desempenhar as mesmas atividades com conforto visual. Além da intensidade, a distribuição da luz deve ser uniforme para reduzir áreas de sombra e evitar o ofuscamento, que dificulta a adaptação da visão entre ambientes claros e escuros.

A luz natural também exerce papel importante ao regular o ciclo circadiano, favorecer a produção de serotonina e contribuir para o bem-estar. Já durante a noite, a arquiteta recomenda atenção à temperatura da iluminação artificial. “Nós temos neurotransmissores no nosso olho que acabam absorvendo a luz azul e mandando uma mensagem para o nosso cérebro para produzir mais cortisol, consequentemente, ficamos acordados mais tempo”, afirma.

Por isso, em áreas de descanso, como quartos e salas, a preferência deve ser por iluminação mais amarelada, enquanto luzes muito brancas ficam mais indicadas para locais onde é necessário maior estado de alerta.

As cores também influenciam a percepção dos ambientes. Com o envelhecimento, o cristalino do olho sofre alterações e tons como azul e verde passam a ser percebidos com maior dificuldade. Daniela explica que o uso de cores mais quentes, como vermelho e laranja, pode favorecer a percepção visual, enquanto o contraste entre pisos, paredes e móveis facilita a identificação dos espaços e reduz o risco de acidentes.

Adaptações podem ser feitas em casas já existentes

A especialista ressalta que não é necessário construir uma residência do zero para aplicar princípios da neuroarquitetura. Mudanças simples podem tornar os ambientes mais seguros e acolhedores.

Entre elas estão o aumento da potência da iluminação, a alteração das cores e a criação de referências visuais que auxiliem na orientação espacial. Como o hipocampo, região responsável pelo chamado GPS mental, costuma ser uma das primeiras áreas afetadas pelo envelhecimento, fotografias, objetos pessoais e elementos de identificação podem ajudar na localização dentro da própria casa. “Ter fotos e objetos que façam com que ele se reconheça e reconheça aquele espaço como dele e usar cores que ativem essas lembranças”, orienta Daniela, especialmente em projetos voltados para pessoas com Alzheimer ou outras demências.

Evidências mostram que o ambiente influencia o comportamento

A neuroarquitetura reúne pesquisas que relacionam as características dos espaços às respostas do cérebro. Daniela explica que esses estudos começaram a partir da observação do comportamento das pessoas em diferentes ambientes e também por meio de exames capazes de medir a atividade cerebral.

Ela cita como exemplo a diferença entre lanchonetes de fast food e restaurantes tradicionais. Enquanto os primeiros costumam utilizar iluminação branca, mobiliário desconfortável e permanência limitada, restaurantes investem em iluminação mais quente e móveis confortáveis para estimular que o cliente permaneça por mais tempo. “Os ambientes sempre são construídos com uma intenção, de que a pessoa permaneça ou não, de que ela saiba se locomover naquele espaço ou não”, afirma.

Casa acolhedora também favorece autoestima e segurança

Segundo Daniela, a maneira como o cérebro percebe os ambientes está relacionada a diferentes regiões responsáveis por emoções, memória e processamento das informações espaciais.

Ela explica que espaços com pouca iluminação natural, pé-direito baixo e características que geram desconforto tendem a provocar respostas de maior estresse. Em contrapartida, ambientes que respeitam as experiências e memórias de cada pessoa favorecem a sensação de pertencimento. “A nossa casa é um ambiente que precisa nos acolher e isso vai acontecer desde que seja um espaço que acolha nossas vivências e nossas memórias”, diz.

O contato com áreas verdes e com a iluminação natural também faz parte desse processo. Além de auxiliar na regulação do relógio biológico, esses elementos estão associados à melhora do humor e da qualidade do sono, aspectos frequentemente comprometidos entre pessoas idosas.

Vitalidade e prevenção caminham juntas

Para Daniela, pensar em um projeto voltado à qualidade de vida significa também prevenir acidentes. Ela considera que acessibilidade e estímulos ao bem-estar fazem parte da mesma estratégia. “Eu acredito que isso ande de mãos dadas porque para evitar acidentes a gente pensa em acessibilidade e acessibilidade tem normas. No momento que se vai projetar para que a pessoa mantenha a vitalidade e a qualidade de vida, você também vai pensar em evitar acidentes e pensar em uma acessibilidade e uma boa mobilidade dentro daquele espaço”.

Ela compara esse cuidado à prevenção na saúde, afinal é mais eficiente preparar o ambiente antes que ocorram quedas ou outras complicações do que realizar adaptações somente após o surgimento dos problemas.

Ambientes também ajudam a reduzir a sensação de isolamento

Com o avanço da idade, muitas pessoas passam mais tempo dentro de casa. Nesse contexto, características do ambiente podem contribuir para reduzir a sensação de isolamento.

A arquiteta recomenda projetos que favoreçam a conexão com o exterior, por meio de janelas amplas e áreas externas que permitam observar o movimento das pessoas, da natureza e dos animais. Fotografias, obras de arte e objetos com significado pessoal também estimulam conversas durante visitas e ajudam a preservar o sentimento de pertencimento.

Tecnologia deve respeitar memórias e identidade

Na avaliação da especialista, inovação e memória afetiva não são conceitos incompatíveis. Ela explica que cada projeto precisa considerar a história de quem vai ocupar aquele espaço. “Quando falamos em neuroarquitetura, buscamos não só focar no pedido do cliente, mas em entender qual a verdadeira necessidade por trás”, comenta.

Mesmo quando não é possível reproduzir exatamente o ambiente desejado, materiais, texturas, cores e soluções construtivas podem remeter às lembranças afetivas sem comprometer a funcionalidade. “O profissional tem que ter empatia e entender que não cabe a ele dar opiniões pessoais, pois não é ele que vai morar lá. Mas auxiliá-lo, apontar caminhos, mostrar as opções para ajustar o projeto ao gosto do cliente, deixando o funcional e adequado”, afirma a arquiteta.

Lições para além das residências

Os princípios da neuroarquitetura também podem orientar o planejamento urbano. Daniela considera que acessibilidade, iluminação pública de qualidade e redução dos ruídos devem estar entre as prioridades das cidades que buscam promover o envelhecimento ativo.

Calçadas irregulares, ausência de rampas e iluminação inadequada dificultam a circulação de idosos e aumentam o risco de acidentes. Ela também defende o uso de vegetação como forma de reduzir o impacto sonoro em áreas de grande circulação de veículos.

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