Perda de peso sem explicação, dor persistente nas costas e diabetes surgido de forma repentina após os 50 anos raramente despertam preocupação quando aparecem isoladamente. No entanto, quando esses sinais se manifestam juntos ou persistem por semanas, podem indicar um dos tipos de câncer mais difíceis de diagnosticar, o câncer de pâncreas.
Considerado um tumor agressivo e de rápida evolução, o câncer de pâncreas costuma ser identificado em estágios avançados. Estudos recentes apontam que menos de 20% dos pacientes recebem o diagnóstico na fase inicial da doença, reduzindo as possibilidades de tratamento curativo.
Por que o diagnóstico é tão difícil?
A principal explicação está na localização do órgão. O pâncreas fica em uma região profunda do abdômen, atrás do estômago e de outras estruturas digestivas. Essa posição dificulta sua visualização em exames convencionais, como o ultrassom, além de impedir que alterações sejam percebidas em um exame físico de rotina.
Diferentemente de outros tumores, como o câncer de mama ou de próstata, não existe atualmente um método de rastreamento eficaz e seguro para aplicação em toda a população sem sintomas.
Outro fator importante é o comportamento biológico do tumor. Mesmo lesões pequenas, com apenas um ou dois centímetros, podem se disseminar para outros órgãos antes de provocar qualquer sinal perceptível. Quando os sintomas surgem, a doença muitas vezes já está em estágio avançado.
Sintomas confundidos com problemas comuns
Os primeiros sinais do câncer de pâncreas costumam ser inespecíficos e semelhantes aos de problemas digestivos frequentes. Entre eles estão desconforto abdominal, sensação de estômago cheio, má digestão, diarreia e alterações no funcionamento intestinal.
Um dos sintomas mais característicos é uma dor na região superior do abdômen que se irradia para as costas. Em muitos casos, ela piora quando a pessoa se deita e melhora ao inclinar o corpo para frente. Por se parecer com gastrite ou dores musculares, o sintoma frequentemente é subestimado.
A icterícia, caracterizada pelo amarelamento da pele e dos olhos, também pode surgir. Geralmente, esse sinal aparece quando o tumor já está obstruindo o ducto biliar, sendo associado a fases mais avançadas da doença.
Diabetes após os 50 anos acende alerta
Uma relação cada vez mais estudada pelos especialistas é o surgimento repentino de diabetes em pessoas acima dos 50 anos sem histórico prévio da doença. Conhecido como “new onset diabetes”, esse quadro pode ser um dos primeiros indícios do câncer de pâncreas.
Um estudo prospectivo publicado em 2025 na revista Gastroenterology acompanhou quase 19 mil adultos com diabetes de início recente e identificou aumento do risco de desenvolvimento de câncer de pâncreas nos três anos seguintes ao diagnóstico.
Outro sinal de atenção ocorre em pacientes que já tinham diabetes tipo 2 controlado e, sem motivo aparente, passam a apresentar dificuldade para controlar os níveis de glicose.
Ao contrário do diabetes tipo 2 tradicional, geralmente associado à obesidade, sedentarismo e ganho de peso, o diabetes relacionado ao câncer de pâncreas costuma vir acompanhado de emagrecimento involuntário, característica que deve motivar investigação médica.
Quando procurar avaliação especializada
Especialistas recomendam atenção aos sintomas persistentes, especialmente quando acompanhados de perda de peso. Icterícia, urina escura, fezes claras ou esbranquiçadas, náuseas, vômitos e dores abdominais que permanecem por semanas sem melhora merecem avaliação médica.
Pessoas com fatores de risco, como tabagismo, obesidade, histórico familiar de câncer de pâncreas e pancreatite crônica, devem manter acompanhamento regular e buscar orientação diante de qualquer alteração suspeita.
Novo tratamento amplia expectativa de sobrevida
Apesar dos desafios no diagnóstico, avanços recentes no tratamento trazem perspectivas animadoras. Durante o Congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO), pesquisadores apresentaram resultados promissores do daraxonrasib, medicamento ainda em fase experimental.
A terapia é direcionada à mutação genética KRAS G12, presente em mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas. Nos estudos apresentados, o medicamento reduziu em 60% o risco de morte em comparação com a quimioterapia convencional.
Os dados também mostraram aumento expressivo da sobrevida mediana global, que passou de 6,7 meses para 13,2 meses. Embora ainda dependa de novas etapas de avaliação, o resultado representa uma das mais relevantes perspectivas de avanço no tratamento da doença nos últimos anos.