A última noite da 27ª Feira do Livro – Jardim do Quintana, em Erechim, contou com a participação do escritor Itamar Vieira Junior, autor do romance Torto Arado. O encontro ocorreu no painel principal do evento, na Praça Prefeito Jayme Lago, reunindo leitores e participantes interessados na trajetória do autor e nos temas presentes em sua obra.
O escritor participou da programação por meio do Circuito Sesc de Literatura, iniciativa que percorre o Rio Grande do Sul promovendo o acesso à leitura e o diálogo com nomes da literatura brasileira contemporânea.
A abertura da atividade contou com apresentação artística dirigida por Rafa Hoss, presidente do Instituto Erechinense de Artes do Palco (IEAP), com interpretação da atriz Cordélia Borba da poesia “Gritaram-me negra”, da poetisa peruana Victoria Santa Cruz. Também foram realizadas leituras de trechos de Torto Arado pelas agentes de cultura do Sesc Erechim, Fernanda Barbosa e Leidi Lis Barbieri.
Baiano de Salvador, nascido em 1979, Itamar Vieira Junior é geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos. Sua produção literária aborda temas ligados ao universo rural, à exclusão social e ao realismo mágico presente nas vivências sertanejas. Torto Arado já ultrapassou a marca de 900 mil cópias vendidas e recebeu os prêmios LeYa, Oceanos e Jabuti. A obra também integrou a lista de leituras obrigatórias dos vestibulares da UEL 2025 e da UFSC 2025.
Durante a conversa, Itamar relatou que sua experiência profissional como geógrafo e analista agrícola influenciou diretamente a construção de Torto Arado. Segundo ele, durante cerca de 20 anos trabalhou em contato com agricultores, assentados da reforma agrária, indígenas e quilombolas nos estados do Maranhão e da Bahia.
“Eu os escutava falarem, contarem a sua relação com a terra. Muitas vezes era uma história de dor e luta, mas para mim também era uma história de amor”, afirmou.
O escritor explicou que, ao longo da escrita, percebeu que a relação dessas comunidades com a terra ultrapassava a ideia de afeto. “Eu fui me dando conta de que aquela não era uma história de amor. Era algo maior que o amor. A terra era um espaço vital para que a vida deles acontecesse”, disse.
Segundo o autor, o acesso à terra representa uma necessidade fundamental para todos os seres vivos. “Esse direito à terra é um direito elementar e vital”, afirmou durante a palestra.
Publicação e reconhecimento
O autor também relembrou o processo de publicação de Torto Arado. Sem editora no Brasil naquele momento, decidiu inscrever o manuscrito no Prêmio LeYa, em Portugal, utilizando um pseudônimo.
Após a conquista do prêmio, o livro foi publicado inicialmente em Portugal e depois chegou ao mercado brasileiro. Segundo Itamar, a obra ganhou leitores de forma gradual, especialmente durante a pandemia, período em que participou de encontros virtuais com clubes de leitura.
“Muita gente ansiava por ler o Brasil”, afirmou ao comentar o interesse dos leitores pelas diferentes realidades retratadas na literatura contemporânea brasileira.
Literatura e alteridade
Ao longo da palestra, o autor refletiu sobre o papel da literatura na construção da empatia e da compreensão das diferenças. “Quando a gente lê, pode viver outros tempos, outros espaços e outras vidas. Viver outras vidas é um grande exercício de alteridade”, disse.
Itamar também comentou os impactos das redes sociais e das polarizações na convivência entre pessoas com diferentes visões de mundo. “As redes sociais formam bolhas. O medo de conviver com o diferente tem atravessado o nosso tempo”, afirmou.
Segundo ele, a literatura atua em sentido contrário. “A leitura vai no caminho contrário, está nos convidando a viver a alteridade, a se colocar no lugar do outro”, declarou.
Influências literárias
Na etapa final do encontro, o público participou com perguntas. Questionado sobre possíveis influências do escritor Erico Verissimo na construção da personagem Bibiana, de Torto Arado, Itamar confirmou a relação com Bibiana Terra Cambará, da obra O Tempo e o Vento.
Ele também citou a influência de Jorge Amado em sua formação literária. “Não tenho dúvida de que a literatura do Erico Verissimo e do Jorge Amado foi importante para sedimentar em mim o desejo de escrever”, afirmou.
Durante a resposta, o autor contou que começou a escrever uma primeira versão de Torto Arado ainda aos 16 anos, em uma máquina de escrever. O manuscrito acabou perdido durante uma mudança de residência, mas a ideia da obra permaneceu até ser retomada anos depois. “Entre a primeira versão e a segunda versão foram 20 anos”, contou.