A antiga recomendação de repouso para pacientes com câncer vem sendo substituída por uma abordagem ativa, baseada em evidências. Durante o XI Congresso Internacional Oncologia D’Or – Onco in Rio 2026, no Rio de Janeiro, especialistas destacaram que exercícios físicos são seguros durante o tratamento e contribuem significativamente para melhores resultados clínicos e qualidade de vida.
Um dos destaques foi o estudo Challenge, divulgado em 2025, com cerca de 900 pacientes com câncer colorretal. Os dados mostram que programas estruturados de exercícios reduziram em 28% o risco de recidiva e em 37% o risco de morte por qualquer causa, impacto comparável ao de terapias como a quimioterapia, mas com menos efeitos adversos.
Para os pesquisadores, os benefícios são tão expressivos que, se o exercício pudesse ser transformado em medicamento, seria amplamente prescrito. Além de melhorar a capacidade funcional, a prática regular também reduz processos inflamatórios ligados à progressão de diferentes tipos de câncer.
Benefícios que vão além da prevenção
A atividade física traz benefícios que vão além da prevenção do câncer, atuando também durante e após o tratamento. Ela melhora a capacidade cardiorrespiratória, a força muscular, a saúde óssea e a autonomia, além de contribuir para uma recuperação cirúrgica mais rápida e menor tempo de internação.
O exercício também reduz efeitos colaterais de terapias oncológicas, como a cardiotoxicidade, e melhora a saúde mental, o sono e a fadiga, um dos sintomas mais comuns e debilitantes. Nesse cenário, destaca-se como principal estratégia não medicamentosa para controle da fadiga em pacientes oncológicos.
Prescrição individualizada é fundamental
Apesar do consenso sobre os benefícios, especialistas alertam que recomendar apenas “atividade física” não é suficiente. A adesão aumenta quando há orientação estruturada e personalizada, com destaque para o modelo FITT, que ajusta frequência, intensidade, tempo e tipo de exercício às condições clínicas do paciente.
A proposta é encarar o exercício como um “medicamento”, com posologia definida. Em geral, recomenda-se de 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, além de duas a três sessões de resistência muscular. Ainda assim, a individualização é fundamental para segurança e eficácia.
De modo geral, o exercício é seguro para pacientes oncológicos, mas há situações que exigem cautela, como metástases ósseas, trombocitopenia importante, infecções ativas ou anemia severa. Nesses casos, prefere-se adaptar as atividades em vez de suspendê-las totalmente.
Embora ainda não seja prática consolidada em todos os consultórios, a prescrição de exercícios tende a se expandir. A disseminação do conhecimento em eventos científicos vem acelerando essa mudança de paradigma na oncologia.
Desafios e caminhos nas políticas públicas
Especialistas defendem a ampliação do debate sobre atividade física nas políticas públicas, garantindo o acesso ao movimento como um direito e promovendo saúde de forma mais equitativa, inclusive entre pacientes com câncer. Nesse contexto, é essencial considerar experiências individuais e sociais que influenciam a relação com o exercício, já que vivências negativas, muitas vezes no ambiente escolar, podem gerar resistência à prática.
Identificar essas barreiras e desenvolver estratégias inclusivas é fundamental para reaproximar a população da atividade física, sem impor modelos únicos, mas oferecendo alternativas adaptadas às diferentes realidades. A consolidação do exercício como parte do tratamento oncológico representa uma mudança importante, trazendo uma ferramenta terapêutica com potencial de melhorar prognósticos e a qualidade de vida de pacientes.