O mundo pode parecer irreal e distante, como se estivéssemos dentro de um filme ou simulação, com cores mais intensas, sons amplificados e sensação de observar a si mesmo de fora. Esses relatos correspondem a sintomas de despersonalização e desrealização, que podem surgir isoladamente ou formar o transtorno de despersonalização-desrealização (DPDR). O fenômeno está ligado a ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e burnout, mas também pode ocorrer como um transtorno dissociativo independente, marcado pela desconexão da própria experiência ou da realidade.
Quem sofre com o DPDR?
Pesquisas apontam que até 70% dos adultos já vivenciaram episódios de despersonalização ou desrealização, geralmente em situações de estresse, privação de sono ou mudanças bruscas. Embora passageiras na maioria dos casos, em 1% a 2% das pessoas os sintomas se tornam crônicos, causando intensa angústia. A causa exata do transtorno persistente ainda é desconhecida, mas estudos sugerem que a ativação contínua do sistema de “luta ou fuga” altera o cérebro: o córtex pré-frontal fica hiperativo, a amígdala, responsável pelas emoções, subativa, gerando distanciamento do corpo e do ambiente.
Gatilhos e fatores de risco
Estresse crônico, sobrecarga emocional e transtornos como ansiedade, depressão, pânico, TOC e transtorno pós-traumático estão entre os principais gatilhos do transtorno de despersonalização. Experiências traumáticas na infância, luto e uso de drogas, especialmente maconha, também podem contribuir, ao alterar a química cerebral e intensificar sensações de medo e irrealidade. Os sintomas podem surgir sem um evento isolado, resultado do acúmulo de momentos em que a pessoa reprime emoções, e sua intensidade varia conforme medos, traumas e experiências individuais.
Sintomas que confundem a percepção
A despersonalização e a desrealização são distúrbios de percepção que alteram a experiência de si mesmo e do ambiente. Na despersonalização, a pessoa sente-se distante do próprio corpo, pensamentos e emoções, muitas vezes relatando funcionamento automático ou sensação de estar fora de si. Já a desrealização faz o mundo parecer artificial ou irreal, com mudanças em visão, sons e percepção de espaço. Apesar dessas alterações intensas, a capacidade de distinguir realidade de percepção permanece preservada.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico é clínico e exige excluir outras condições neurológicas ou psiquiátricas, sendo baseado em sintomas persistentes que prejudicam a vida cotidiana. A duração varia, frequentemente prolongada pela hipervigilância, que intensifica a ansiedade e a sensação de irrealidade. O tratamento é principalmente psicoterápico, com psicoeducação e terapia de aceitação e compromisso para reduzir o ciclo de ansiedade. Em casos específicos, podem ser usados antidepressivos ISRS ou estimulação magnética transcraniana. O objetivo é reconectar o paciente consigo mesmo e com o mundo, diminuindo o distanciamento.
Um transtorno ainda pouco conhecido
O transtorno de despersonalização/desrealização (DPDR) ainda é pouco reconhecido, inclusive por profissionais de saúde mental, levando muitos pacientes a buscar informações na internet. A literatura científica é limitada, e sua inclusão no DSM-5 em 2013 ajudou a ampliar o conhecimento, embora lacunas permaneçam. Apesar da complexidade, o DPDR pode ser tratado: com acompanhamento psicológico e compreensão do próprio organismo, é possível recuperar a percepção de si e do mundo, retomando experiências emocionais e sensação de pertencimento à realidade.