A pré-eclâmpsia segue como uma das principais complicações da gravidez e um desafio permanente para a saúde materna no Brasil e no mundo. Associada a quadros de hipertensão após a 20ª semana de gestação e a possíveis comprometimentos de órgãos como rins, fígado, cérebro e placenta, a condição exige diagnóstico precoce, acompanhamento rigoroso e condutas baseadas em evidências para reduzir riscos à mãe e ao bebê.
Diagnóstico evoluiu e permite identificação mais precoce
Durante muitos anos, a pré-eclâmpsia foi definida pela combinação de pressão alta e presença de proteína na urina. Hoje, os critérios são mais amplos e possibilitam reconhecer casos mesmo sem essa alteração laboratorial.
“Hoje sabemos que a pré-eclâmpsia não é apenas pressão alta com perda de proteína na urina, como se dizia antes”, esclarece a ginecologista, obstetra e especialista em Medicina Fetal, Dra. Marianne Ongaratto Lumi. Segundo a médica, a ausência de proteína na urina não exclui o diagnóstico, já que outros sinais de disfunção orgânica também fazem parte da avaliação clínica.
A triagem de risco começa ainda no primeiro trimestre. Entre a 11ª e a 14ª semana, juntamente com o ultrassom morfológico, é possível identificar gestantes com maior probabilidade de desenvolver a doença. O protocolo inclui dopplervelocimetria das artérias uterinas, aferição da pressão arterial em ambos os braços, análise do peso, altura e histórico clínico da paciente.
Entre os principais fatores de risco estão histórico prévio de pré-eclâmpsia, gestação gemelar, hipertensão arterial, doenças renais, diabetes, doenças autoimunes como lúpus, obesidade, idade materna inferior a 18 ou superior a 35 anos e histórico familiar da condição.
Prevenção e tratamento dependem da gravidade
Atualmente, há estratégias eficazes de prevenção, especialmente para gestantes com maior risco. O uso de aspirina em baixa dose (ácido acetilsalicílico – AAS), quando iniciado no primeiro trimestre e sob orientação médica, tem apresentado resultados positivos na redução da incidência da doença.
O tratamento depende da gravidade e da idade gestacional. Nos quadros leves, com o bebê em boas condições, a conduta é prolongar a gestação com segurança, por meio de controle rigoroso da pressão arterial, consultas mais frequentes e exames de monitoramento.
Já nos casos graves, pode ser necessária internação hospitalar e administração de medicamentos para prevenir complicações, como convulsões. Em determinadas situações, o parto precisa ser antecipado, mesmo em casos de prematuridade, já que o nascimento é a única forma definitiva de interromper a progressão da doença.
Riscos persistem no pós-parto e a longo prazo
A pré-eclâmpsia pode evoluir rapidamente e provocar complicações graves, como convulsões, insuficiência de órgãos e síndrome de HELLP, além de aumentar o risco de mortalidade materna. Para o bebê, há maior probabilidade de restrição de crescimento intrauterino, prematuridade e sofrimento fetal.
A médica alerta para sintomas que exigem avaliação imediata: dor de cabeça intensa e persistente, alterações visuais, dor forte na parte superior do abdome, inchaço repentino no rosto e nas mãos, náuseas e vômitos no fim da gestação, sangramento vaginal e diminuição dos movimentos do bebê.
“Mulheres que tiveram pré-eclâmpsia têm maior risco de pressão alta crônica e doenças do coração no futuro, e precisam manter acompanhamento regular mesmo após a gestação”, ressalta a Dra. Marianne.
O cuidado também deve continuar após o nascimento do bebê, já que a pressão arterial pode se agravar nos primeiros dias pós-parto. Além disso, para futuras gestações, o planejamento prévio e o acompanhamento com obstetra são fundamentais para reduzir o risco de recorrência e garantir mais segurança à mãe e ao bebê.