O estresse crônico e o burnout não afetam apenas a saúde mental e podem causar danos significativos ao coração, inclusive em pessoas sem histórico de doenças cardíacas, aumentando o risco de infarto e AVC. Segundo a cardiologista Dra. Suelen Paliga, o principal mecanismo dessa relação é a ativação contínua do sistema nervoso simpático. “Esse é um sistema de regulação do nosso corpo que nos coloca num estado de alerta, que é o que a gente chama de luta ou fuga”, explica. Esse estado prolongado eleva a frequência cardíaca e a pressão arterial, favorece alterações estruturais no coração, inflamação sistêmica e desequilíbrios metabólicos, como aumento do colesterol e da resistência à insulina, ampliando o risco cardiovascular.
Mudanças de comportamento também aumentam o risco
O impacto do estresse não é apenas direto, também provoca mudanças no estilo de vida que agravam ainda mais o risco ao coração, “então, geralmente, um paciente que tem estresse crônico, ele acaba tendo hábitos ruins, como má alimentação, sedentarismo, consumo aumentado de álcool ou tabagismo, como uma forma de tentar aliviar esse estresse, mas por mecanismos que a gente sabe que são prejudiciais”, pontua a cardiologista.
Aumento de pacientes jovens com sintomas cardíacos
O perfil dos pacientes que procuram cardiologistas tem mudado, com aumento expressivo de jovens nos consultórios, por isso “a associação da especialidade apenas a pacientes idosos já não corresponde à realidade”, afirma a cardiologista Suelen.
Segundo a médica, embora muitos busquem atendimento preventivo, parte dos jovens chega com queixas como cansaço, falta de ar, dor no peito e palpitações. Após a investigação para descartar doenças cardíacas, é comum que os sintomas estejam ligados a fatores emocionais, como ansiedade e burnout e, ainda assim, a avaliação cardiológica é essencial para afastar arritmias, alterações estruturais e avaliar o risco cardiovascular.
Cortisol, estresse persistente e o risco cardiovascular
Há uma explicação fisiológica para a relação entre estresse crônico e doenças cardiovasculares, “que quando a gente tem esse aumento do estresse de forma crônica, a gente acaba ativando muito o eixo hipotálamo-hipófise adrenal, que é responsável pela produção de hormônios como o cortisol”, explica.
Em níveis elevados e persistentes, o cortisol favorece o aumento da pressão arterial, alterações no colesterol, resistência à insulina, inflamação sistêmica e maior instabilidade das placas de gordura nos vasos. O estresse também estimula o sistema nervoso simpático, com liberação de adrenalina e noradrenalina, o que eleva o risco de arritmias, sendo que essas alterações em conjunto, aumentam a probabilidade de infarto, AVC e tromboses.
Burnout como fator de risco cardiovascular
Reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno ocupacional, o burnout deve ser considerado na avaliação cardiológica. “Então, a gente sempre procura fatores de risco que nem sempre são óbvios”, pontua Dra. Suelen.
Além dos fatores tradicionais, como hipertensão, diabetes e dislipidemia, é fundamental avaliar distúrbios do sono, níveis de estresse, processos inflamatórios e sobrecarga emocional. Embora não seja um fator de risco clássico, o burnout contribui para o aumento do risco cardiovascular e precisa ser manejado como parte da prevenção.
Sintomas cardíacos sem alterações nos exames
Pacientes podem apresentar exames cardíacos normais e, ainda assim, relatar sintomas intensos. Segundo a cardiologista, a ativação do sistema simpático, que é a questão do mecanismo de “luta ou fuga” do organismo, provoca aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, mesmo sem alterações estruturais no coração, então essas mudanças hormonais e autonômicas podem causar dor no peito, palpitações e cansaço extremo. Após a exclusão de doenças graves, o tratamento passa a focar o controle do estresse. A médica orienta a “tratar um quadro de ansiedade, procurando mecanismos para gerar uma redução de estresse”, orienta a especialista. O cuidado inclui atividade física, meditação, sono regulado, alimentação equilibrada e acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.
Ambiente de trabalho e risco cardiovascular silencioso
O ambiente de trabalho moderno tem papel central nesse cenário, pois as altas cobranças e dificuldade de desconexão mantêm o corpo em estresse contínuo. “Muito se fala em alta performance, em executar, em entregar em alta performance, mas a verdade é que precisamos de um descanso de alta performance”, salienta Dra. Suelen.
A falta de repouso adequado, associada à pressão constante, favorece o desenvolvimento de burnout, ansiedade e depressão, condições que impactam diretamente o sistema cardiovascular.
Estratégias de prevenção que cuidam da mente e do coração
“Infelizmente na nossa vida a gente não consegue evitar o estresse, a gente precisa formas de manejá-lo”, explica a cardiologista.
Entre as estratégias eficazes estão práticas de mindfulness, atividade física regular, sono de qualidade, psicoterapia, fortalecimento da rede de apoio social e uma alimentação equilibrada. A atividade física, inclusive, é apontada como um verdadeiro “antidepressivo natural”, com efeitos comprovados na redução da ansiedade e da depressão.
A integração entre saúde emocional e saúde do coração
Para a Dra. Suelen Paliga, a mente e o coração estão profundamente conectados. “A saúde emocional não é um luxo, é uma necessidade para a gente conseguir proteger o nosso coração e garantir uma vida plena e saudável”.