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Saúde

Sofrimento ligado à saúde mental ainda enfrenta resistência na sociedade

Especialista analisa as raízes do preconceito, as diferenças entre gerações e a importância da educação emocional para a mudança social

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Algumas atividades como o crochê são espaços de respiro e preservação da saúde mental na correria do
A psicóloga Giovanna Nonemacher explica que o cuidado emocional ajuda a fazer escolhas mais conscien
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Arquivo Pessoal/Claudia Azuaga e Arquivo Pessoal/Giovanna Nonemacher

Apesar dos avanços no debate sobre saúde mental, falar sobre emoções e sofrimento psicológico ainda é um tabu para grande parte da sociedade. Segundo a psicóloga clínica Giovanna Nonemacher, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapias Contextuais, o estigma é um processo social complexo, sustentado por três pilares principais.

“O estigma envolve estereótipos, preconceito e discriminação”, explica. Os estereótipos são crenças generalizadas, como a ideia de que “terapia é para loucos”. Já o preconceito surge quando essas crenças vêm acompanhadas de afeto negativo, como sentir raiva ou rejeição por pessoas que sofrem de depressão. A discriminação, por sua vez, aparece nos comportamentos, como invalidar ou excluir indivíduos que fazem tratamento psicológico ou psiquiátrico.

Para Giovanna, a raiz desse estigma está no desconhecimento sobre a mente humana e em um histórico marcado por interpretações equivocadas do sofrimento psíquico. “A origem do preconceito e estigma sobre saúde mental vem do desconhecimento sobre a mente humana e de séculos de história em que o sofrimento mental foi tratado como falta de espiritualidade, loucura, fraqueza moral ou falta de caráter”, afirma.

Diferenças geracionais na forma de lidar com a saúde mental

A forma como a saúde mental é compreendida varia significativamente entre as gerações. De acordo com a psicóloga, os baby boomers (1946 a 1964) e parte da geração X (1965 a 1980) tendem a associar sofrimento psicológico à fraqueza.

“Nessas gerações, há menor busca por psicoterapia e uma ideia de que resiliência é ficar calado e ‘aguentar o sofrimento’”, observa Giovanna. Esse comportamento estaria relacionado à falta de educação emocional e também à memória histórica de instituições psiquiátricas antigas, marcadas por práticas excludentes e violentas.

Já entre os millennials (1980 a 1994) e a geração Z (1995 a 2015), o cenário é diferente. Há maior abertura para falar sobre saúde mental, menor preconceito e uma valorização crescente da psicoterapia. “Existe também uma linguagem emocional mais acessível, o que facilita o diálogo e a busca por ajuda”, destaca.

Educação emocional como caminho para a mudança social

Para priorizar a saúde mental no cotidiano, Giovanna defende mudanças estruturais que comecem desde cedo. “Uma mudança fundamental seria começar a desenvolver a regulação emocional desde a infância, e sustentar esse aprendizado ao longo da adolescência e da vida adulta”, afirma.

A regulação emocional envolve identificar, nomear e responder às emoções de forma saudável, em vez de agir apenas de maneira impulsiva ou evitativa. Esse aprendizado pode ocorrer na psicoterapia, mas também deve ser incentivado nas escolas e nas famílias, por meio de educação emocional e espaços de escuta.

Além disso, a psicóloga ressalta a importância de relações mais empáticas e menos julgadoras. Reduzir julgamentos rápidos, ampliar o diálogo e normalizar emoções difíceis como tristeza, medo e frustração, são passos essenciais. “Nem sempre estaremos bem, e tudo bem não estar”, pontua.

Ela também destaca o papel das políticas públicas. “Nenhuma mudança é sustentável sem políticas públicas eficazes, é fundamental investir em condições dignas de trabalho e moradia, acesso à saúde, suporte social e campanhas consistentes de promoção da saúde mental”, salienta.

O impacto positivo das campanhas

Campanhas de conscientização, como o Janeiro Branco, têm um papel importante, especialmente entre os jovens, que enfrentam pressões acadêmicas, sociais e digitais constantes. Estudos científicos mostram que ações de promoção e educação em saúde mental aumentam o conhecimento e reduzem o estigma.

Essas campanhas também podem estimular a busca por ajuda profissional. Trabalhos revisados indicam que iniciativas voltadas à literacia em saúde mental estão associadas a maior probabilidade de procurar serviços psicológicos. Além disso, campanhas digitais têm alcançado milhões de pessoas por meio das redes sociais, ampliando a visibilidade do tema.

“Campanhas como essa reforçam que cuidar da saúde mental não é fraqueza, mas uma forma de prevenção e responsabilidade consigo mesmo”, afirma Giovanna. Segundo ela, essas ações fortalecem a resiliência emocional e promovem relações mais empáticas.

Sinais de alerta em uma rotina acelerada

O ritmo intenso do século XXI tem afetado diretamente a saúde mental de adultos e jovens. A psicóloga alerta que alguns sintomas, dependendo da frequência, duração e intensidade, devem ser avaliados por um profissional.

Entre os sinais estão tristeza persistente, desânimo, insônia, irritabilidade, desesperança, falta de energia, ansiedade, taquicardia, choros frequentes, sudorese, alterações no apetite, uso excessivo de telas e impulsos acentuados por compras, comida, álcool ou drogas.

Como lidar com o cansaço mental e emocional

Não existe uma solução única para o esgotamento emocional causado por rotinas cheias de compromissos. “Infelizmente não existe uma fórmula mágica”, afirma Giovanna. Ainda assim, alguns pilares são fundamentais, como uma boa alimentação, prática regular de exercícios físicos, sono de qualidade, pequenas pausas, conexão com valores pessoais e boas relações sociais.

“A psicoterapia é a forma de descobrir, reorganizar e colocar em prática tudo isso”, explica. Para ela, o processo terapêutico oferece um espaço seguro para lidar com vulnerabilidades e construir uma vida mais alinhada ao que realmente importa.

Produtividade sem culpa

Equilibrar produtividade e saúde mental passa, necessariamente, pela relação com a culpa. Giovanna acredita que trabalhar esse sentimento em psicoterapia é essencial. “Quando a produtividade é baseada na autocrítica e na culpa, ela se torna nociva para a saúde mental”, afirma.

Segundo a psicóloga, uma pessoa saudável e descansada tende a produzir mais do que alguém constantemente exausto ou se sentindo culpado por desacelerar.

O verdadeiro significado do autocuidado

Autocuidado vai muito além de práticas prazerosas ou consumo. Trata-se de atitudes intencionais para manter ou recuperar a saúde física e mental. “Autocuidado não é se mimar, nem egoísmo”, explica Giovanna. Muitas vezes, envolve esforço, limites e desconforto, como dizer “não” ou abrir mão de alívios imediatos.

O autocuidado pode ser físico, mental, social ou espiritual e deve estar alinhado aos valores pessoais. “Estudos mostram que práticas baseadas em regulação emocional e autocompaixão estão associadas a menor burnout e maior bem-estar psicológico”, destaca.

Hábitos simples que fortalecem a saúde mental

Cuidar da mente exige atenção também ao corpo. Práticas como psicoterapia, exercícios físicos, alimentação balanceada, higiene do sono, momentos de descanso e mindfulness contribuem para a prevenção de problemas emocionais.

“Hábitos saudáveis para a saúde mental não precisam ser complexos ou perfeitos, mas sim possíveis de sustentar no dia a dia”, lembra a psicóloga.

Criando limites no home office e na era digital

Com o avanço do home office e da tecnologia, os limites entre trabalho e vida pessoal se tornaram mais difusos. Para Giovanna, o primeiro passo é reconhecer e respeitar os próprios limites físicos e mentais.

“Saber ouvir o corpo e a mente é essencial”, afirma. Além disso, ela destaca que limitar o uso de redes sociais pode ser extremamente benéfico, já que a comparação constante e a exigência de produtividade afetam diretamente o bem-estar emocional.

Para Giovanna, “cuidar da saúde mental é um investimento na própria vida”. Segundo ela, o cuidado emocional permite escolhas mais conscientes, relações mais saudáveis e maior qualidade de vida.

A psicoterapia, nesse contexto, é um recurso fundamental. “Ela oferece um espaço seguro de escuta e acolhimento, ajudando a desenvolver flexibilidade psicológica e a lidar melhor com emoções difíceis”, explica.

“Cuidar da mente é um passo essencial para construir uma vida mais equilibrada”, conclui a psicóloga.

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