Em 2014 foi criado em âmbito nacional um movimento que propõe que a sociedade olhe mais para a saúde mental, chamado de Janeiro Branco, que posteriormente foi oficializado por lei. A campanha acontece no primeiro mês do ano justamente pela questão simbólica que janeiro representa o início de um novo ciclo, marcado por novas possibilidades, expectativas e esperança. Para o psiquiatra Dr. Anderson Madalozzo, “o cuidado com a saúde mental é essencial e o Janeiro Branco inspira pessoas à priorizar esta prática e promove o diálogo coletivo deste tema, com possibilidade de desenvolvimento de políticas públicas que tragam melhorias para a comunidade”.
Estresse, ansiedade e depressão
Ao longo da vida, todos enfrentam situações que geram pressão externa, como provas escolares, mudanças de emprego ou novos desafios profissionais. Nessas circunstâncias, ocorre uma mobilização natural do cérebro para adaptação, com liberação de substâncias pelo sistema neuroendócrino que aumentam o foco e a concentração. Esse processo, conhecido como estresse adaptativo, é esperado, útil e geralmente de curta duração, cessando quando o estímulo externo desaparece.
O problema surge quando essas situações se prolongam, como em casos de excesso de trabalho, desemprego ou conflitos familiares intensos. Nessas condições, a reação do organismo torna-se persistente, com gasto excessivo de energia mental, dando origem ao estresse propriamente dito, caracterizado por cansaço, tensão muscular, irritabilidade e dificuldade de concentração.
Segundo o médico, “a ansiedade caminha em paralelo ao estresse” e também é uma reação natural diante de incertezas, perigos ou ameaças, pois provoca alterações físicas como aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, preparando o corpo para reagir. “Diante da chuva de granizo que vivemos, ou se observarmos um pitbull sem coleira ao nosso redor, é extremamente útil que nossa adrenalina e outros neurotransmissores cerebrais se elevem pois precisamos nos antecipar e nos defender da ameaça real destas situações, e preservar a vida”, coloca Dr. Anderson.
Entretanto, em algumas pessoas, situações cotidianas e inofensivas passam a ser interpretadas como ameaças e essa distorção gera medos exagerados, apreensão constante e sintomas físicos como palpitações, tremores, tonturas e formigamentos. O psiquiatra explica que “podemos compreender a ansiedade como se ela fosse um alarme de incêndio, ela é útil e esperada quando há fogo, mas que se torna um problema quando aparece sem fumaça nem fogo, o tempo todo”. Nesses casos, a ansiedade deixa de ser adaptativa e passa a configurar um transtorno mental que exige acompanhamento especializado.
Depressão vai além da tristeza passageira
Diferente da ansiedade e do estresse, a depressão é caracterizada por uma alteração persistente do humor. Não se trata de uma tristeza momentânea, mas de semanas marcadas por falta de energia, desânimo, isolamento social e perda do prazer em atividades antes consideradas agradáveis. Atividades simples, como levantar da cama ou ir ao trabalho, tornam-se difíceis, e a tristeza passa a ser o sentimento predominante.
O estresse crônico, quando se prolonga por meses, pode levar ao esgotamento psíquico e evoluir para a Síndrome de Burnout, além de favorecer o surgimento de quadros depressivos e ansiosos de forma simultânea.
Depressão não é fraqueza
Apesar dos avanços científicos, ainda persiste o mito de que a depressão é falta de força de vontade, porém Dr. Anderson ressalta que a medicina e as neurociências já demonstraram alterações específicas na estrutura e no funcionamento do cérebro associadas à doença, incluindo desequilíbrios químicos e comprometimento de determinadas áreas cerebrais. Para ele, “o preconceito antigo de que a depressão é ‘fraqueza’ não deve mais ter espaço numa sociedade em que há tanto acesso à informação. É só ter força de vontade para aprender”.
Sinais que não devem ser ignorados
Entre os principais sinais de alerta da depressão estão o isolamento social, o afastamento de familiares e amigos, a perda de interesse geral, o choro frequente e a queda no rendimento escolar ou profissional. Já nos transtornos de ansiedade, são comuns as preocupações excessivas, inquietação, pensamentos acelerados, impaciência, comportamentos evitativos, alterações no sono e no apetite, além de crises intensas com medo, falta de ar, palpitações e tremores.
Medicamentos e preconceitos no tratamento
O tratamento da ansiedade e da depressão frequentemente envolve o uso de antidepressivos, como fluoxetina, sertralina e escitalopram. De acordo com o psiquiatra, esses medicamentos, na maioria dos casos, são utilizados de forma temporária, não causam dependência química, não alteram a personalidade e não mudam quem a pessoa é. “Tomar antidepressivo não é sinal de fraqueza. Se há a indicação do Psiquiatra, é um ato de cuidado e responsabilidade com própria saúde mental”, afirma e, destaca ainda, que a medicação não substitui a psicoterapia, que é fundamental para trabalhar aspectos emocionais e comportamentais mais profundos.
Hábitos que fortalecem a saúde mental
Além do acompanhamento médico, hábitos cotidianos exercem papel essencial na saúde mental, como a prática regular de atividade física que é apontada como prevenção e tratamento para diversas condições mentais, devido à liberação de endorfina, que promove bem-estar, melhora o humor, reduz a ansiedade e regula o sono. Em um mundo marcado pela pressa e pelo imediatismo, desacelerar também se torna necessário, por isso, os momentos de convivência, leitura e lazer ajudam a reduzir o estresse diário.
A alimentação também tem impacto direto no funcionamento do cérebro e a psiquiatria nutricional demonstra que uma dieta equilibrada pode prevenir ou auxiliar no tratamento de transtornos mentais. Para o médico, “menos é mais”, já que excessos de álcool, açúcares, carboidratos e alimentos ultraprocessados aumentam o estresse oxidativo e a inflamação do sistema nervoso central, prejudicando as funções mentais.
Buscar ajuda é um ato de responsabilidade
Para quem ainda sente receio ou preconceito em procurar ajuda profissional, Dr. Anderson lembra que todas as fases da vida envolvem desafios emocionais e que o melhor caminho é “buscar auxílio mental é responsabilidade consigo e com os que amamos, é poder construir as melhores escolhas, é alívio e a possibilidade de mitigar sentimentos negativos, de se entender melhor, de se aceitar como é, de simplesmente, ser”, conclui o psiquiatra.