Muitos pais ainda acreditam que os dentes de leite não exigem tanta atenção por serem temporários. No entanto, especialistas alertam que essa percepção pode trazer consequências sérias para a saúde bucal e geral das crianças. O cuidado com a boca do bebê deve começar antes mesmo da erupção dos primeiros dentes, com a participação ativa da família e acompanhamento profissional.
A dentista Dra. Aline Gomes reforça que os dentes decíduos, popularmente conhecidos como dentes de leite, têm papel essencial no desenvolvimento infantil. “Eles são fundamentais para mastigação dos alimentos, assim como auxiliam na formação das palavras e na evolução da fala”, explica. Além disso, os dentes de leite são responsáveis por orientar a posição correta dos dentes permanentes, mantendo o espaço necessário até a troca dentária, que ocorre, em média, dos 6 aos 12 anos.
Papel dos dentes de leite na mastigação infantil
A mastigação é considerada a primeira e principal função dos dentes decíduos. Com a introdução alimentar e o consumo de alimentos sólidos, como frutas e vegetais, esses dentes passam a triturar os alimentos, facilitando o processo digestório e contribuindo para a absorção adequada de nutrientes.
Dentes de leite e a formação da arcada permanente
Os dentes de leite atuam como verdadeiros mantenedores de espaço. Eles permanecem na boca até o momento certo de cair, quando o dente permanente está pronto para nascer. “O dentinho de leite guarda o espaço necessário para que o dente permanente rompa no lugar exato”, ressalta Aline.
Dentes de leite também exigem cuidados rigorosos
Ao contrário do que muitos pensam, os dentes de leite são mais sensíveis do que os permanentes. “É importante destacar que os dentes de leite são mais sensíveis, por terem uma camada de esmalte mais fina. Sabendo disso, é necessário cuidado redobrado desde o nascimento do primeiro dentinho”, alerta a dentista.
A escovação com creme dental fluoretado é fundamental para prevenir cáries e outros problemas. Aline lembra que crianças tendem a imitar comportamentos, por isso, hábitos saudáveis de higiene bucal devem envolver toda a família.
“Ainda tem muitos pais que desconhecem o fato de que o dente de leite é tão importante quanto o dente permanente. Ele tem canal, tem uma estrutura igual à do dente permanente e ele dói”, destaca. Em casos mais graves, pode ser necessário tratamento de canal até mesmo em bebês, o que é extremamente traumático.
“Muitos pais acham que porque é dente de leite, que logo vai cair, então não precisa de cuidados, e aí dá muito ruim”, pontua Aline.
Cárie de mamadeira e hábitos prejudiciais
Um problema comum na infância é a chamada cárie de mamadeira, que ocorre quando a criança dorme após ingerir leite com achocolatado ou outros líquidos açucarados. O acúmulo desses resíduos ao redor dos dentes cria um ambiente favorável para o desenvolvimento de bactérias.
Principais problemas que afetam os dentes de leite
Segundo a dentista, a cárie é o problema mais frequente na infância. “A cárie é uma das doenças mais prevalentes no mundo e se inicia na primeira infância, pela falta do hábito de escovação e consumo elevado de alimentos ricos em açúcar”, explica.
Ela ressalta que a doença é causada por uma bactéria oportunista, o Streptococcus mutans. “Não adianta tratar a lesão se a criança não mudar os hábitos. A lesão é removida, mas se o ambiente continuar favorável, a bactéria se desenvolve novamente”, alerta.
Sem mudanças no estilo de vida, pequenas lesões podem evoluir para tratamentos mais invasivos, como canais, extrações e, futuramente, implantes. “O maior prejuízo é a perda de um órgão, que é o dente”, enfatiza.
Impactos da cárie no desenvolvimento da criança
A dor é, geralmente, o primeiro sinal que leva os pais ao consultório. Esse desconforto pode afetar o apetite, a mastigação, o sono e até o desenvolvimento emocional da criança. Aline explica que a criança pode passar a mastigar apenas de um lado, prejudicando a deglutição e a fala.
“Se o problema evolui, pode haver perda do dente, prejuízo na posição da língua e atraso na fala”, afirma. Infecções também podem causar abscessos, inchaço facial e queda da imunidade.
Outro alerta importante é sobre o primeiro molar permanente, que nasce por volta dos seis anos e muitas vezes é confundido com dente de leite. Sem cuidados, ele pode ser perdido precocemente, comprometendo toda a mordida da criança.
Alimentação saudável também protege os dentes
A alimentação exerce papel fundamental na saúde bucal. Nutrientes como o cálcio são indispensáveis desde a gestação. “O cálcio é essencial na formação dos dentes desde a vida intrauterina e continua sendo importante ao longo da vida para manter os dentes fortes e resistentes”, explica Aline.
Alimentos como leite e derivados, peixes, amêndoas e gergelim ajudam a fortalecer o esmalte dental e prevenir cáries.
Escovação desde os primeiros meses de vida
Mesmo antes do nascimento dos dentes, a higiene bucal deve fazer parte da rotina do bebê. “A gente orienta as mães a passar uma gaze com solução fisiológica após as mamadas para limpar o acúmulo de leite”, explica a dentista.
Esse cuidado ajuda o bebê a se acostumar com a manipulação da boca, facilitando a aceitação da escovação quando o primeiro dentinho surgir. A Associação Brasileira de Odontologia recomenda iniciar a escovação assim que o primeiro dente nascer, geralmente por volta dos seis meses.
“Quanto antes a gente começar a manipular a boquinha do bebê, mais fácil ele aceita depois a escovação”, reforça Aline.
Primeira visita ao dentista deve começar cedo
O ideal, segundo a especialista, é que o cuidado comece ainda na gestação, por meio do pré-natal odontológico. Nessas consultas, as mães recebem orientações sobre higiene, amamentação e desenvolvimento bucal do bebê.
Quando isso não é possível, a primeira consulta deve ocorrer com a chegada do primeiro dentinho. “A gente orienta sobre escovinha, pasta com flúor na quantidade correta e todos os cuidados iniciais”, explica.
A dentista destaca que muitas crianças só vão ao consultório aos três ou quatro anos, o que é preocupante. “É importante a consulta periódica não só para detectar lesões, mas para a criança entender que os dentes são órgãos do corpo e precisam de cuidado”, finaliza Aline.