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Cultura

Dançar a própria história

Thaís Virgínia Rigo Loch, conhecida como La Sol, apresenta o Flamenco como caminho de pertencimento, expressão e autoconhecimento

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Thaís Virgínia Rigo Loch
Por Gabriela de Freitas
Foto Gabriela de Freitas

Quando Thaís Virgínia Rigo Loch entrou pela primeira vez em uma sala de Flamenco, não sabia o que esperar. Era 2017, ela morava em Florianópolis e trabalhava como assistente social. O termo “Flamenco” não evocava nada — nem Espanha, nem castanholas, nem dança. Mas bastou uma aula para que algo despertasse dentro dela.
“A professora colocou um Cante jondo — canto profundo, com grande carga emocional — no aquecimento, e meus olhos encheram de lágrimas. Naquele momento tive certeza de que era isso que eu queria fazer, algo que me nutria, mesmo sem entender o porquê”, relembra.

A bailaora — como são chamados os dançarinos de Flamenco — Thaís Virgínia Rigo Loch, conhecida como La Sol, apresenta o Flamenco como caminho de autoconhecimento. Natural de Erechim, dança desde os quatro anos e, desde 2017 segue estudando e se especializando. Estuda e atua como bailaora na Cia de Arte La Negra Ana Medeiros e também junto à escola Perla Flamenca.

Aprendizado e identidade

O Flamenco encontrou Thaís primeiro, e ela depois foi atrás dele. Entre Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre, buscou mestres que a inspirassem a cada movimento. Com Ana Medeiros, a La Negra, aprendeu mais do que técnica: “Ela me acolheu e disse: ‘Essa é você’. Cada professor ajuda a virar uma chave na gente, a compreender algo que estava escondido”.

O Flamenco, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade, é uma manifestação viva, que valoriza autenticidade e história. “O Flamenco é uma linguagem, é comunicação e cada pessoa aprende a se expressar nesse ambiente. Um olhar atento percebe arte nos gestos cotidianos — e isso é Flamenco. É colocar energia e atenção na vida, sentir o mundo com intensidade”, diz Thaís.

Dançar a si mesmo

Em suas aulas, pessoas de diferentes idades descobrem que dançar Flamenco é enfrentar medos, acolher emoções e afirmar-se no coletivo. “Cada um escolhe um momento para se olhar, se desafiar e não se sentir só. O Flamenco fala de identidade e comunidade: quem sou eu no coletivo? É o eu no mundo e o mundo comigo”, reflete.

Em Erechim, Thaís também leva a arte para espaços abertos, aproximando pessoas da natureza. Cores, flores, gestos e tecidos carregam significados e espiritualidade. “Comecei o projeto Flamenco ao Ar Livre em março. Precisei interromper, mas pretendo retomá-lo no próximo ano.”

O sonho de dona Zélia

Entre tantas histórias, uma ocupa um lugar especial: a de dona Zélia Maria Viero, que aos 82 anos realizou o sonho de dançar Flamenco. Thaís acompanhou seus primeiros passos, repletos de emoção e coragem, e delas nasceu uma amizade profunda. “Foi muito bonito participar da realização desse sonho. Ver a alegria dela dançando e se sentindo viva foi uma sensação de dever cumprido.”

Quando dona Zélia faleceu, as filhas decidiram cremar o corpo e espalhar as cinzas em lugares significativos. Um deles era próximo à escola de dança, junto a uma paineira. Thaís participou do gesto simbólico. “Foi como eternizar um espaço que foi precioso para ela. Guardei lenços, uma muda de malva cheirosa e a lembrança da força e alegria que ela trouxe à dança.”

Imersão na Espanha

Em 2019, Thaís fez sua primeira viagem sozinha para a Espanha, em busca das raízes do Flamenco. Ficou 21 dias estudando com Torombo, mestre que ensina pessoas de todo o mundo. “Ele dizia: ‘O primeiro Wi-Fi criado no mundo foi esse: os olhos. Se olhem, se conectem’. Passávamos horas explorando ritmo e sensibilidade, até com reggae e músicas de ninar.”

Torombo também atua em projetos sociais, comunidades e presídios. Thaís o acompanhou no bairroLas 3000 Viviendas, majoritariamente cigano mas que também recebe e acolhe imigrantes e refugiados em Sevilha, onde presenciou a gravação de um clipe que unia Flamenco, Rap e Hip-hop. “Foi tão rico quanto uma aula: viver a cultura, experimentar a comida deles, observar como se expressam.”

Expressão e liberdade

Mais do que técnica, o Flamenco ensina ritmo, musicalidade e, acima de tudo, empoderamento. Permite que cada pessoa se expresse com autenticidade e reconheça suas conquistas. “Vivemos, sofremos e dançamos a nossa vida. Mesmo nos momentos tristes, o baile busca terminar para cima. É mergulhar dentro de si e poder retornar.”

Semeando a arte

No horizonte de Thaís está a criação de um novo espaço em Erechim, com salas amplas e piso de madeira, pensado para aulas, oficinas e atividades culturais. O objetivo é semear projetos que fortaleçam o desenvolvimento artístico e humano.

“É um bicho que te picou e não tem volta”, resume Thaís. “Quando o Flamenco toca, transforma. Ensina a reconhecer o corpo, a história e o ser em sua plenitude.”

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