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Economia

Memórias de viagem

Viagem Transiberiana De Trem: Rússia – Sibéria – Mongólia – China – (13)

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Marlei Carmen Reginatto Klein
Por Marlei Carmen Reginatto Klein
Foto Marlei Carmen Reginatto Klein

No interior de Krasnoyarsk

Era o início do outono e já fazia frio. O trem, em movimento, passava por estepes e florestas. As casas, do interior, são de madeira, de paredes duplas, para melhor proteção no rigoroso inverno. Possuem uma manta de isolação entre elas. A madeira é mais térmica nos lugares mais frios. Ela também é usada nos fogões e lareiras.

A população é muito dependente de florestas, mas elas são, também, protegidas por leis. O trem continuava percorrendo e quase passando junto às casas nas vilas. Todas possuem hortas e pomares, onde colhem a subsistência para os longos dias de inverno. Dizem que essa população não sai de férias. Aproveitam o bom tempo para plantar e colher.

Irkutsk

Mais uma cidade da Sibéria. O trem chegou na bela ferroviária no estilo clássico russo: janelas arredondadas, colunas e duas torres com cúpulas. Perfeitamente cuidada e com muita iluminação natural. IRKUTSK foi fundada, em 1651. Os cossacos instalaram-se na segunda metade do século XVII. A cidade nasceu de um centro com um forte de guerra cossaco. Este deu início ao comércio de peles e da seda, além da extração de ouro. Foi estabelecida uma rota comercial entre a China, que está muito próxima da região, e o restante da Rússia. Também faziam a troca de peles siberianas por marfim da Mongólia. A cidade é considerada a “Paris da Sibéria”. Localizada na parte norte da Ásia. A diferença de horário de Moscou, a capital federal da Rússia, já era de 5 horas. 

A siberiana Irkutsk

A cidade é cortada pelo agitado Rio Angara, que, no inverno, congela e acontecem esportes sobre o gelo e também serve de rodovia, que corta distâncias. As águas do Rio Angara provêm do Lago Baikal, o mais profundo da Terra. Cidade muito ajardinada, especialmente junto à área recreativa do Rio. Muito capricho em seus jardins e praças repletos de flores. As cores parecem compensar o branco do gélido inverno, quando chega a fazer 50 graus negativos. Os noivos invadem suavemente as ruas e as praças fazendo ensaios fotográficos. Aproveitam o sol e as flores.

As igrejas

A religião predominante é Ortodoxa Russa. Nelas encontram-se ricas pinturas no teto e nas paredes, pois os ícones são raros, considerados sagrados e inexistentes. A devoção nelas é especial, com muita religiosidade. Inúmeras velas acesas. Assisti a um final de missa na Igreja da Anunciação Ortodoxa Russa. Esta, linda, toda branca com cúpulas douradas. Encontrava-se ao centro de um complexo com outras construções menores no mesmo estilo. Na visita à bela Igreja Ortodoxa do Salvador um fundo musical com vozes de coral acompanhava as meditações. Sempre, lindos painéis pintados com motivos religiosos e não ícones como na Católica. Antigamente, nas proximidades, havia uma linda Igreja Católica, em tijolos vermelhos de arquitetura gótica. Dentro, arcos com colunas em grande altura. Hoje, ela é uma Sala de Concertos. No centro da cidade, ainda se encontra uma bela Igreja Ortodoxa, em madeira, com duas torres de sinos e telhado em cobre. Perfeitamente conservada.

Sua arquitetura

Passando pelas ruas, vamos encontrar lindas casas de madeira, as “izbas”, construídas com troncos e adornadas com detalhes próprios da cultura siberiana. Num agradável boulevard se encontram restaurantes, lojas e bares. Prósperos comerciantes, políticos e a nobreza exilada na Revolução Bolchevista construiu belos palacetes de um ou dois pisos, em madeira. Eles possuíam dinheiro em bancos da Europa e seu exílio não foi difícil. Hoje, alguns palacetes estão bem conservados e habitados por descendentes, outros em ruínas. Irkutsk esteve durante longo tempo na rota dos prisioneiros políticos. De florescente centro comercial sucumbiu aos socialistas em 1920. A Rua Karl Marx – Karla Marksa – é chamada de “Museu aberto Toltsy” – onde morou a aristocracia. São casas do século XVII de madeira siberiana e janelas com detalhes esculpidos.

Líder dezembrista Serguei Volkonsky

Este general tinha ideias liberais, era contrário à ascensão do Czar Nicolau I ao trono russo. Com a derrota do militar, na Revolução de dezembro de 1825, muitos revolucionários foram deportados à Sibéria. Mais tarde, o Czar Nicolau II tornou-se Imperador com um triste destino. Volkonsky continuou na Sibéria.  Serguei era um príncipe e, anos depois, sua esposa Maria juntou-se a ele. Moraram por 17 anos num lindo palacete. Hoje, é o Museu Kabriste. Esta residência, decorada pela dama Maria Volkonsky, pode ser visitada. Ricamente decorada. Seu interior e também a mobília estão muito bem preservadas. Na Sala de Música, onde os Volkonsky recebiam convidados para concertos de música clássica, duas vezes por semana, acontece, à tardinha, um recital ao qual assistimos.

Recital na casa dos Volkonsky

No recital, na Sala de Música, uma bela jovem de voz soprano acompanhada de um tenor e mais um pianista participavam. Todos vestiam ricos trajes da época- moda do século XIX. Apresentaram parte da Ópera de Verdi: La Traviata. No momento do “Brindise” a cantora, com peruca de cachos brancos, convidou-me para brindar com ela. Um garçom deu-me uma taça com champagne e junto com ela fizemos, de mãos erguidas o “gran finale”. Após, todos os presentes receberam taças com a bebida e alguns petiscos. Belíssimas recordações dos áureos tempos dos Czares.

Nota

Cossacos são povos de origem eslava ou turca vindos da Ucrânia ou do sul da Rússia. São aventureiros e camponeses que procuram ser livres, longe da servidão. eram organizados em unidades militares, comandavam as trocas e o comércio.

Conclusão

Neste dia, não voltamos ao trem. A estadia foi num excelente hotel de cadeia internacional, em Irkutsk, com jantar. Na chegada, ao hotel, uma bela jovem com trajes típicos da Sibéria nos serviu o “Karavai” fatias de pepino ao sal.  Envolto em toalha alva e bordada – um gostoso pão típico, ainda morninho – chamado de “Khachapuri”. Tira-se dele um bocado que é saboreado com o pepino. Este é o gesto de boas-vindas.

 

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