Em um cenário em que a ciência busca constantemente novas alternativas para o enfrentamento de doenças complexas, como o câncer, o projeto Rede OncoNatura se destaca como uma iniciativa multidisciplinar e inovadora. Coordenado pelo professor Wagner Luiz Priamo, do curso de Engenharia de Alimentos do Campus Erechim do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), o projeto une conhecimento sobre compostos bioativos de frutas brasileiras a tecnologias avançadas, como a nanotecnologia.
A iniciativa ganha ainda mais relevância neste mês de outubro, marcado pela campanha Outubro Rosa, dedicada à prevenção e ao cuidado com o câncer de mama e de colo do útero. E se conecta também com o dia de hoje, 16, que é o Dia Mundial da Alimentação, ao ressaltar o papel da alimentação como aliada da saúde e da prevenção de doenças.
Como surgiu a Rede OncoNatura?
A Rede OncoNatura nasceu da experiência acumulada em pesquisas com compostos bioativos de origem vegetal. “Sempre me chamou atenção o potencial de frutas e plantas brasileiras no combate a doenças”, explica o professor Wagner. A proposta surgiu ao perceber que esse conhecimento poderia ser potencializado com o uso de tecnologias de ponta, desde a extração até a entrega dos princípios ativos.
A partir dessa visão, estruturou-se a rede como uma articulação multicampi e colaborativa, unindo pesquisadores e estudantes dos campi Erechim, Porto Alegre e Sertão do IFRS, além de contar com uma importante parceria internacional com a Virginia Commonwealth University (VCU), nos Estados Unidos.
Uma rede colaborativa e integrada
Cada campus do IFRS atua em uma etapa essencial do processo. Erechim tem seu foco na extração e purificação dos compostos naturais, enquanto que Sertão fica na caracterização detalhada dos extratos e Porto Alegre realiza os testes in vitro com foco em biologia celular e potencial antitumoral.
A articulação entre os três polos funciona como um verdadeiro ecossistema científico integrado, em que cada etapa se fortalece com a outra. A parceria com a VCU contribui especialmente na aplicação da nanotecnologia por meio de sistemas lipossomais via microfluídica, considerados altamente eficazes para a entrega dos compostos bioativos ao organismo.
Frutas brasileiras no foco da ciência
O projeto utiliza como matéria-prima principal frutas como physalis, romã e araçá, ricas em compostos fenólicos com reconhecido potencial antioxidante e antitumoral. Além dos benefícios à saúde, a escolha dessas frutas reforça o caráter regional e sustentável da iniciativa, valorizando cadeias produtivas locais e criando oportunidades de geração de renda.
Tecnologia que potencializa o tratamento
A Rede OncoNatura incorpora tecnologias de ponta para desenvolver sistemas de liberação controlada dos compostos bioativos. “Utilizamos carreadores lipídicos que funcionam como pequenas bolsas capazes de proteger os compostos e liberá-los diretamente no local do tumor, aumentando a eficácia e reduzindo os efeitos colaterais”, destaca Wagner.
Essa tecnologia, além de eficiente, é escalonável, ou seja, pode ser adaptada à produção em larga escala por empresas farmacêuticas e biotecnológicas, aumentando as chances de que os resultados da pesquisa cheguem à população.
Um projeto que une ciência, saúde pública e inclusão
O principal objetivo da Rede OncoNatura é desenvolver terapias inovadoras contra o câncer, especialmente acessíveis e não invasivas. Essa abordagem pode representar um avanço significativo para o sistema público de saúde, ao oferecer alternativas terapêuticas mais seguras e menos agressivas, principalmente em regiões com infraestrutura limitada.
Além disso, o projeto é comprometido com a sustentabilidade e a inclusão social. Envolve estudantes de diferentes perfis sociais e promove uma formação científica conectada à realidade brasileira, reforçando o papel do IFRS como instituição pública que gera ciência com impacto social.
Prêmio SaúdeInova
Em 2024, a Rede OncoNatura conquistou o 3º lugar no Prêmio SaúdeInova, um importante reconhecimento nacional para iniciativas inovadoras na área da saúde. “O prêmio mostra que estamos no caminho certo e que nosso trabalho tem relevância não só científica, mas também social”, avalia Wagner. Para o IFRS, é motivo de orgulho e visibilidade como um polo de excelência em pesquisa aplicada.
Alimentação e prevenção
Na data de hoje que é o Dia Mundial da Alimentação, dentro do Outubro Rosa, o projeto reforça a importância dos alimentos naturais na prevenção de doenças, como o câncer. “A alimentação tem um papel fundamental. Uma dieta rica em frutas, verduras e legumes pode fornecer compostos bioativos que ajudam a prevenir processos inflamatórios e o desenvolvimento de células cancerígenas”, afirma o professor.
A pesquisa da Rede OncoNatura confirma o que já é indicado por muitos estudos, que os compostos presentes em frutas e vegetais atuam como verdadeiros aliados da saúde, com efeitos protetores para o organismo.
Um recado especial às mulheres
No contexto do Outubro Rosa, o professor Wagner lembra que se deve “olhar para a alimentação como um cuidado diário com a saúde. Uma dieta baseada em alimentos naturais pode fortalecer o organismo e trazer benefícios a longo prazo. Acredito que pequenas escolhas no dia a dia podem fazer muita diferença na qualidade de vida”.
Resultados promissores e próximos passos
A Rede OncoNatura já obteve resultados animadores. Testes in vitro mostraram atividade antitumoral de extratos brutos e avanços na estabilidade dos compostos quando encapsulados nos sistemas lipossomais.
Os próximos passos envolvem novas etapas de validação, ampliação das parcerias nacionais e internacionais e participação em redes voltadas para a Amazônia, conectando ciência, biodiversidade e inovação tecnológica.
Da pesquisa ao impacto real
O grande objetivo da Rede OncoNatura é que os resultados cheguem à população, transformando o conhecimento científico em produtos acessíveis, como suplementos, medicamentos ou alimentos funcionais. “O essencial é que a ciência produza impacto real na vida das pessoas, oferecendo soluções que unam inovação, segurança e acessibilidade”, finaliza Wagner.
A Rede OncoNatura mostra como a ciência pode ser transformadora quando alia inovação, sustentabilidade e compromisso social. Em um mês simbólico para a saúde das mulheres e para a conscientização sobre a importância da alimentação, o projeto reafirma que a natureza e a ciência podem caminhar juntas na busca por soluções eficazes e acessíveis contra o câncer.