O mês de outubro é mais conhecido pela campanha do Outubro Rosa, que visa à conscientização e prevenção do câncer de mama e do colo do útero. Além disso, o dia 10 de outubro marca o Dia Mundial da Saúde Mental e, esses dois temas estão mais conectados do que se imagina.
“Falar sobre saúde mental vinculada ao Outubro Rosa é muito importante, é muito necessário”, afirma a psicóloga especialista em desenvolvimento humano organizacional, Nadine Pilotto Fabiani. Ela destaca que o conceito de saúde evoluiu e que não se trata apenas da ausência de doenças, mas do bem-estar biopsicossocial. “Eu vou ser saudável emocionalmente se eu tiver bem com o meu corpo, com o meu social e com o meu psicológico”.
O impacto emocional do diagnóstico
O diagnóstico de câncer, especialmente entre as mulheres, tem repercussões profundas na saúde emocional. “Logo que a mulher recebe esse diagnóstico, seja de câncer de útero ou de mama, existe uma fragilidade que é emocional. E a orientação que a gente dá é que a mulher se permita viver aquela dor”, pontua Nadine. Esse momento exige acolhimento e apoio, não só médico, mas também psicológico.
Além da dor, surgem questionamentos, medos e sentimentos de impotência. É aí que começa um processo de ressignificação. “É um momento de dor, mas também de se perguntar o que essa dor significa e como transformar isso em algo que traga força”.
Emoções influenciam diretamente o tratamento
A relação entre o estado emocional e a resposta do corpo ao tratamento é direta. “O nosso corpo responde muito à questão do estresse. O cortisol alterado prejudica o emocional e o tratamento”, explica a psicóloga. O acolhimento emocional, portanto, não é um detalhe, mas parte fundamental da recuperação.
“Muito do tratamento oncológico começa pela cabeça, pelo emocional, e pela aceitação da doença”, enfatiza. A resistência ao diagnóstico pode atrasar o tratamento, dificultar decisões importantes e agravar o sofrimento.
Rede de apoio faz a diferença
Nadine ressalta que a rede de apoio tem papel decisivo. Mas ela alerta: nem sempre essa rede é composta apenas por familiares. “Rede de apoio é toda pessoa que está próxima a ti e te faz bem. Apoiar não é julgar, é estar presente de forma genuína”.
A escuta ativa é uma habilidade essencial nesse processo. “A gente passou a não conversar mais com as pessoas. O nosso convívio social mudou. Precisamos resgatar a escuta genuína”.
A autoestima abalada e o luto simbólico
Perdas físicas causadas pelo tratamento, como queda de cabelo ou mastectomia, mexem diretamente com a autoestima. “Não é só o cabelo, é imagem. Não é só a mama, a mama tem uma conotação de fertilidade, de vida”, afirma a psicóloga.
O desafio de aceitar a vulnerabilidade
Muitas mulheres enfrentam outro obstáculo: o de aceitar ajuda. “Esse é um primeiro luto que a gente tem que trabalhar: aceitar ser acolhida, respeitada e entender que depender de alguém por um tempo faz parte do tratamento”, explica Nadine.
Essa dependência temporária pode ser dolorosa para mulheres que sempre foram independentes, mas é uma etapa necessária para que o tratamento flua.
A importância do suporte psicológico
O acompanhamento psicológico, segundo a psicóloga, é essencial em todas as fases da doença. “O suporte psicológico, não só para o paciente, mas para a família, é imprescindível”, destaca.
Ele ajuda na aceitação da nova rotina e no enfrentamento das mudanças impostas pela doença. “O câncer traz um olhar diferente para a vida. Ele faz você perceber que a vida precisa ser mais bem vivida”.
Silenciar ou falar
O silêncio pode ser uma estratégia inicial para lidar com o impacto do diagnóstico, mas não deve se prolongar. “O silêncio pode ser necessário no início, mas estendido por muito tempo, ele prejudica”, alerta.
Psicoterapia como ferramenta de prevenção e desenvolvimento
Buscar ajuda psicológica deixou de ser algo exclusivamente ligado ao tratamento de doenças. “Hoje em dia a gente não faz mais só terapia para tratar coisas, a gente busca para evitar coisas”, afirma Nadine.
O espaço terapêutico se tornou um local de segurança emocional e desenvolvimento pessoal. “Autoconhecimento gera autoconfiança. E pessoas autoconfiantes enfrentam melhor o tratamento”.
Práticas para lidar com o processo
Entre as práticas recomendadas pela psicóloga estão escrita terapêutica, meditação, atividades leves e resgatar hobbies como culinária ou pintura. “A escrita é terapêutica. A arte trabalha paciência e tolerância. Cada pessoa reage de uma forma diferente e precisa encontrar o seu caminho”, orienta.
A fé, independente da religião, também é um ponto de apoio. “Ter fé é acreditar em algo, e isso ajuda muito no tratamento”.
Viver com a nova realidade
Receber um diagnóstico de câncer é encarar uma nova realidade. O tratamento pode ser doloroso e impactar corpo e alma, mas aceitar essa condição é essencial. “Negar a doença, o tratamento ou a nova rotina só prejudica. Aceitar é valorizar a vida e os momentos com uma outra força”, conclui Nadine.