O sono dos bebês é um dos assuntos que mais gera dúvidas e inseguranças entre pais e cuidadores. É comum que recém-nascidos acordem várias vezes durante a noite, dormindo em períodos curtos ao longo do dia, o que muitas vezes é confundido com um problema. No entanto, esse padrão de sono é uma característica natural e esperada do desenvolvimento infantil. Para entender melhor esse processo, a pediatra Dra. Maria Victória de Lima, explica os marcos do sono infantil e dá orientações sobre como lidar com os desafios do sono nos primeiros anos de vida.
Por que o sono dos bebês é tão diferente do dos adultos?
Segundo a Dra. Maria Victória, a fragmentação do sono nos primeiros meses ocorre porque o cérebro do bebê ainda está em formação. “A maneira como eles dormem é bem diferente da dos adultos. O sono é dividido em fases: uma delas é o sono leve (chamado de NREM) e a outra é o sono mais profundo e cheio de sonhos (chamado de REM). Nos bebês, especialmente nos recém-nascidos, esses ciclos são curtos, duram em média 40 a 50 minutos, e a cada mudança de fase pode ocorrer um pequeno despertar”, explica.
Além disso, o sono dos bebês é do tipo “polifásico”, ou seja, eles dormem em vários momentos curtos ao longo do dia e da noite. “Isso acontece porque o cérebro do bebê ainda está em formação e precisa desses despertares frequentes para se adaptar ao novo mundo fora do útero, além de garantir necessidades básicas, como alimentação e vínculo com os pais”, completa.
O papel do sono no desenvolvimento infantil
Muito mais do que descanso, o sono exerce funções essenciais no crescimento e desenvolvimento saudável da criança. “Durante o sono, o cérebro trabalha ativamente, ajudando a organizar tudo o que a criança viu, ouviu e aprendeu durante o dia. Uma boa analogia é imaginar o cérebro como uma grande estante de livros: enquanto a criança dorme, essa estante vai sendo arrumada, com os ‘livros’ colocados nos lugares certos, facilitando o aprendizado, a memória e a atenção no dia seguinte”, diz a médica.
Ela ressalta também outros benefícios: “O sono fortalece a defesa do corpo contra doenças (imunidade), conserva energia, ajuda na regulação do humor e até na desintoxicação do organismo. O sono de qualidade na infância é um dos pilares para uma vida saudável ao longo dos anos”.
Marcos do sono infantil: o que esperar em cada fase
“O sono do bebê passa por várias mudanças ao longo do crescimento. Entender essas fases ajuda os pais a terem expectativas mais realistas e lidarem melhor com as dificuldades do sono”, afirma a pediatra.
- Recém-nascidos (0 a 3 meses): Sono polifásico, dividido em períodos de 3 a 4 horas ao longo do dia. São necessárias de 16 a 18 horas de sono por dia. Comportamento esperado: muitos despertares noturnos, sem ritmo definido de dia e noite;
- 3 a 6 meses: Começam a diferenciar o dia da noite. Comportamento esperado: alguns despertares ainda são normais, mas o sono começa a se organizar;
- 6 a 12 meses: Sono noturno mais prolongado (6 a 8 horas), com 2 a 3 cochilos diurnos. Comportamento esperado: ansiedade de separação pode causar despertares noturnos temporários;
- 1 a 3 anos: Diminuição das sonecas e sono noturno consolidado. Comportamento esperado: resistência para dormir, medo do escuro e despertares ocasionais;
- 3 a 5 anos: A maioria deixa de fazer sonecas. Comportamento esperado: pesadelos e terror noturno podem aparecer;
- A partir dos 6 anos: Sono semelhante ao dos adultos. Comportamento esperado: maior estabilidade, mas rotinas irregulares ou uso excessivo de telas podem impactar o descanso.
Fatores que influenciam o sono dos bebês
“O sono dos bebês não depende apenas da ‘vontade’ de dormir, ele é influenciado por vários fatores do ambiente e da rotina diária”, destaca a pediatra.
A alimentação é um deles. “Nos primeiros meses, os despertares noturnos geralmente estão ligados à fome. Já durante a introdução alimentar, refeições equilibradas ajudam a promover um sono mais prolongado”.
Estímulos também são importantes. “A exposição à luz natural e atividades durante o dia ensinam o bebê a diferenciar o dia da noite. Brincadeiras adequadas cansam o bebê de forma saudável, mas estímulos exagerados antes de dormir podem deixá-lo agitado”.
O estado emocional dos cuidadores também influencia: “Pais ansiosos, estressados ou inseguros podem, mesmo sem querer, transmitir essa tensão para o bebê, tornando o momento do sono mais difícil. Rotinas calmas e seguras ajudam o bebê a relaxar e dormir melhor”.
A importância de uma rotina estruturada
“Manter uma rotina previsível na hora de dormir é uma das estratégias mais eficazes para melhorar a qualidade do sono das crianças”, orienta a Dra. Maria Victória. Segundo ela, o cérebro infantil funciona bem com repetição e previsibilidade. “Quando a criança percebe que sempre acontece a mesma sequência de atividades antes de dormir, seu corpo e mente entendem que está chegando a hora de descansar”.
Essa rotina pode incluir banho, colocar o pijama, uma história ou música suave. “Além de melhorar o sono, isso fortalece os vínculos entre a criança e o cuidador”.
O apoio dos profissionais de saúde aos pais
Os profissionais de saúde têm um papel fundamental em acolher e orientar as famílias, especialmente nos momentos de exaustão. “É importante explicar que o sono do bebê, especialmente nos primeiros meses, é naturalmente fragmentado e que isso faz parte do desenvolvimento normal”, afirma.
“É essencial validar o cansaço dos pais, incentivando momentos de descanso sempre que possível, buscando apoio de familiares ou amigos e, se necessário, orientando para acompanhamento psicológico. Cuidar do bem-estar dos pais é cuidar, indiretamente, do bem-estar do bebê. Lembre eles de que nenhum bebê nasce ‘sabendo dormir a noite toda’. É um aprendizado que acontece com o tempo. Paciência, acolhimento e informação são fundamentais para atravessar essa fase com mais leveza”, conclui.