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Cultura

O desafio da leitura crítica na era digital

Para o professor e pesquisador Fabiano Tadeu Grazioli, a dificuldade atual é formar leitores competentes e pessoas com gosto pela leitura

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Professor e pesquisador Fabiano Tadeu Grazioli.jpg
Por Vivian Mattos
Foto Arquivo pessoal

Três em cada dez brasileiros são analfabetos funcionais, o que corresponde a 29% da população com idade entre 15 e 64 anos. Os dados são do Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF), publicado no dia 5 de maio.
Para o professor e pesquisador Fabiano Tadeu Grazioli, a mudança no hábito de leitura está relacionada à diminuição do número de leitores críticos. Pessoas que não desenvolvem proficiência suficiente para decodificar as palavras do texto e compreender com profundidade o que leem.

 

Leitor funcional
Nas décadas de 1980 e 1990, escolas e universidades brasileiras concentraram esforços no combate ao analfabetismo funcional, como o investimento na formação de professores. Fabiano destaca que, atualmente, o debate gira em torno do “leitor funcional”. “Ele sabe ler, não é analfabeto, (essa categoria que procurou se atender nas décadas passadas) mas também não é um leitor competente”, explica Grazioli.
O leitor funcional consegue decodificar palavras, mas não atinge um nível de leitura satisfatório, muito menos crítico que lhe permita autonomia e emancipação intelectual. "Um exemplo claro é o de uma pessoa que sabe ler e consegue decodificar os textos bíblicos, mas vai à igreja e depende da interpretação que o pastor dá àquilo que ele lê”, exemplifica. 
“Outro exemplo é o leitor que lê, mas depende de um direcionamento ideológico para pensar sobre as notícias que lê. E, se lhe cabe, acredita até em notícias falsas”, disse Fabiano.

 

Redes sociais e leitura
Para o professor, as redes sociais não foram criadas para a leitura de textos complexos, obras ou literatura. “Elas correspondem a uma estrutura que vai desde o visual até a programação (os recursos da informática) para dar conta de questões comerciais e a comunicação de modo geral. Por isso, a experiência literária e estética não está nesse radar”, explica.
Por outro lado, o entrevistado defende que a leitura em suportes digitais pode ser uma experiência profunda e complexa, como no uso de Kindle ou tablets. “São textos que, apesar de estarem em suportes digitais, exigem, em grande medida, a concentração, a atenção, o envolvimento cognitivo, intelectual, afetivo, subjetivo. Aliás, são suportes que utilizam os recursos tecnológicos a favor do contato com o leitor, que favorecem a leitura, isto é, favorecem o contato com o texto”, evidencia o professor. 
O terceiro ponto destacado é a literatura digital, que se diferencia da categoria anterior por utilizar recursos próprios do ambiente digital. Esse formato adapta, em grande medida, tais recursos, permitindo que os elementos interajam e dialoguem com o texto verbal.
Fabiano Tadeu Grazioli é graduado em Letras, com especialização em Metodologia do Ensino da Literatura, é mestre em Estudos Literários e doutor em Letras, na área de Leitura e Produção Discursiva, tendo realizado recentemente estágio de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS. Em 2009, foi premiado com a Bolsa para Produção Crítica em Mídias Digitais/Internet, do Ministério da Cultura (MinC), para realizar a pesquisa “Leitura e fruição na tela: um olhar crítico em direção à ciberpoesia”. “Dentre outras finalidades, a pesquisa se esmerava em entender como que a poesia digital funde recursos digitais e verbais na produção dessa literatura”, explica Grazioli.

 

Criar o gosto sobre ler
Para o docente, um dos maiores desafios atuais é fazer com que a leitura se torne parte do cotidiano de crianças e adolescentes, deixando de lado apenas o discurso sobre sua importância e, de fato, construindo o estímulo à prática da leitura.
Um aspecto importante dessa transformação, segundo ele, está na atitude das famílias. Muitos pais desejam que os filhos sejam leitores, mas não abrem mão do uso constante do celular, o que gera um exemplo contraditório.
“Poderiam ler no celular (o “hábito que exigem dos filhos”), mas não é o caso. Ou quando a escola pede a obra literária como parte do material escolar, eles enviam o livro de R$3,90 que tem na papelaria. São essas famílias que se colocam o dedo em riste para cobrar as instituições pela formação do leitor, que é um compromisso de toda a sociedade e principalmente das famílias, que devem trabalhar em pareceria com a escola e fazer parte importante desse processo”, destaca. 

 

A formação do leitor
Em sua análise, Fabiano destaca que o leitor mais competente nos espaços digitais é aquele que, em algum momento, teve contato com a leitura de textos impressos. “Esse parece ser um caminho a ser redescoberto agora que as escolas estão restringindo o uso dos celulares. Quem bom que as bibliotecas escolares estão com acervos de qualidade para receber os alunos”, finaliza.

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