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Cultura

Sérgio Vaz em Erechim: quando a poesia vira voz, afeto e revolução

Na Obra Santa Marta, dentro do Circuito Sesc de Literatura, o “Poeta da Periferia” emocionou o bairro Progresso com histórias de vida, versos de resistência e a força transformadora da palavra

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Na Obra Santa Marta, dentro do Circuito Sesc de Literatura, o “Poeta da Periferia” emocionou o bairr
Por Gabriela de Freitas
Foto Gabriela de Freitas

Na tarde da última quarta-feira (23), o bairro Progresso, em Erechim, viveu um momento especial: poesia, música, militância e memória tomaram conta do espaço da Obra Santa Marta com a presença de um dos nomes mais importantes da literatura periférica brasileira. Sérgio Vaz, conhecido como o “Poeta da Periferia”, foi o convidado do Circuito Sesc de Literatura, em um bate-papo potente, e profundamente transformador, mediado pela agente do Sesc de Erechim, Fernanda Barbosa, e interpretação em libras por Rose Benati.

Nascido em Ladainha (MG) e radicado na periferia da zona sul de São Paulo, Vaz é o idealizador do Sarau da Cooperifa e da Semana de Arte Moderna da Periferia, iniciativas que deram voz a milhares de artistas das bordas urbanas. Autor de livros como “Colecionador de Pedras” e “Flores da Batalha”, o poeta já foi reconhecido por instituições como a Unicef e a revista Época, que o elegeu uma das cem personalidades mais influentes do Brasil.

O Circuito Sesc de Literatura, promovido pelo Sesc/RS, busca aproximar escritores do público e valorizar a produção literária nacional, promovendo o acesso democrático à cultura em diversas cidades do Estado. Além de Erechim, o poeta Sérgio Vaz também participa do circuito em outros municípios como Passo Fundo (24/04), Frederico Westphalen (25/04), Santa Rosa (26/04), Novo Hamburgo (28/04), Montenegro (29/04) e Taquara (30/04).

“A poesia me salvou. E ela pode salvar mais gente.”

Diante de um público diverso — jovens, professores, artistas e moradores do bairro —, Sérgio Vaz não fez uma palestra. Fez um manifesto com alma. Falou de infância pobre, de suas descobertas literárias, da potência do hip hop, das violências enfrentadas e das escolhas que o mantiveram vivo.

“Eu escrevo pra me vingar do passado”, confessou, com honestidade crua. “A pobreza me fez ter raiva. Mas o livro me alimentou. Me deu sonho. E esse sonho de mudança é o que me trouxe até aqui.”

A experiência pessoal virou poesia e, com ela, veio o desejo de transformar a realidade coletiva. Vaz contou como surgiu o Sarau da Cooperifa — um bar que virou espaço cultural, microfone aberto para a quebrada, palco para quem nunca teve voz. “A literatura virou isca. Como dizia Leminski: 'Distraídos venceremos'.”

Literatura como alimento, não só como comida

Um dos momentos mais marcantes do encontro foi quando o autor abordou a importância das referências para quem escreve — especialmente os jovens das periferias que se descobrem criadores:

“Se você faz rap, precisa ler quem se parece com você. Não adianta assistir novela e esperar se encontrar ali. Eu leio Solano Trindade, Bell Hooks, Conceição Evaristo, Grada Kilomba. Estou lendo um livro da Socorro Acioli, “Cabeça de Santo”. Comprei por acaso num aeroporto e fiquei encantado.”

E completou:

“Comida é o que te servem. Alimento é o que você busca porque sabe que tem vitamina. Se você quer alimentar sua raiva, procure coisas com vitamina. Raiva sozinha não muda nada. A gente precisa se instruir, precisa conversar.”

Cultura como resistência e transformação

Além das falas reflexivas, o encontro foi recheado de momentos emocionantes, como quando Vaz relembrou a primeira vez em que viu um ônibus escolar chegando para assistir a um sarau na própria comunidade: “Era a primeira excursão para a quebrada. Ali entendi que o que a gente fazia era importante.”

O poeta também respondeu perguntas do público, entre elas a de Jaqueline Silva de Sousa, representante da Batalha do Quinto Elemento, que luta para reerguer o movimento cultural no bairro. A resposta de Vaz foi direta:

“Não tem fórmula. Cada quebrada é uma quebrada. Mas você precisa fincar a bandeira. Mesmo que só três pessoas apareçam. O desejo passa. Missão fica.”

O ser humano, a solidão e a coragem de ser diferente

Nos minutos finais, Sérgio Vaz fez uma crítica contundente à sociedade atual:

“Na média, o ser humano é mau. A gente precisa de leis para se comportar. Mas é por isso que a cultura é necessária. É ela que nos faz querer ser melhores.”

E concluiu com um conselho para sua versão criança:

“Vai doer, mas viver é um privilégio. Siga em frente. A vida é isso. A parte do povo que tem que continuar.”

Mais que um bate-papo — um chamado

O encontro com Sérgio Vaz não foi apenas uma atividade da programação do Sesc. Foi um lembrete urgente de que a palavra pode salvar, transformar, encorajar. Foi um chamado à ação.

Em tempos em que o discurso do ódio é amplificado, eventos como esse mostram que a arte segue viva — pulsando onde mais precisa estar: nas margens.

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