O erechinense Vitelio Brustolin, pesquisador de Harvard, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense do Rio de Janeiro, na segunda-feira, 7, participou de entrevista na TV Bom Dia. Foram 40 minutos, onde deu uma aula de conhecimento sobre geopolítica mundial. Entre os assuntos abordados, o tarifaço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e sua repercussão global; os desdobramentos das guerras pelo mundo; e as oportunidades que se abrem para o Brasil, desde que o país deixe de ser tão protecionista e saiba conduzir todo esse processo. A seguir alguns trechos da entrevista, que pode ser vista na íntegra, no Youtube do Grupo Bom Dia de Comunicação.
“A humanidade não aprende com os seus erros”
Questionei-lhe se como ser humano e não analista, vislumbra um final feliz, em função do momento que o mundo vive. E Vitelio foi enfático: “a parte do analista faz parte do que eu sou, um realista. Minha escola é o realismo clássico. Eu olho para a humanidade e vejo que ela comete os mesmos erros do passado. O que estamos fazendo agora, foi feito no início da Segunda Guerra Mundial. A humanidade não aprende com os seus erros. E é triste falar isso”.
“O idealismo acredita que a guerra iniciou com a sociedade”
Falou que em sala de aula, gostaria de dizer aos seus alunos que o mundo é maravilhoso, que o ser humano está cada vez melhor: “Mas não é isso que a história mostra. Nas relações internacionais, a escola do idealismo acredita que a guerra iniciou com a sociedade. Nós realistas olhamos a pré-história e vemos guerras acontecendo lá com nossos ancestrais. E entre espécies também, logo a guerra é inerente a espécie humana. E isso não é um pensamento pessimista e sim, realista. Se não encararmos as coisas dessa forma, a gente se ilude”, pontou Vitelio.
O pensamento que te expõe a ser dominado
“O pensamento que evita você reconhecer a vida como ela é, os fatos com eles são, é o pensamento que te expõe a ser dominado por outras civilizações. Olha para a Europa agora? Durante oito décadas acreditou que o Estados Unidos iria correr em seu socorro em caso de guerra, e talvez não vão. Caiu a ficha para a Europa”.
“As guerras não vão acabar”
O cientista relata que o pensamento realista pode evitar guerras: “Quando um lado percebe que tu tens condições de se defender, cria dissuasão. E é esse pensamento que o Brasil precisa ter. Nosso país é continental e não temos força diplomática, não temos poder real. Nós, cientistas da área, afirmamos todos os dias em público, que as guerras não vão acabar. Não teve nenhuma uma época na histórica, que teve mais guerras e mais mortes que o Século XX”.
“Não tem direitos humanos, se as pessoas estão se matando”
Vitelio relato que quando a ONU foi criada, o objetivo era acabar com as guerras, e estava alicerçada em três pilares: “a paz mundial; o desenvolvimento econômico e social; e direitos humanos. E o principal é a paz mundial, pois não tem como ter desenvolvimento se os países estão em guerra, não tem como ter direitos humanos se as pessoas estão se matando”, relatou.
Olhar para a realidade e se preparar para o pior
“Precisamos é de um mundo em que as pessoas percebam a realidade e olhando para ela, se preparem para o pior. Por exemplo, se neste momento, a Europa estivesse mais preparada, teríamos menos riscos de guerras. Se a Ucrânia não tivesse entregue seu arsernal nuclear para a Rússia em 1994, jamais teria sido invadida”, comentou.
“Acreditar em fantasias não irá nos levar a paz”
Para o estudioso, essa questão de se preparar para o pior é sim, acreditar na realidade que estamos atravessando: “Acreditar em fantasias não irá nos levar a paz. Pelo contrário. É ver a vida como ela é, acreditar na ciência e ser forte. Tornar-se fraco, vira vítima e essa é a receita para uma guerra”.
“Trump vai ter que negociar, pois é insustentável como está posto”
Sobre o tarifaço de Donald Trump que atingiu praticamente todos os países do mundo, perguntei para Vitelio, se as consequências desta ação, pode levar a economia mundial a uma quebra das bolsas de valores, como aconteceu em 1929, e a população passar por uma forte recessão: “Isso é tudo que um cientista não gosta de fazer, que é adivinhar o futuro. Ninguém tem essa resposta. E se alguém tivesse estaria comprando ou vendendo ações. Mas pelo que a história demonstra, é que o Trump vai ter que negociar, pois é insustentável como está posto. Não dá para aplicar tarifas para o mundo inteiro, quando você imprime a moeda que o comércio internacional usa que é o dólar”.
Não se esperava taxas na escala que foi anunciada
De acordo com o professor, já se esperava o tarifaço de Trump, pois ele prometeu em campanha que faria isso: “Só não se esperava que fosse nessa escala. O cálculo da tarifa é muito contestado. Ele pegou o déficit dos Estados Unidos com os países, e dividiu pelas importações e gerou percentuais. Chegou a 34% para a China, 20% para a União Européia, e 10% para o Brasil e resto do mundo. Mas no cálculo dele, teria que pagar 7% para o Brasil”.
O grande vencedor da guerra tarifária pode ser o Brasil
“Alguns órgãos dos Estados Unidos, como a Câmara de Comércio, afirmam que o grande vencedor da guerra tarifária deste mandato de Trump, será o Brasil, em função das exportações agrícolas. Está muito cedo para afirmar isso, mas é uma projeção de cenários”, sublinha.
“Estamos mais próximo de uma 3ª guerra, que em qualquer momento da história”
Indaguei-lhe se todos os ingredientes mundiais, com vários conflitos, podem se transformar numa Terceira Guerra Mundial: “Vamos pensar na Segunda Guerra Mundial. Ela não começou como uma grande guerra. Mas um conjunto de países com interesses comuns se unem criando um eixo. E nesse momento temos a criação desse eixo. É uma época muito perigosa, com muitos ingredientes. Estamos mais próximo de uma terceira guerra que em qualquer momento da história. E isso é um consenso entre os cientistas da área. Existe aquele relógio para o fim do mundo, e estamos muito próximos dos minutos finais, que existe desde a Guerra Fria”, finaliza Vitelio Brustolin.