21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Saúde

Grupos de apoio: um refúgio para quem enfrenta o luto

Compartilhar a dor é um alicerce para a recuperação emocional durante o processo de luto

teste
A busca por um propósito, o enfrentamento da dor com uma nova atitude e a ação no mundo são passos e
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Divulgação

A perda de uma pessoa querida é uma das experiências mais devastadoras da vida. Quando enfrentamos o luto, o isolamento é um dos primeiros reflexos, mas a psicóloga Maria Emília Bottini ressalta que a ajuda é fundamental neste momento: “Qualquer tipo de ajuda quando a gente está mal é importante.” Grupos de apoio surgem como um ponto de respiro para aqueles que estão lidando com a dor da perda, oferecendo um espaço onde o sofrimento pode ser compartilhado, e a dor, validada.

O luto e o tempo de recolhimento

O início do luto é um período de intensa dor, onde muitas pessoas se sentem incapazes de buscar ajuda imediata. Maria Emília observa que, nesse momento, "a dor está espalhada por todo o corpo", e a pessoa enlutada precisa de um tempo para se recolher, sem pressa para agir. Mesmo assim, ela alerta que, quando esse processo se prolonga, é importante buscar suporte. E os grupos de apoio oferecem exatamente isso: um lugar para que o enlutado se sinta acolhido, independentemente de precisar falar ou apenas ouvir.

A importância da partilha na jornada do luto

Os grupos de apoio não apenas oferecem um espaço de escuta, mas também incentivam a partilha de experiências. A psicóloga e trabalhadora da Fraternidade Espírita Francisco de Assis, Aline Mezalira explica que, no grupo, a pessoa pode colocar para fora sua dor, por vezes expressando sentimentos de revolta ou desespero. A troca de relatos entre pessoas que vivenciaram o luto cria uma rede de suporte emocional que fortalece o processo de elaboração da perda, permitindo que o enlutado compreenda a dor não como algo único e isolado, mas como parte de uma experiência compartilhada.

Grupos de apoio como ferramenta de ressignificação do sofrimento

Participar de um grupo de apoio também permite que a dor da perda seja ressignificada. Maria Emília aponta que, enquanto a sociedade promove uma busca incessante por bem-estar, o luto traz à tona a realidade de que a vida também é feita de perdas e sofrimento. Estar em um grupo de apoio permite ao enlutado confrontar essa dor de maneira mais saudável, com a ajuda de outros que estão no mesmo processo de superação. “No luto a gente acha que é só a gente que passa pelo sofrimento, e não é verdadeiro”, diz ela, ressaltando que a dor do outro pode, muitas vezes, ser uma fonte de consolo e compreensão.

O papel dos grupos: dar voz à dor e à vulnerabilidade

Uma das principais funções dos grupos de apoio é permitir que a dor seja verbalizada. Juliane Torres, psicóloga e trabalhadora da Fraternidade Espírita Francisco de Assis, acredita que ao compartilhar a dor com outras pessoas que já passaram por ela, o enlutado consegue começar a elaborar o processo de luto. “Mesmo quando não há palavras, a escuta atenta e a empatia do outro têm um efeito curativo”, pontua.

A resistência inicial e a superação no processo de luto

Embora os grupos de apoio sejam fundamentais, é comum que as pessoas resistam a buscar ajuda logo após a perda. A dor é intensa, e o sofrimento pode ser paralisante. Como Maria Emília menciona, a pessoa enlutada precisa de um tempo para se recompor, e aceitar qualquer tipo de ajuda pode ser um passo difícil. No entanto, com o passar do tempo, o grupo se torna um espaço crucial para a recuperação, um lugar onde a dor não é apenas acolhida, mas também transformada.

Luto coletivo: como a Logoterapia pode ser integrada ao processo de apoio

A Logoterapia, uma abordagem psicoterapêutica que busca encontrar o sentido no sofrimento, tem sido cada vez mais integrada aos grupos de apoio ao luto. Paulo Kroeff, psicólogo especialista em Logoterapia, explica que essa abordagem auxilia os enlutados a reestruturarem sua visão sobre a dor, oferecendo uma perspectiva de que a vida sempre possui um sentido, mesmo diante do sofrimento. “Nos grupos, a troca de experiências, aliada à reflexão sobre o significado da perda, pode ajudar os enlutados a encontrar uma nova forma de viver, a partir da dor, e não apesar dela”, frisa.

O desafio de encontrar um espaço para o luto

Ainda há muito preconceito em relação aos grupos de apoio, especialmente no que diz respeito ao luto. Fomos educados a lidar com nossas dores de forma isolada, e o estigma de que a dor deve ser superada sozinha ainda persiste. No entanto, os grupos oferecem um novo olhar: a dor não precisa ser enfrentada sozinha, e ao compartilhar o sofrimento, os enlutados podem encontrar a força para seguir em frente. “A vida precisa continuar, e os grupos de apoio são uma forma de encontrar força para seguir, apesar da perda”, conclui Maria Emília.

A dor compartilhada é a dor amenizada

O luto é uma experiência profundamente pessoal, mas não precisa ser vivenciado em total isolamento. Os grupos de apoio oferecem um espaço para que as pessoas enlutadas possam não apenas compartilhar sua dor, mas também se reconstituírem a partir dela. O acolhimento, a escuta e o compartilhamento de histórias são poderosos instrumentos no processo de cura. E, como ensina Maria Emília, “nós não sabemos quanto é o tempo de cada dor, de cada pessoa elaborar a sua perda. Às vezes, é um dia, outras vezes, é a vida inteira.” O que importa é que, com o apoio dos grupos, o enlutado tem a oportunidade de encontrar novos caminhos para seguir em frente.

Grupo de Apoio ao Luto Fraternidade Espírita Francisco de Assis

O grupo é conduzido por Aline, Juliane e mais um psicólogo, tendo um suporte de outros trabalhadores da casa, com o objetivo de oferecer acolhimento para pessoas enlutadas, baseado na doutrina espírita. Ele se reúne nas primeiras segundas-feiras de cada mês, no Fraternidade Espírita Francisco de Assis, com início às 19h30 e normalmente dura uma hora e meia. Embora o foco seja o luto sob a ótica espírita, o grupo é aberto a pessoas de todas as religiões, que desejem compreender a morte e a vida após a morte segundo essa doutrina. Inclusive, a maioria dos participantes hoje, são católicos.

O grupo foi formado no ano passado e ainda é pequeno, com variação no número de participantes, que pode ser de duas a cinco pessoas por encontro. Isso se deve em parte à resistência das pessoas em abordar o luto, um tema doloroso e difícil de discutir. Mesmo assim, ao longo das reuniões, os participantes se sentem mais à vontade para compartilhar seus sentimentos, com muitos chegando inicialmente resistentes e saindo renovados.

Aline e Juliane acreditam que o entendimento espírita sobre a morte como uma passagem, e não o fim, oferece conforto aos participantes, principalmente aqueles que perderam entes queridos, como filhos, e que encontram consolo na ideia de um reencontro no futuro.

O grupo surgiu da demanda por orientação espiritual diante da perda, já que muitos procuram a doutrina espírita nesse momento difícil. Inicialmente, o grupo seria específico para lutos mais determinados, mas decidiram manter uma abordagem mais ampla, para não restringir o número de participantes. Eles acreditam que, embora as perdas sejam diferentes, as questões emocionais e espirituais abordadas são comuns a todos, tornando o grupo inclusivo e enriquecedor para todos os envolvidos.

Depoimento de uma pessoa enlutada

Denise compartilha que, há 13 anos, ela e seu marido começaram a participar do Grupo de Apoio de Pais Enlutados, após um amigo, que também havia perdido um filho, insistir por três meses para que eles se juntassem ao grupo. Durante as reuniões, ouviram diversos depoimentos de pessoas que enfrentaram perdas em momentos diferentes, o que os fez perceber a importância do apoio emocional, sempre com o acompanhamento de psicólogos. Com o tempo, Denise e seu marido foram ajudados a encontrar caminhos para seguir em frente com dignidade. Hoje, Denise dedica-se a ajudar outros pais a enfrentar a dor da perda e seguir suas vidas.

Um outro pai, que preferiu não se identificar, relata que encontrou o grupo de apoio poucos meses após a perda de seu filho. Inicialmente, ele se juntou ao grupo sem grandes expectativas, mas foi surpreendido positivamente. Sentiu-se acolhido e encontrou um espaço para expressar sua dor e falar sobre seu filho sem ser julgado. Embora ainda seja recente tanto a perda quanto sua participação no grupo, hoje ele já consegue acreditar nas palavras de pais com mais tempo de luto, que afirmam que, um dia, será possível sorrir novamente e seguir em frente, mesmo com um pedaço de si faltando.

Leia também

Publicidade

Blog dos Colunistas

;