Neste dia 19 de março é feriado municipal em Erechim, desde 2020. Mas, afinal, o que significa este dia? Para entender um pouco mais sobre este assunto cultural é preciso olhar para o passado e conhecer a história do município, que tem muitas idiossincrasias.
Segundo o livro “Erechim – Retratos do Passado Memórias no Presente”, a partir de 1910, começaram a chegar as primeiras famílias imigrantes europeus, da segunda geração no Brasil, vindos das chamadas “colônias velhas” ou da Europa, com o objetivo de recomeçar, abrir a mata, construir casas, plantar, colher, enfim, viver, construir uma nova vida na Colônia Erechim.
Dos imigrantes, de várias nacionalidades, quem permaneceu em maior número foram italianos, alemães, judeus, russos, tchecos, lituanos, franceses, holandeses, espanhóis, austríacos. Importante destacar a contribuição do negro na construção da região, vindos de outras partes do Estado e do país.
Primeira Capela Católica
Em 1912, chegou a família de Elisa Dal Vesco Vacchi, que foi a primeira parteira de Erechim, deu à luz muitas vidas e foi a primeira dona de uma hospedagem e era, também, muito religiosa. “Por sua iniciativa, foi inaugurada a primeira capela católica, e no dia 13 de junho de 1913, em louvor a Santo Antônio, o primeiro Padroeiro da Colônia. O carpinteiro da obra foi Arcangelo Rosseto”, segundo o livro “Erechim – Retratos do Passado Memórias no Presente”.
Padroeiro de Erechim
Segundo o coordenador do Arquivo Histórico Municipal Juarez Miguel Illa Font, Henrique Trizoto, pode ocorrer uma confusão entre as datas, tendo em vista que Erechim comemora, neste dia 19 de março, o feriado em homenagem ao padroeiro de Erechim, e não a emancipação política e administrativa da cidade é celebrada no dia 30 de abril.
A problemática, segundo o historiador, se dá pela falta de documentação que determine a data específica de homologação do padroeiro da cidade como sendo São José.
“A informação mais antiga que levantamos no acervo do Arquivo Histórico Municipal Juarez Miguel Illa Font, no livro sobre a diocese de Erexim (a Diocese de Erexim tem sua grafia com x), é de que a paróquia se iniciou em 19 de agosto de 1919, já como paróquia São José”, afirma ele.
O historiador, Henrique Trizoto, lembra que o primeiro capitel foi inaugurado em 13 de junho de 1913 era em homenagem a Santo Antônio e foi idealizado pela parteira Elisa Dal Vesco Vacchi e estava localizado na rua Torres Gonçalves. “Não raro as comunidades tinham como padroeiro um santo cujo critério de escolha vinha da disponibilidade de uma imagem (estátua) e de algum devoto disposto a doá-la à comunidade”, observa ele.
História cristã
Ele explica que a celebração de São José, em 19 de março, tem suas raízes na tradição cristã, datando pelo menos do século IX e não tem uma data exata de origem conhecida, mas foi, solidamente, estabelecida na liturgia da Igreja por volta do final da Idade Média.
“A festa de São José foi oficialmente inscrita no Calendário Geral Romano pela primeira vez por decreto do Papa Sisto IV em 1479. No entanto, a veneração a São José como protetor da Igreja universal foi proclamada pelo Papa Pio IX em 1870, elevando sua importância na fé católica. Ao longo dos séculos, a data de 19 de março foi mantida como um dia de celebração para São José em muitas culturas católicas, tornando-se um dia de festa litúrgica e, em alguns lugares, um feriado, como no caso de Erechim”, destaca o historiador.
São José
Conforme o historiador, Henrique Trizoto, em 1915, foi construída outra igreja, no local da atual casa paroquial, em 1919, o bispo de Santa Maria, dom Miguel de Lima Valverde, criou a paróquia de Erechim e acolheu São José como padroeiro.
“Em 1927, iniciou a construção da Igreja Matriz São José, de alvenaria, de 45 metros de comprimento por 20 metros de largura, resultando em 945 metros quadrados. A conclusão da obra se deu em 1935. Na moeda da época, custou 690 contos de réis”, comenta ele.
“Para construir a Catedral São José foram utilizadas cerca de 10 toneladas de cimento importados da Alemanha na obra, a cal utilizada vinha de Curitiba e Caçapava, os tijolos de Capinzal, colunas, capitéis e florões de Porto Alegre e os três sinos de aço fundido que receberam o nome de Jesus, Maria e José vieram da cidade de Bochum na Alemanha”, relata Henrique.
O historiador ressalta que mais do que uma igreja, a Catedral São José foi um elemento de união entre os adeptos do catolicismo e da comunidade que se formava. “Havia sentimento de participação, inserção em um trabalho maior, a igreja se tornou, para os membros da paróquia, uma espécie de propriedade coletiva identitária”, afirma.
Ele ressalta que a Igreja Matriz São José tinha características arquitetônicas singulares interna e externamente. “O domingo pela manhã tradicionalmente começava com uma missa e depois os jovens faziam o footing pela avenida Maurício Cardoso e a Praça Júlio de Castilhos. Os rapazes e moças nestes passeios embalavam seus sonhos de encontrar um par e casar na bela Igreja Matriz São José. O simbolismo extrapolava as fronteiras religiosas e adentrava pelos aspectos sociais, econômicos e políticos”, ressalta o historiador.
A derrubada
No ano de 1967, a partir da notícia de que a igreja estava condenada, ela foi interditada, e, posteriormente, se deu o início da demolição da igreja. O historiador comenta que a interdição se deu, oficialmente, devido ao fato de estar em precárias condições e o teto poderia desabar sobre os fiéis. “Mas relatos descrevem que algumas partes do reboco interno do teto realmente estariam caindo, porém, consta que os alicerces e a estrutura ainda estavam em boas condições”, afirma.
Henrique afirma que, depois de sua demolição, a Igreja Matriz deu lugar a Catedral, que iniciou a construção, moderna, em julho de 1969, simbolizando a elevação de Erechim à Diocese. A Catedral foi inaugurada em 15 de maio de 1977 pelo arcebispo de Porto Alegre, dom Vicente Scherer.
Feriado
Desde 2020, conforme lei municipal, o dia 19 de março passou a ser feriado e Dia do Padroeiro de Erechim, São José. Uma parcela significativa de municípios adota a emancipação política e administrativa, a sua constituição legal, histórica e cultural, como cidade, enquanto feriado. Por que em Erechim é diferente?