Após a seleção do edital municipal de incentivo à cultura FAACE (Fundo de Apoio as Artes e a Cultura de Erechim), a história ilustrada “As cores do bota amarela” ganhou forma e está disponível em todas as escolas municipais, estaduais e privadas de Erechim. O artista Mauricio Antunes em parceria com o professor e historiador André Ribeiro, elaborou uma história sobre a colonização do município partindo de algo mais atual, trazendo a afirmação e fontes sobre a participação dos povos negros e indígenas na formação da cidade de Erechim. A produção também teve em sua equipe Marcelo Pessoa da Silva e Adilson Pasquato.
“Buscávamos unir todas as nossas qualidades e pautar a cultura negra como uma forma de autoafirmação, trazer questões históricas, englobar o meu trabalho que é baseado em fotos, retratos digitais, tudo isso em forma de caricatura. O André é professor de história, tem uma visão mais aprofundada sobre os registros históricos, ele fez essa busca que auxiliou na produção para transformar os fatos em uma história em quadrinhos”, conta Mauricio Antunes.
Qual é o significado de “bota amarela”?
De acordo com André Ribeiro, antigamente as botas feitas em couro cru ficavam com a aparência amarelada por causa do contato com o barro, quando os viajantes de Erechim chegavam a cidades vizinhas eram chamados de “botas amarelas”. “Daí então surgiu a ideias do título “As cores do bota amarela” para designar a variedade de etnias presentes no município.
Estudos culturais e ancestralidade
“Era uma questão que me inquietava muito, quando falávamos da história regional, não termos os elementos aos quais sabíamos que estavam presentes aqui que eram o negro e o indígena. Então fomos escavando e procurando, buscando em outras leituras e autores, e acabamos encontrando registros de nossa história, referências. Nós tivemos uma presença dos indígenas Kaingang, já era falado na historiografia dos últimos 20 anos, antes se falava muito em Tupi-guarani, havia uma certa confusão. A presença do caboclo também era um elemento presente em toda essa região e o negro”, acrescenta André. A partir da obra “Ancestralidade nas campinas”, do autor Manoel Gomes, André e Mauricio conseguiram encontrar registros mais sólidos sobre a presença do negro em Erechim.
Na revista fizeram uma linha do tempo que conta a história de todas as etnias que fazem parte da cultura erechinense. Foram procurados os grupos para retratar a história de cada um deles de forma que nenhum fosse esquecido. O município agrega pelo menos 23 grupos étnicos.
“Nós temos em Erechim uma diversidade cultural muito grande que abordamos nessa revista. É fundamental que nós possamos nos enxergar, são muitas pessoas contribuindo para o desenvolvimento da sociedade. Várias cores formaram o bota amarela”, destaca Mauricio.
A arte como uma forma de reforçar a representatividade
Mauricio Antunes desenhava desde a sua infância, chegou a cursar artes plásticas no Belas Artes, mas teve uma fase de afastamento em relação a desvalidação de seus desenhos, principalmente na época da escola. Apesar da desistência na época, ainda desenhava como um hobby, chegando a explorar o grafite. Com a pandemia, ele acabou retornando as atividades, fez cursos on-line e investiu na arte digital. No início foi difícil até conseguir um equipamento que comportasse os programas e os arquivos. Segundo ele, a arte foi uma rota de fuga em meio ao caos da pandemia de 2020, e ao se encontrar novamente com a arte percebeu a necessidade de trabalhar as questões sociais as quais estava engajado.
“Ao concluir esse projeto, de suma importância para nós, que foi uma forma de levar cultura e informação para dentro das salas de aula. Sabemos como é difícil trabalhar com adultos e mudar essa realidade que vivemos, de preconceitos e discriminação, por isso devemos começar lá na base, na educação fundamental, porque somos capazes sim de formar melhores cidadãos para um futuro e um mundo melhor. Somos capazes dessa transformação e eu acredito nisso. O André também acredita nisso. E crer que isso é possível foi o nosso maior incentivo em realizar o projeto da revista e levar informação de uma forma lúdica e atrativa para os alunos de uma forma que pudesse marcar o desenvolvimento deles para que se tornem adultos conscientes e sejam pessoa melhores”, finaliza Mauricio.