O médico psiquiatra, Ricardo Fasolo, especialista em psiquiatria da infância e adolescência e psicoterapia, fala sobre esse importante questão que preocupa o mundo inteiro
O consumo de substâncias psicoativas é um grave problema de saúde pública. O início do consumo de álcool e de outras drogas geralmente ocorre na adolescência e tem sido cada vez mais frequente nessa faixa etária. De acordo com o último levantamento nacional sobre o consumo de drogas psicoativas, entre estudantes do ensino fundamental e médio, 65,2% fizeram uso de álcool, 24,9% de tabaco e 15,5% de maconha.
Na adolescência, a proporção de dependentes entre os usuários alcançou 10%, ao passo que nos adultos a proporção é de 33%. As mulheres mais jovens vêm apresentando os maiores índices de aumento do consumo de álcool entre 2006 e 2012. Uma pesquisa inédita feita pelo Ministério da Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro e mais 33 instituições de ensino superior no Brasil, concluída em junho de 2016, mostra que 18,5% dos adolescentes brasileiros, entre 12 e 17 anos, já experimentaram cigarro. Tratando-se de Porto Alegre esse percentual sobe para 26,5%.
Adolescência
Este é o período do desenvolvimento que as crianças atravessam para se tornarem adultos, conquista da autonomia, independência física e econômica. Trata-se de um período tumultuado, repleto de mudanças e de transformações. Ocorrem mudanças intelectuais, hormonais, físicas e sociais. Estudos de imagem cerebral por ressonância nuclear magnética oferecem evidências de que, durante o processo de maturação gonadal e comportamental, os adolescentes apresentam vulnerabilidade cerebral específica para a impulsividade sexual e a relacionada ao apetite, bem como para alterações de hábitos de sono.
A adolescência é, especialmente, a fase mais vulnerável da vida para a dependência química, porque o cérebro está em formação
A formação cerebral é concluída somente aos vinte e um anos de idade e os danos causados pelas drogas podem ser permanentes e não se sabe qual área do cérebro será mais atingida. A exposição às substâncias psicoativas provoca um desequilíbrio no sistema de recompensa cerebral, por meio do estímulo da liberação de neurotransmissores (como a dopamina) que geram a sensação de prazer e de bem-estar. O uso dessas substâncias psicoativas instala uma memória positiva das sensações de prazer e, com isso, a compulsão à repetição ao hábito vicioso.
A liberação repetida de dopamina por meio de drogas leva a mudanças neuronais, ocasionando a sensibilização do organismo. Esta sensibilização – ou tolerância reversa – se manifesta pelo aumento dos efeitos da droga por meio de administrações repetidas em baixas doses. Assim, o individuo passa a exibir um comportamento compulsivo pela droga, o chamado craving ou fissura, que consiste em um desejo duradouro existente mesmo quando a motivação básica para o consumo já não é o prazer imediato ou a necessidade de evitar o desprazer da abstinência.
Se um adolescente de 13 anos, por exemplo, usar álcool, tabaco e maconha em todos os finais de semana, os riscos de comprometimento cognitivo serão bastante significativos e será alta a possibilidade de ele adquirir dependência química pela exposição precoce. Atualmente, importantes mudanças foram conquistadas. O ECA/1990 afirma que a criança é sujeito de direito e não mais objeto de direito. O artigo 227 desse estatuto afirma que adolescência é uma fase de vulnerabilidade ficando a família e a escola responsáveis pelos cuidados dos jovens.
Além das condições psicológicas e sociais, outro fator fundamental para o surgimento da dependência refere-se aos transtornos psiquiátricos. Salienta-se que 89% dos adolescentes usuários de drogas desenvolvem transtornos psiquiátricos, principalmente ansiedade, depressão e transtornos de conduta. A comorbidade é regra, o abuso de drogas em adolescentes está frequentemente associado a problemas de saúde mental, o que inclui o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, transtorno de humor bipolar, transtorno de humor unipolar, transtorno de conduta, transtornos de ansiedade, o abuso físico ou sexual e as dificuldades acadêmicas.
Influência
A influência da cultura também é prejudicial. “Festa sem bebida não tem graça”. Além dessas crenças, a imprensa colabora incentivando o uso com propagandas de bebidas alcoólicas, mesmo com a proibição de substâncias lícitas para menores de idade.
Outro grande aspecto significativo diz respeito ao consumo de substâncias por parte dos pais. A perturbação da dinâmica familiar, o modelo oferecido e as dificuldades em impor limites, oferecer continência e ensinar a lidar com as frustrações predispõem o adolescente a buscar na droga o alívio imediato e a repetir o comportamento de oposição em outros locais, onde não haverá tolerância. As consequências podem levar ao aumento de conflitos e do consumo por uma incapacidade de lidar com problemas de maior gravidade.
Há que se considerar, ainda, os acidentes automobilísticos, que constituem uma causa importante de morte em jovens, além de traumatismos, afogamentos, gestações indesejadas, doenças sexualmente transmissíveis. Os prejuízos aumentam de acordo com o aumento do consumo de drogas, bem como as mudanças de comportamento, os conflitos familiares, sociais, o atraso na aquisição de habilidades sociais.
De acordo com a literatura, os adolescentes são mais suscetíveis à opinião e à avaliação dos amigos, um dos principais fatores que levam os adolescentes a experimentar as drogas é a curiosidade. O desejo de conhecer diversas formas de prazer e de onipotência conduz a atitudes ousadas que lhes proporcionam bem-estar e poder, além da importantíssima inserção social. Em geral meninos experimentam mais cedo que as meninas, talvez pela facilidade de acesso.
A aprovação dos amigos é um fator que influencia muito o modo como o adolescente se comporta, o que aumenta o risco do uso de substâncias psicoativas.
Muitas vezes, os amigos transmitem mensagem de supervalorização do uso de álcool, de tabaco e de outras drogas, de modo que o consumo promove popularidade no grupo. Além da valorização social, os adolescentes, muitas vezes, têm dificuldade para impor sua opinião, não resistindo à influência dos amigos, o que contribui para o uso de álcool e de outras drogas. Fatores como o uso de álcool e de outras drogas, envolvimento em atividades ilegais, defasagem escolar, agressividade, rebeldia e comportamentos antissociais praticados pelos amigos têm sido associados ao uso de álcool e de outras drogas nessa fase da vida.
Fatores de risco
Os fatores de risco individuais para iniciar o uso de drogas relacionam-se, principalmente, com a autoestima, o temperamento, a capacidade de resolução de problemas, a tolerância à frustração, história familiar de consumo de drogas, carência de vínculo com a mãe e de monitoramento familiar, graves conflitos familiares, rejeição pelos colegas, manifestações precoces de comportamento agressivo/antissocial, insucesso na escola, rebeldia, amizades com usuários.
Por outro lado existem os fatores de risco ambientais, como privação econômica e social, fácil acesso às drogas, crianças vítimas da vulnerabilidade social, em situação de rua ou extrema privação, chegam a apresentar uma prevalência 30 vezes maior de consumo de substâncias psicoativas.
Há sólida evidência científica apontando que um dos principais fatores protetores para o uso de drogas é o sucesso dos pais e da escola em estabelecer regras claras de condutas e a adoção de normas convencionais a esse respeito. Ao identificar um aluno usuário de drogas, as instituições de ensino devem encaminhar para um tratamento. A articulação entre a escola, a família e o profissional ou equipe da área da saúde é fundamental para o sucesso terapêutico.
Os fatores familiares são protetivos quando há um bom diálogo, afeto, confiança, lazer e limites bem estabelecidos. Um dos conceitos-chave para se pensar sobre prevenção é a resiliência, condição diferencial que permite que determinadas pessoas, mesmo submetidas a condições extremamente adversas, mantenham níveis aceitáveis de saúde e de qualidade de vida. É importante colocar expectativas claras relativas ao comportamento, monitorar e supervisionar as crianças e adolescentes, reforçar, com consistência, atividades que favoreçam a socialização, criar oportunidades para o envolvimento familiar e promover o desenvolvimento das habilidades acadêmicas e sociais dos jovens.
Tratamentos
Todo problema só consegue ser solucionado quando não é negado. Considerando a urgência de resultados no tratamento da dependência química de adolescentes, a avaliação psiquiátrica é de fundamental importância, somado a TCC (terapia cognitivo comportamental) é a forma mais indicada, porque a plasticidade cerebral do adolescente está muito vulnerável e os prejuízos cognitivos mantidos pelo uso de substâncias psicoativas pode ser irrecuperável.
No entanto, todas as formas de psicoterapia individual podem ser úteis, uma vez em que o setting terapêutico proporciona um ambiente singular no qual o paciente pode refletir.
O uso das substâncias psicoativas também está associado a falta de informação sobre os efeitos das drogas por parte dos adolescentes e seus familiares.
Os danos são graves em um cérebro em formação. O usuário é objeto de juízo moral, não adianta confrontá-lo. A ambivalência sempre está presente. A motivação do jovem e o vinculo com o mesmo precisa ser estabelecido para gerar confiabilidade nesta relação. É imprescindível conhecer os efeitos das substâncias psicoativas sobre crianças e os adolescentes, a fim de se fazer intervenções e encaminhamentos adequados.