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Cultura

Bom Dia Entrevista: Cléo De Páris

Atriz ganha prêmio nacional com o espetáculo Desamparos, realizado de maneira on-line. A Cotegipense ainda evidencia formas de os artistas se reinventarem em meio à pandemia

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Cléo De Páris
Por Da redação
Foto Divulgação

 

Quando você decidiu que queria ser atriz?

 

Acredito que não tenha sido uma decisão, mas um processo desencadeado por vários acontecimentos. Eu comecei minha imersão nos palcos aqui em Erechim, dançando balé no Belas Artes. Meu primeiro palco da vida foi o do Centro Cultural 25 de Julho. Em Barão, também havia uma senhora que tinha um grupo de Teatro, a Zelândia. Eu dançava antes das apresentações e começou a me fascinar aquele universo mágico. Até tentei não ser atriz... cursei jornalismo, transitei pelo mundo da música, mas chegou um momento em que o teatro já era parte da minha vida. 

 

Você acredita que a pessoa nasce com vocação para essa profissão, ou pode se aperfeiçoar por meio de cursos e treinamentos?

 

Não gosto de acreditar que somos especiais por sermos artistas. Vejo nossa profissão como outra qualquer, com momentos bons, ruins, tentativas, acertos, erros... a diferença é que trabalhamos com a emoção e isso pode ser um fardo ou uma dádiva. 

Então é preciso trabalhar muito, muito mesmo. Vocação é absolutamente necessário ter porque até mesmo um ator talentoso nato, dificilmente seguirá na carreira artística se não tiver persistência. Nada será suficiente sem vocação.

 

Sobre o Prêmio Arcanjo, como foi para você receber esse reconhecimento?

 

O Prêmio Arcanjo de Cultura é algo fantástico nesse momento em que os artistas estão passando por tantas dificuldades. Miguel Arcanjo Prado, renomado jornalista cultural e criador desse prêmio nos honra e nos dignifica com essa iniciativa. Receber um prêmio nacional nesse momento, por um trabalho feito com tanto afeto e resistência por mim e pelo diretor Fabio Penna nos traz muita alegria e incentivo para seguir produzido arte.

 

Quando saiu de Erechim, enfrentou muitas dificuldades?

 

Enfrentei algumas dificuldades, como qualquer pessoa que se aventura em um novo contexto, seja ele artístico, pessoal ou territorial. Mas com o passar dos anos e com as experiências adquiridas, tive conquistas bem especiais. Iniciei na Cia das Índias em Porto Alegre, sob a regência do mestre Zé Adão Barbosa. Em São Paulo, cursei o CPT (Centro de Pesquisa Teatral), coordenado por Antunes Filho, entrei na Cia Os Satyros, um grupo maravilhoso, fundado pelos incríveis artistas Ivam Cabral e Rodolfo García Vásquez, onde atuei em muitos espetáculos premiados, já me apresentei na Alemanha, em Cuba, na Suécia. Mudar para longe da família, longe dos costumes e da segurança conhecida sempre oferece dificuldades, mas prefiro pensar nelas como desafios que me fortaleceram e impulsionaram meu crescimento. 

 

Qual o meio que artistas como você encontraram para sobreviver em meio a pandemia?

 

Acho que cada um encontrou seu caminho. No meu caso, sigo trabalhando em home office na SP Escola de Teatro, onde tenho um cargo de coordenadora. Além disso, desenvolvi, junto com o ator e diretor Fabio Penna, o espetáculo Desamparos, que teve temporada on-line de 9 meses, sendo um espetáculo diferente a cada semana. A dramaturgia era minha, textos pinçados de um blog que alimentei por muitos anos. Tudo era feito de forma artesanal, com efeitos simples e visualmente muito intensos. Foi, pra nós e pra muita gente que nos acompanhou, um respiro de afeto, uma suspensão da realidade, um aconchego na loucura que se transformou o mundo na pandemia. Acredito no poder transformador e curador da arte. Foi por esse espetáculo que recebemos o Prêmio Arcanjo de Cultura, na categoria Teatro. Atualmente estou desenvolvendo projetos com o ator e diretor Patrick Menegazzo. Escrevemos um texto juntos, para estrear em breve, no formato digital. Ele dirige e nós dois atuamos. Quem quiser ter informações, é só nos seguir nas redes sociais.

 

Como está sendo esse período de afastamento dos palcos?

 

Estar longe dos palcos fisicamente foi um pouco desconfortável no início, uma mudança grande no fazer teatral. Claro que sentimos falta do calor, da respiração do público, do cheiro do teatro..., mas por outro lado, descobrimos uma nova e potente ferramenta de trabalho, que nos possibilita alcançar um público que não tem tanto acesso ao teatro físico, pela questão geográfica ou econômica. Descobrimos que podemos e devemos fazer teatro da maneira que nos for possível e que é preciso resistir. 

 

Você foi rainha de Erechim também? Me conta um pouco sobre isso

 

Eu fui Rainha da Frinape, no ano de 1992. Uma experiência linda. Guardo as mais doces recordações dessa vivência, das pessoas que conheci e do carinho com que fui recebida por Erechim, essa cidade que faz parte da minha vida. 

 

Que conselho daria para jovens que assim como você, nasceram no interior, mas sonham em seguir na carreira do teatro, para serem reconhecidos nacionalmente

 

É difícil dar conselhos dessa natureza porque cada pessoa pode escrever sua história de uma maneira diferente, é muito particular. O que acho fundamental para o ator ou para quem ingressa nas artes do palco é ler muito, ver filmes e espetáculos sempre que tiver oportunidade, consumir cultura, de um modo geral, além de exercitar a criatividade, e se manter atento ao que acontece no seu tempo. Porque podemos ser a voz de uma sociedade, podemos, com a nossa arte, realizar algumas transformações, mudanças de paradigmas e podemos também promover um olhar novo pra antigos padrões. A história do humorista e ator Paulo Gustavo, que, infelizmente, perdemos recentemente, nos mostra isso: A força da arte contra a ignorância e o preconceito. 

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