Você já ouviu falar em Libras? Pois é, essa é segunda língua oficial no Brasil, e a principal maneira das pessoas com deficiência auditiva se comunicar. No entanto, existem muitos desafios a serem vencidos para o surdo conseguir estudar, trabalhar, ir ao hospital, fazer compras no mercado, enfim, viver a própria vida e romper com o silêncio que o separa da sociedade.
Segundo o presidente da Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos (Apada), Olnei Júnior, a questão fundamental e o principal fator a ser trabalhado é a inclusão social. “A surdez é uma deficiência invisível, ao olhar para a pessoa não se sabe se é surda ou não, e por isso, muitas vezes ela não é colocada em primeiro plano”, diz.
Júnior afirma que ao se vencer a limitação da surdez a pessoa com deficiência pode desempenhar qualquer tarefa. “Temos professores de Educação Física, Português, trabalhadores operando máquinas complexas”, comenta.
O presidente da Apada observa que acessibilidade não é somente colocar uma rampa de acesso a escada, mas também trabalhar a comunicação, que é uma forma de acessibilidade e inclusão. “Isso vai evitar a depressão, o isolamento social, que deixa as pessoas vulneráveis. O ponto chave é a inclusão social”, afirma.
Inclusão
Segundo Júnior, a situação do surdo ainda é bastante complicada, em Erechim, por exemplo, as escolas municipais não estão preparadas para acolher os surdos. “Fizemos um acordo com a Secretaria Municipal de Educação, que transformou a Escola Municipal Othelo Rosa em polo do ensino fundamental, mas isso começou neste ano”, observa.
“Então, todo aluno do ensino fundamental, mesmo que de bairro distante, a gente procura encaminhar para lá porque tem uma intérprete, e também é a única escola do município com uma professora auxiliar, que é surda e tem conhecimento de Libras e atua nas aulas”, afirma.
No ensino médio, afirma Júnior, tem duas escolas preparadas em Erechim, uma delas é a Escola Estadual de Ensino Fundamental Santo Agostinho e a Escola Estadual de Ensino Médio Professor João Germano Imlau, que tem intérprete para acompanhar as aulas.
Ele afirma que hoje já tem Universidade Federal Fronteira Sul (UFFS), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul - Campus Erechim, Universidade Regional Integrada, já tem exemplos de surdos que estão conseguindo cursar o ensino superior. “Temos alunos formados em Pedagogia, Letras Libras, Educação Física, Arquitetura e Engenharia Mecânica. Mas, por exemplo, em matérias como Física e Matemática tem palavras que não tem sinais, então, tem que se adaptar, aí tem que ser soletrada com as mãos letra por letra”.
Dificuldades diárias
O representante dos surdos comenta que os desafios da inclusão se estendem para além da educação e se dão nas atividades diárias. Segundo Júnior, a falta de intérpretes em instituições públicas, unidades de saúde e comércio, por exemplo, faz com que o surdo solicite um intérprete para a Apada numa entrevista de trabalho e até para ir ao hospital. “Já aconteceu de ir na delegacia registrar uma ocorrência, em que a sua casa tinha sido furtada e ter que chamar um intérprete. É uma realidade bem complicada”, diz.
E, acrescenta, “na saúde o surdo enfrenta bastante resistência porque não temos hoje em Erechim nenhum médico que consiga fazer este atendimento, aí precisa chamar um intérprete da Apada ou familiar. Tivemos casos de não ser feito atendimento pela impossibilidade da comunicação”.
Emprego
No que diz respeito ao emprego dos surdos, explica Júnior, a lei define que as empresas têm que destinar uma cota de 5% das vagas para pessoas com deficiência (PCD). No entanto, não dá para “largar” a pessoa com surdez no trabalho, isso não é recomendado, porque ela vai ficar um período e vai embora ou acaba sendo dispensada.
Apesar das dificuldades, Erechim tem pessoas surdas trabalhando nas empresas e bons exemplos em diferentes setores. Ele cita como exemplo a Peccin, que mais emprega, tem oito surdos trabalhando, e também a Cercena, Comil, Grupo Wtech e o supermercado Passarela. “Geralmente, o salário do PCD entra num nível inicial, como ajudante, auxiliar, repositor”, diz.
Muito o que fazer
De acordo com Júnior, ainda tem muito o que se fazer para incluir o surdo na comunidade, no mercado de trabalho, para ele viver a sua vida. Tem muitas ações para serem feitas, e isso parte desde o início, desde a educação, ensinando Libras nas escolas, assim como se ensina a língua inglesa.
Apada
Ele explica que a Apada é uma associação filantrópica sem fins lucrativos, que busca se manter de diversas formas. Tem, atualmente, 80 associados, que pagam R$10 por mês para a associação. “A gente atende um público de 250 surdos em Erechim e região, mas somente pode se associar a partir dos 16 anos, por isso que o número de associados é menor que o número de atendidos”, explica.
Além disso, a entidade recebe doações de empresas, pessoas da comunidade e também desenvolve projetos com a prefeitura. “As doações não são suficientes, mas aí a gente faz três pedágios por ano, isso ajuda a entidade”, comenta. As melhorias e manutenção são feitas com recursos arrecadados com as ações ao longo do ano.
Alternativa
Uma alternativa que a entidade encontrou para ter outra fonte de recursos é oferecer curso de Libras para ouvintes. “Essa é uma maneira de diminuir a exclusão social que o surdo enfrenta na educação e no mercado de trabalho e ser uma fonte de arrecadação”, diz.