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Cultura

Anne Frank, 90 anos depois

Anne Frank
Por Salus Loch
Foto Divulgação

Quantos de vocês, caros leitores do Bom Dia, leram ou ouviram comentários a respeito de ‘O diário de Anne Frank’?

Acredito que a maioria, ao menos, já tenha ouvido falar da obra – um dos relatos mais famosos da barbárie nazista durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Sua autora é justamente Anne Frank – uma menina alemã de origem judaica, nascida em Frankfurt, em 12 de junho de 1929, há exatos 90 anos.

A pequena Anne escreveu boa parte do diário (que recebeu como presente pelo seu 13º aniversário) durante os 25 meses que passou escondida dos nazistas com sua família em Amsterdam, na Holanda – cidade onde os Frank passaram a morar, em 1934.

As anotações da adolescente, antes de serem transformadas em livro (que já vendeu mais de 35 milhões de exemplares com tradução para 60 países), no entanto, seguiram um caminho tortuoso, pois, tão logo os Frank acabaram descobertos (via denúncia) em seu ‘Anexo Secreto’, todos os membros da família foram enviados para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na ocupada Polônia.

 

O motivo? Eles eram judeus.

Ao final da Guerra, apenas o pai da garota, Otto, sobreviveu, vindo a publicar o livro da filha postumamente. Anne e a irmã, Margot, morreram de tifo, em fevereiro de 1945, no campo de Bergen-Belsen, na Alemanha.

A talentosa e promissora escritora não chegou a completar 16 anos de vida.

 

Mensagens de esperança

O jornal Bom Dia solicitou à mestranda em Literatura de Língua Portuguesa na PUC de Minas Gerais, Ana Karla Domingos – leitora voraz e aficionada pelo tema –, uma opinião sobre a importância da obra ‘O Diário de Anne Frank’ no entendimento do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial. Confira:

“O diário de Anne Frank teve grande impacto ao ser lançado não somente pelos relatos da clausura e medo que ela enfrentou ao se esconder com a família da perseguição nazista, mas também pelas mensagens de esperança de viver em um mundo em que as pessoas pudessem ser quem são e que não houvessem perseguições devido as diferenças entre elas.

Anne apesar da dor e sofrimento, acreditava no ser humano. Sua escrita carrega a esperança em uma sociedade em que coexistir é possível. Na atualidade em que o fascismo ressurge de forma amedrontadora, a obra é leitura obrigatória para todos ao redor do mundo. Anne pretendia publicar seu relato quando a guerra acabasse. Mas, infelizmente, não conseguiu sobreviver aos campos quando sua família foi traída e entregue aos nazistas. Seu diário, naqueles dias que antecedem seu perecimento, era mais que apenas um caderno de anotações da rotina. Seu diário era seu melhor amigo e um porto seguro dentro daquele mar de tristeza e morte que foi a shoá.

Com a publicação, tivemos acesso não somente a intimidade de Anne e sua família, mas também as atrocidades cometidas pelos perpetradores do ódio racial que dominaram a Europa entre 1939 a 1945.
Quando os campos foram liberados, a tecnologia era bem menos desenvolvida comparada com o que temos hoje, o que impossibilitava a transmissão mundial do que os soldados encontraram quando entraram em Auschwitz-Brikenau, Ravensbrück, Treblinka e outros campos de concentração, ou extermínio.

Os pouquíssimos sobreviventes que se atreveram a falar sobre o pesadelo que enfrentaram nos lager foram em sua maioria desacreditados. Muitos deles sequer acreditavam em suas próprias lembranças, fazendo nascer um período de silencio que imperou ate a década de 60, quebrado então com o julgamento de Eichmann em Israel.

Uma obra como ‘O Diário de Anne Frank’ não pode ser encarada somente como um livro de memórias ou diário de um tempo nefasto. Ele é também um documento histórico que deu voz a todos os que submergiram com a guerra. Deu visibilidade às vítimas que sequer tiveram seus corpos devidamente sepultados. Proporcionou a veracidade histórica que os revisionistas tentaram derrubar ao confrontar o testemunho dos sobreviventes. Ele carrega mensagens de esperança em um mundo melhor e se tornou dessa forma, atemporal e indispensável à formação ética humana’.

 

Novo capítulo

O diário, no entanto, não foi o único texto de autoria de Anne Frank.
Cartas inéditas escritas para a avó antes mesmo de a guerra estourar, contos e o esboço de um romance que estavam acessíveis somente a pesquisadores chegarão ao público em geral com a publicação de ‘Obra reunida’. A edição brasileira será lançada em novembro, pela editora Record.

O novo livro também trará as três versões existentes de ‘O diário de Anne Frank’. A primeira delas é a original, escrita dia a dia, no calor dos acontecimentos, com as divagações e observações espirituosas da autora.

Na segunda, a própria Anne revisou o texto depois de um nítido amadurecimento e, na terceira, a versão que acabou se popularizando trazem alterações feitas pelo pai, Otto, na qual foram suprimidos comentários sobre a descoberta do próprio corpo e críticas aos outros moradores do esconderijo.

‘Obra reunida’ traz pela primeira vez uma série de cartas não publicadas que Anne escreveu para sua vó entre 1936 e 1941, antes de receber seu diário. O livro inclui ainda ilustrações, fotos de família e documentos.

 

Você sabia?

# Originalmente, o ‘Diário de Anne Frank’, lançado na Holanda, em 1947, se chamava ‘Het Achterhuis (‘O Anexo Secreto’).

# Depois de fazer sucesso na Europa, a obra chegou aos EUA – onde foi apresentada por Eleanor Roosevelt, viúva do ex-presidente norte-americano e 1933 a 1945, Franklin Dellano Roosevelt.

# Durante a vida no esconderijo, em Amsterdam, o diário tornou-se uma espécie de ‘amigo(a) e confidente’ de Anne, que ela batizou de Kitty.

# A primeira versão do livro para o cinema saiu em 1959, com direção de George Stevens – rendendo o Oscar de atriz coadjuvante a Shelley Winters.

# O ‘Diário de Anne Frank’ tornou-se instrumento de destaque para denunciar, a partir da arte, as atrocidades cometidas pelos nazistas na Segunda Guerra.

# Hoje, o local que serviu de abrigo para a família Frank, em Amsterdam, é um museu aberto à visitação.

# Em 2016, pelo simples fato de pertencer a Anne Frank, um livro de conto de fadas dos Irmãos Grimm, foi vendido num leilão em Nova York por U$S 62,5 mil dólares.

# Em 5 de abril de 1944, Anne Frank escreveu em seu diário: ‘Não quero viver em vão como a maioria das pessoas. Quero ser útil e trazer alegria às pessoas que vivem à minha volta e não me conhecem.

Quero continuar viva, mesmo depois da morte’. Definitivamente, ela conseguiu.

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