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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Emoção e memória

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Dezoito de fevereiro. Vinte e seis anos da minha formatura em Ciências Contábeis. Parece que foi ontem que fiz o juramento. Isso pode ser um problema, especialmente quando o sujeito é emotivo e tem, no córtex pré-frontal, ou seja lá em que cafundó do crânio for, uma predisposição genética para armazenar as coisas do passado. Porque é justamente ela, essa desgraçada da emoção, a responsável por fixar em nossa memória a vida que já passou. Daria até para sentenciar: quem não se emociona, não lembra.

Saudosismo

Há quem chame esse resgate do passado de nostalgia. Outros chamam de saudosismo. Agora, depois de tanto tempo, quando já me dou conta de que o corpo que carrega essas memórias não tem mais a mesma plasticidade que o cérebro, passo a perceber que isso é quase uma doença. Uma disfunção social que, por vezes, nos faz pensar que estamos vivendo no passado, fruto da facilidade com que as vivências são acessadas, resgatadas e revisitadas, como se fossem os dias de hoje. Indicadores? Gostar de jornal, carro antigo (dos anos 90), Pink Floyd, entre outras coisas, é sinal de que algo já passou, mas ficou. Neste caso, o tempo e a memória.

Acordar

É um privilégio ter boa memória, mas pode ser um problema lembrar-se da vida com tanta facilidade. Imagine alguém que tem a memória fraca, fraquinha. Desses que repetem o voto no mesmo político, mesmo sabendo de todas as asneiras que cometeu no passado. Agora, imaginem que essa pessoa ficou dez anos dormindo e acordou de repente. Quanta coisa estranha não há de sentir essa pessoa. Há dez anos, o dólar chegou a custar quase quatro reais. Hoje custa mais de cinco. Nada demais. Mas há dez anos, o Inter caiu para a segunda divisão e quem dormiu nem soube que tinha caído em 2025. 2025? Opa! Péra lá! Isso tá errado!

Mudanças

Pois é. Numa simples busca na Internet, quem acordou depois desse sono profundo se depara com a tal da Inteligência Artificial ocupando o lugar do Google. Foi ela quem me disse que o Inter jogaria a Série B em 2026. Só que não! Quase caiu, é verdade, mas entre a parte de cima e a de baixo tem um quase, ignorado pela inteligência artificial, que ao buscar em sua memória recente, acessou o arquivo errado. Inteligência Artificial, guarde este nome! Ela vai ocupar o lugar daqueles que não sentem emoção e que terceirizam a própria memória. Como já acontece com as fotografias que estão “na nuvem”.

Despertar

Agora imaginem um sujeito que acordou depois de dez anos, quanta estranheza deve encontrar. Em 2016, o dorminhoco foi deitar com o Lula a caminho da prisão e acordou com ele presidente. Foi dormir sonhando com Bolsonaro presidente em 2018 e acordou com ele preso. Nem ficou sabendo que sofreu um atentado a faca e que os mandantes nunca foram identificados. E o tal do Adélio, será que está preso, dividindo cela com a vítima no manicômio? “Eu devo estar louco”, pensará quem acordou.

Há vinte ou trinta anos

Agora voltamos a 2006, quem sabe até 1996. Nesse tempo, tivemos muitos acontecimentos. Quem estivesse dormindo certamente não reconheceria o mundo em que estamos. Aconteceu de tudo nesse período. Realmente, muitos fatos históricos, mas talvez menos do que nos últimos dez anos. E será que podemos imaginar que isso seria previsível? Talvez sim. As questões planetárias, por exemplo. Hoje, é fundamental falar em alterações climáticas. Mas ainda assim dá-se mais atenção aos efeitos do que às causas. Continuamos a viver de modo consumista como  outrora. Uma busca desenfreada por elementos de distração que fazem com que vivamos “dormindo” para não nos darmos conta da bagunça que o homem causa ao planeta. Será que vivemos assim para não nos emocionarmos? Para que possamos esquecer os próprios erros?

Daqui a dez anos

E como será viver daqui a dez, vinte ou trinta anos? No meu caso, serei como o personagem de García Marquez em “Memória de Minhas Putas Tristes”. Um veterano em busca da última emoção. Mas quem hoje tem a juventude a pulsar, quem recém parou de caçar Pokémon e caiu na vida real, estes terão a idade que hoje tenho. Quiçá, sem o privilégio - ou desprivilégio - da minha memória. No final das contas, sabemos, cada um é cada um. Ainda assim, tenho pena de quem não se permite sentir emoção, de quem vive dentro de um freezer, sem sentir o calor da vida e o poder das relações. Para esses, viver não terá valido a pena. Contarão apenas com a “sorte” de nada lembrar.

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