Dois cães
Há quem prefira os gatos aos cães. Esta é uma discussão difícil, ao menos para mim, que prefiro os cães. Nada contra os felinos, mas ainda há um quê de soberba na minha alma que certamente os gatos seriam capazes de perceber. E uma vez que percebam, já me vem à cabeça o medo da rejeição. Ser rejeitado por alguém até vai, mas por um gato de estimação, eu realmente não estaria preparado.
Os cães
Os cães sempre tiveram um papel muito importante em minha vida. Desde criança que convivo com eles. De certo modo, relacionam-se na minha existência mais ou menos como as copas do mundo. Fracionam, dividem em partes, pedaços de uma vida, sempre a facilitar os resgates da história. É como um truque ou um antídoto para quando a memória, por um acaso, se desconectar do meu presente. E que isso nunca aconteça!
Esperança
Diferente dos brasileiros, os portugueses não usam o termo “expectativa de vida” quando estatisticamente se referem a quantidade de anos que uma pessoa pode viver. Por aqui, no berço de nossas raízes, utiliza-se o termo “esperança de vida”. Parece mais interessante. A “esperança” nos faz crer que faremos parte da própria caminhada. É algo que indica que poderemos ser protagonistas. Por outro lado, o termo “expectativa” aduz algo a que vamos assistir, não mais como atores, mas como expectadores. Quem estará certo, não sabemos. Talvez um pouco dos dois seria o ideal. Equilíbrio.
Expectativa
Há quem na velhice não mais queira ter animais de estimação, o que considero um erro. Quando desistem de cuidar, passam a precisar de cuidados e por isso considero uma decisão perigosa. Bem cuidado, um cão de pequeno porte pode viver cerca de quinze anos. Ao considerarmos uma “esperança” de vida de oitenta anos, tirando alguns intervalos, podemos ter cerca de cinco cães a marcar nossa história. Parece pouco, mas essa quantidade diminui à medida que envelhecemos. Talvez por isso tenha resistido tanto em ter novamente uma companhia. Muito por conta de ter deixado meus cães no Brasil, o que é sempre traumático. Mas acabei me rendendo e a Nera chegou à nossa casa em agosto.
Minha esperança
Hoje pela manhã, fria como no inverno gaúcho, com direito à geada, caminhava com a Nera enquanto escutava um podcast que falava sobre o luto (Amar é, com Julio Machado Vaz). No contexto, o psiquiatra explicava as variações deste sentimento, universal em toda a humanidade. Foi quando falou da perda dos animais, que há alguns anos era motivo de chacota. Na infância, foi o maior luto que vivi. Acabei então por pensar que, do alto dos meus cinquenta e um anos, devo velar minha cachorrinha por volta dos sessenta e seis anos e, depois disso, terei chance de cuidar de apenas mais um ou dois cães. Isso se Deus permitir, pois até lá terei completado oito décadas. Depois disso, tudo é lucro, ou puro prejuízo. Não há como saber.
Desafios da idade
Embora a tal da terceira idade ainda esteja um pouco distante de mim, nunca esteve tão próxima. Somados, meus pais têm cento e sessenta anos, de forma que cada dia a mais de vida deveria ser vivido com muita gratidão e alegria, mas nem sempre é assim. Mas afinal, onde é que quero chegar com essa conversa toda? Por mais que fuja, acabo sempre nela, essa tal de finitude. Por outro lado, dar-se conta de que o tempo passa, que os músculos enfraquecem, que a memória falha e que os cães são sempre adoráveis, faz com que me sinta vivo, entusiasmado com uma manhã fria, com aquele vapor que sai das narinas enquanto a ponta dos dedos e do nariz endurece de frio. Como se pudéssemos congelar outras coisas para a eternidade. Coisas que só mesmo as manhãs frias, a caminhada emparceirada com o cão e o tempo que tiramos “para dentro” é capaz de produzir. Talvez, o verdadeiro sentido de gratidão.