A invenção da morte
Hoje vamos começar com algo que, de certa forma, dá um nó em nosso raciocínio. Que tal essa frase: “a única certeza que temos na vida é também a única que é incerta”. Está bem, sem mistérios, afinal o tema já está no título: a morte. Ela sim, é a única certeza que temos na vida e, de tão certa que é, é incerta sobre quando vai acontecer. Olhando bem, quantos acentos nesse pequeno parágrafo, não?
Certeza
Desde a tenra idade convivemos com esse fenômeno da morte. Na esmagadora maioria das pessoas – privilegiadas – o primeiro encontro acontece quando os avós partem para o infinito, após a aparente finitude. Mas há quem tenha perdas mais incisivas. A mãe, um filho, o companheiro, o pai ou os irmãos. Aqui não importa o gênero e o parentesco. Às crianças é como se apenas aos avós fosse permitido morrer. Como dizia Aristóteles, achamos feio aquilo que foge da “ordem”. Não que a perda dos avós não seja sofrida, mas pela “ordem” (ela aqui outra vez) natural da vida, até nisso os avós servem de exemplo. São eles a nos provar, quando crianças (grandes, às vezes), que a vida encarnada uma hora chega ao fim.
Incerteza
Basta que a gente tenha um primeiro contato com a finitude do corpo para que surjam milhares de interpretações acerca deste inexorável fenômeno. Nem mesmo diante de terríveis doenças é possível dizer quando será a hora derradeira, por mais que as estatísticas e a curiosidade assumam esse mórbido papel. A incerteza sobre quando vamos “morrer” fisicamente é um dos grandes baratos da vida. Talvez por esta razão, fantasiamos, imaginamos, projetamos e somos influenciados por todos a criar algo que supra essa sensação de incerteza. A vida é uma constante busca por respostas. Se pudéssemos aproveitar as perguntas, talvez fôssemos mais sábios ou felizes, não?
A invenção
É diante dessa dicotomia entre a certeza da existência e a incerteza da ocorrência que acabamos por “inventar a morte”. Não ela propriamente, mas o seu conceito. É mesmo assim. Cada um vê a finitude da vida de uma maneira. Em muito, somos influenciados pelo meio social. Há o caráter religioso, as questões de céu e inferno, os confrontos entre céticos e espiritualistas, além de uma infinidade de interpretações sobre o mesmo e exclusivo tema. Por tudo isso é que caminhamos nesta senda para inventar a morte. E dessa invenção, infelizmente, há muitos que se deixam levar pela maioria e acabam por formatar sua ideia a partir do que os outros disseram e das suas próprias vivências. Mas será que isso é realmente saudável?
A boa morte
Sou daqueles que não vê a morte como uma coisa ruim. Se a vida material tem tanta desgraça ao redor, imagino que a vida espiritual (aquela que continua depois que o corpo falece) seja realmente redentora, desde que sejamos leves (menos densos). Embora (depois da morte do corpo) não sejamos mais “matéria” (apenas consciência), acredito que uma alma “leve” sobe enquanto a densa desce. Como na Divina Comédia de Dante Alighieri. Por isso afirmo: a morte é um conceito que se inventa, mas se o leitor é um daqueles que assume o que os outros pensam, sem questionar, sem racionalizar, então é capaz de ver a morte como algo negativo, triste e assombroso. E que tal inventar o seu próprio conceito? Não será este o caminho para a vida eterna?