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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

Dor de dente

Por Marcos Vinicius Simon Leite

“O homem habitualmente tem em conta somente o restolho do transitório e ignora os celeiros cheios do passado, onde guardou, de uma vez para sempre, todos os seus atos, as suas alegrias e também os seus sofrimentos. Nada pode ser desfeito e nada pode ser ignorado como se não tivesse existido. Diria mesmo que ter sido é a forma mais segura do ser” (Viktor Frankl em “O homem em busca de um sentido”).

Fotografias

Nessas idas e vindas da vida, meus dois filhos mais novos descobriram um álbum de fotografias que trouxemos do Brasil. E como a boa e saudável competição entre irmãos, as fotos ensejaram uma pergunta comum: onde está o meu álbum? Pergunta comum, que os meninos de catorze e seis anos fizeram ao verem apenas os registros impressos da irmã mais velha. Como responder a esta pergunta numa hora dessas? A resposta é simples. Não há! Não tem álbum! Mas tem fotos! Estão todas guardadas, catalogadas, mas não no papel e sim em um dispositivo mais frio do que as antigas fitas cassete que gravávamos músicas direto da rádio. Sem dúvida, uma passagem inusitada. A geração acostumada com o mundo digital reivindicando direitos iguais, de ter suas fotos impressas, dando indícios de que o meio físico impressiona mais que o digital quando se trata de história.

Transição

Nossa filha mais velha, hoje com dezenove anos, foi quem motivou que comprássemos a primeira máquina fotográfica digital. Até então (2006) nossos registros eram à moda antiga, com filmes de rolos. Mudou o dispositivo, do analógico para o digital, mas preservamos a ideia de que era preciso imprimir, montar os álbuns, como se escrevêssemos um livro ilustrado. Talvez os filhos vindouros tenham até mais registros fotográficos, mas são poucas as fotos que foram impressas e nada, nenhum pequeno álbum para contar a história, como nos nem tão velhos tempos. Mal saberíamos que a transição para o digital nos levaria a abandonar a confecção dos álbuns de fotografia. Em nome da quantidade, com mais e mais pixels, perdemos a qualidade.

Passado

De volta ao texto de Viktor Frankl, nem tudo o que registramos em meio digital tem a mesma força que no mundo do impresso. Até porque seria impossível “revelar” todas as fotografias que tiramos atualmente. Mas a história pede, não se perde, e os registros em papel, os tais álbuns de fotografia, revelam-se como excelentes instrumentos de acesso ao passado, como se pudéssemos tocá-lo, como se os aromas das experiências vividas pudessem inundar nossos pensamentos atuais, com um gostinho de quero mais. Há muito do nosso ser dentro daquilo que fomos, do que vivemos e acessar essas memórias nos faz um bem danado. Inunda o coração com a gratidão.

E o dente?

Uma dor de dente também deixa marcas em nossa passagem. Quem já teve sabe. Mas a dor de dente é passageira, volátil. Marcante enquanto viva, inexpressiva quando cessa. Nesse paradoxo entre o físico e o digital, diria que o mundo moderno acaba por ser como uma dor de dente. Não no sentido negativo, mas na capacidade que temos de substituir nossas memórias com outras tantas que o meio digital nos inunda a cada segundo. Mas lá está. Quando se registra no papel parece que tem mais valor, parece que tem mais importância, porque até da dor de dente a gente esquece, só não podemos esquecer quem fomos, sob o risco de não lembrar quem somos.

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