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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

De onde vem o desgosto?

Por Marcos Vinicius Simon Leite

No Brasil costuma-se dizer que agosto é o mês do desgosto, o mês do cachorro louco. Por certo, como escrevi na coluna da semana passada, quem cravou esta sentença “a gosto” era alguém que não gostava de bicho, de álcool e de música. Se Nietsche já dizia, que sem a música a vida seria um erro, o mesmo eu posso dizer dos cães. Da bebida, lá vai, não dependemos dela para viver bem, podemos ficar só com os indispensáveis: os animais e a música.

Moacyr Scliar

Há quem se aproveite da alcunha deste mês. O saudoso Moacyr Scliar, imortal da ABL até batizou um de seus romances inspirado nessa tradição popular. “Mês de Cães Danados”, o livro, conta a história de um jovem desgarrado de sua família abastada. Aliás, as obras deste grande escritor sempre permearam o quotidiano e as questões familiares. Judeu, filho de imigrantes russos, viveu em Porto Alegre mas também foi médico e professor no exterior. Sua carreira literária, composta por 74 obras, o levou a ser considerado pela ABL como um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea. Sua obra é marcada pela realidade social da classe média urbana no Brasil, pela medicina e pelo judaísmo.

E os cães?

Eu já quase me perdia do tema proposto quando comecei a lembrar do Scliar. Li o Mês de Cães Danados em agosto de 1989 e reli em 2019, trinta anos depois. Cada dia um capítulo, como se estivesse a percorrer, ao mesmo tempo, a minha vida e a narrativa do romance. Mas hoje o que eu gostaria é de poder escrever para quem aprecia os cães. Não os de hoje em dia, que são tratados como filhos e que muitas vezes substituem os valores da maternidade e da paternidade. Me refiro aos cães de antigamente. Basta parar e lembrar. Você, leitor, lembra de todos os cães que passaram em sua vida? Nunca reparaste que eles gravaram, na memória, importantes fases da tua jornada?

Os cães e as histórias familiares

Além dessas hipóteses que levantei acima, há uma outra, bem mais importante e que parece fazer todo o sentido. Assim como as obras do Scliar falam sobre as famílias de classe média, de gente que tem de trabalhar, que tem pouco tempo para os filhos, nossas histórias com os cães, de certo modo, também registram as fases pelas quais nossas famílias também passaram. É possível reencontrar nossos pais, perceber como eram e como agiam. Há um emaranhado de emoções, de infância, de traumas e de experiências que, mesmo sem nos darmos conta, os cães nos ajudaram a superar, a esquecer, a transmutar. Situações gravadas em nosso inconsciente que, de tempos em tempos, manifestam-se de forma isolada, em sonhos ou mesmo na vida desperta. Talvez os psicanalistas até possam adotar essa abordagem canina para descobrir como foi a vida de uma pessoa desde a infância.

Meu primeiro cão

Só de lembrar do primeiro cão que tivemos em casa já me vem uma avalanche de memórias e apontamentos que certamente serviriam para tratar meus ranços, defeitos e dissabores. Até porque eu tinha pouca idade, quatro anos, talvez. O Pirata, da raça fox paulistinha, em verdade, era o cachorro do meu único irmão (de sangue), quatro anos mais velho. Tinha um olho coberto com pelagem preta e outro branca (razão do seu nome). Quando meu irmão permitia, eu até brincava um pouco com ele. Lembrando bem, não foi minha a iniciativa de ter um animal de estimação, mas certamente a vinda daquele cão em nossa casa acabou despertando em mim um sentimento que muitos donos de cães têm ou tiveram. Sabe aquele vazio que dá de vez em quando? Quando a gente se sente invisível? Pois é. Para os cães, isso nunca acontece, eles sempre nos veem, no fundo da alma.

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