A teia da amizade
A natureza é sábia inspiradora quando pensamos em metáforas para descrever o nosso quotidiano. Vejamos o exemplo da aranha. Animal por vezes peçonhento, caça suas presas com requintes estratégicos. O veneno, além de paralisar as vítimas, também favorece a degradação dos tecidos, facilitando a digestão da aranha. Olhando assim, fica difícil imaginar que um animalzinho desses possa inspirar um mosquito escritor.
A construção
Agora que já falei da aranha, vamos esquecê-la, ou melhor, vamos imaginar o lado bom dessa história. Se olharmos bem, a construção de uma teia segue a mesma lógica do desenvolvimento de uma amizade, especialmente quando o tecido envolve mais pessoas. Tudo começa num ponto. Aquele encontro mágico, quando nos sentimos bem ao conhecer alguém. Há uma “liga”, que a partir de então, nos deixa “conectado” com a pessoa, como se fosse uma linha da teia. Depois, outras pessoas vão se aproximando. Formam-se grupos, com mais pontos de conexão. Com o tempo, já é possível observar a teia ganhando forma.
Distâncias
Outra característica das teias é a dualidade entre a fragilidade e a resistência. Basta que uma grande vassoura rasgue a teia, por exemplo, e lá se vai todo o trabalho da aranha. Mas ela é resiliente, como as grandes amizades. É como se tivesse uma energia extra, de recomeço, capaz de se refazer novamente. Tal e qual as amizades. Elas se regeneram sempre que algo externo rompe os laços de união. Basta ver. Muitas vezes, ficamos tempo sem ver ou conversar com alguém. Desaparecemos. Mas basta um encontro para recuperar toda aquela “memória da teia”. Os laços, que pareciam invisíveis, tornam-se reconectados.
Afastamento
Desde o nascimento das amizades, os amigos vão seguindo suas vidas. Cada um segue um caminho e, aos poucos, as linhas que pareciam paralelas, que partiram do mesmo ponto, se afastam. Mas como a amizade é uma teia, de tempos em tempos é preciso reencontrar os amigos, criar aquela linha perpendicular e que justamente dá sustentação à teia. É uma parada no meio do caminho. Quando todas as linhas paralelas se ligam, o formato geométrico demonstra a beleza, como se fosse um círculo, por onde a energia do amor fraterno circula e aproxima, mesmo quem anda distante do quotidiano dos amigos.
Rompimento
Ao certo, não se sabe muito bem quando uma dessas linhas vai se romper. Mesmo assim, sabemos que quando acontece, a teia fica abalada. Imediatamente, ocorre uma reorganização. É como se a energia que fornece resistência ao tecido causasse um desconforto nas demais linhas. Os amigos se agitam, se preocupam e logo dão um jeito de se encontrarem para refazerem os laços. Mesmo que uma linha venha a faltar, o que é da vida, as demais sempre procuram repartir a sustentação da teia. Este, é o grande poder das amizades.
Novas linhas
A vida é sempre um manacial de surpresas. A natureza nem sempre obedece a uma sucessão de enventos lógicos. Não podemos prever e, portanto, há sempre uma ameaça em potencial. Por esta razão, quanto mais diálogo tivermos, quanto mais aproximações pudermos ter, mais linhas perpendiculares serão tecidas. Esses pontos, quanto mais curtos forem entre si nesta linha da vida, mais segurança produzirão. Eis porquê temos de observar a magia da natureza. Há muita tristeza quando uma linha se rompe. Porém, há sempre a memória da amizade a manter viva a trajetória. Este é o poder da teia, razão que faz prosperar os grandes círculos de fraternidade.