25 de abril
Recentemente fui mediador de um debate sobre a obra de Marcelo Rubens Paiva – Ainda estou aqui. Na oportunidade, alguns portugueses interessados nos assuntos da ditadura brasileira, me perguntaram por que razões o Brasil está tão mal, ainda que viva uma democracia. A resposta que dei, foi que o Brasil não saiu de uma ditadura através de uma revolução, tal como ocorreu em Portugal na madrugada do dia 25 de abril de 1974.
Entendendo o contexto
Portugal se tornou república apenas em 1910, duas décadas depois que o Brasil (1889). Engana-se quem pensa que o processo de conversão da monarquia para o novo regime se deu de forma pacífica. Nada disso. Foi na base do golpe, muito parecido com o que levou o Brasil a depor Dom Pedro II. Porém, no começo do século passado, a Europa era palco de muitas revoluções e guerras, com destaque para a tomada de poder na antiga União Soviética e a reorganização de países como a Alemanha, Tchecoslováquia, Polônia, Holanda e Bélgica. Todo este contexto favoreceu o surgimento de regimes autoritários, como o fascismo na Itália, da Guerra Civil Espanhola (Franquismo) e o nazismo na Alemanha e Portugal não foi diferente.
Salazarismo
O chamado Estado Novo, nome dado ao período de ditadura em Portugal (também conhecida por Salazarismo), durou 41 anos (1933-1974). Por quase quatro décadas o país ficou nas mãos de António de Oliveira Salazar. Quando adoeceu, passou o comando para Marcelo Caetano, em 1968. Nesta oportunidade, os portugueses imaginaram que o regime fascista transitaria para a democracia, o que não veio a acontecer. Este período foi conhecido como Primavera Marcelista, em alusão ao desabrochar do bom tempo, que ficou só na esperança. Por fim, com os elevados custos das guerras coloniais que mantinham alguns países africanos sob o controle português, o Movimento das Forças Armadas resolveu se opor ao regime e destituiu Marcelo Caetano, dando abertura para a democracia.
Revolução dos Cravos
O movimento militar que apoiou o golpe de Estado que colocou fim na ditadura não precisou de muito esforço para ganhar a simpatia do povo português e das tropas lideradas por Salgueiro Maia e Otelo Saraiva de Carvalho, os “Capitães de Abril”. Para coordenar a derrubada do governo, foram estipuladas senhas, que seriam transmitidas pela rádio. Cada música representou um momento de avanço. As canções de Paulo de Carvalho (E depois do adeus) e Zeca Afonso (Grândola, Vila Morena) marcaram não só o momento crucial do golpe como também a História de todos os portugueses. Com grande êxito e adesão, a marcha acabou pacífica, com poucos conflitos de resistência e poucas mortes.
E os cravos?
O nome - Revolução dos Cravos - se deu por inciativa de uma atendente de lanchonete, Celeste Caeiro (falecida recentemente). Ao chegar ao trabalho, notou que o comércio teria de fechar por conta da revolução. No entanto, o estabelecimento estava de aniversário e foram comprados cravos para presentear os clientes. Para não desperdiçar as flores, Celeste decidiu ditribuir aos soldados. A história começou quando um deles pediu um cigarro à Celeste, mas acabou recebendo um cravo. Foi então que teve a ideia de colocar no cano da espingarda, levando os demais a fazer o mesmo. Um gesto que tornou aquele momento inesquecível, em que o cravo passou a simbolizar a paz e a liberdade. Para não dizer que não falei de flores, como a canção de Geraldo Vandré, famosa nos tempos da ditadura brasileira.
O 25 de Abril
Por esta razão, depois de sofrerem por décadas de opressão, perseguição política, tortura e prisões, o povo português hoje reconhece o 25 de abril como sendo uma das datas máximas da democracia. Feriado nacional, é cultuado com grande entusiasmo pelos portugueses. Desde então, a cada ano, muitas comemorações são feitas. Este ano, completam-se 51 anos. Mesmo assim, Portugal ainda teme a perda das “liberdades de abril” com os avanços de partidos alinhados com a chamada extrema direita. Por essas razões, o 25 de abril é conhecido como o Dia da Liberdade.