Endometriose afeta 10% da população feminina brasileira
Mais frequente em mulheres de 25 a 35 anos, conforme estudo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a endometriose afeta aproximadamente 10% das mulheres brasileiras. A médica ginecologista, Dra. Andreia Jacobo, classifica a endometriose como uma doença inflamatória crônica. Segundo a profissional, o útero é revestido internamente por uma camada chamada endométrio, que responde aos hormônios que são produzidos pelos ovários e se prolifera à espera de um embrião, quando não ocorre a gravidez, o endométrio descama, que é a menstruação. Dessa forma, a endometriose caracteriza-se pela presença de células de endométrio fora do útero, principalmente na pelve, podendo acontecer com menor frequência em regiões extra pélvicas. "Os principais sítios de acometimento da endometriose são: ovários, peritônio pélvico, ligamentos útero sacros (LUS), intestino e bexiga. Os principais sintomas da doença são as cólicas menstruais incapacitantes e a dor durante as relações sexuais", pontua.
A médica explica que a endometriose ocorre em mulheres que estão no período reprodutivo da vida, ou seja, enquanto menstruam. "Uma das principais teorias que tenta explicar o surgimento da endometriose é a menstruação retrógrada, onde o produto da menstruação sai pela vagina, mas também pode refluir através das trompas e cair na pelve, levando células de endométrio viáveis, que iniciam o desenvolvimento da doença". Ainda, pontua que alguns fatores relacionados à menstruação parecem estar envolvidos com o desenvolvimento da doença, como a idade precoce da primeira menstruação, menopausa tardia, ciclos menstruais curtos com duração e com volume aumentados, malformações uterinas que possam dificultar o escoamento da menstruação. Além disso, a ginecologista conta que existe um fator imunológico envolvido no desenvolvimento da doença. "Mulheres com endometriose tem uma falha no sistema imune, que permite que as células de endométrio que foram levadas para a pelve, através da menstruação, se implantem e iniciem o desenvolvimento da doença. O histórico de familiares de primeiro grau com endometriose aumenta em até seis vezes a chance de desenvolver a doença".
De modo geral, Andreia classifica a endometriose como peritoneal, ovariana e profunda. "A peritoneal ou superficial é aquela que tem uma profundidade de invasão no peritônio menor que 5 milímetros, não é visualizada em exames de imagem e é a causa de dor e infertilidade. Já a ovariana se caracteriza pela formação de cistos ovarianos de diversos tamanhos com conteúdo denso que se assemelha a chocolate derretido, este tipo, além de causar dor, leva a diminuição da quantidade de óvulos e contribui para a infertilidade. Enquanto isso, a profunda é a que acomete profundamente os órgãos, invadindo os tecidos mais de 5mm, formando nódulos que podem invadir o intestino, bexiga, vagina ou outros órgãos pélvicos", explica.
Sintomas e diagnóstico
A profissional salienta que os principais sintomas são as cólicas menstruais e a dor durante as relações sexuais. "A cólica menstrual progressiva, incapacitante que não passa com o uso de analgésicos e anti-inflamatórios e que tira a mulher das suas atividades habituais e, por vezes, leva a mulher ao pronto socorro. Os primeiros sinais, como as cólicas menstruais, podem aparecer antes dos 15 anos em até 30% dos casos, e antes dos 20 anos em até 60%", destaca. Ainda, outro sintoma importante é a dispareunia, que é a dor durante as relações sexuais. "Um dos locais frequentes de acometimento de endometriose são os LUS (estruturas com íntimo contato com a vagina), onde há a inflamação dessas estruturas. Durante as relações sexuais, com o contato do pênis neste local inflamado, gera dor, da mesma forma que as cólicas, é de caráter progressivo. No início, o casal procura posições que causem menor incômodo, mas com o passar do tempo, as relações se tornam impossíveis devido à dor. A ajuda profissional deve ser buscada sempre que houver algum desses sintomas", evidencia Andreia.
O diagnóstico ocorre a partir de uma consulta com o ginecologista. "O primeiro passo para fazer o diagnóstico é pensar na doença, baseado nas queixas apresentadas pela paciente como cólicas progressivas e incapacitantes, dor durante as relações sexuais, alteração do hábito urinário e intestinal durante o período menstrual, dor para urinar ou para evacuar acompanhados ou não de sangramento no período menstrual, dificuldade para conseguir engravidar", salienta a médica. "Durante o exame físico, se realiza o toque vaginal, onde pode haver a identificação de nódulos ou espessamentos em fundo de saco vaginal, mobilidade reduzida do útero ou massas pélvicas. Baseado na história e no exame físico, se houver a suspeita de endometriose, pode-se fazer exames complementares", complementa.
Os principais exames feitos para o diagnóstico da endometriose são a ultrassonografia transvaginal, para o mapeamento da endometriose, e a ressonância magnética. A ginecologista ressalta que ambos os exames têm alta chance de acerto quando a paciente possui endometriose, desde que realizados por profissionais capacitados e com experiência com a doença. "Vale lembrar que estes exames mostram a endometriose profunda, quando se trata da superficial não se consegue identificar por meio dos exames de imagem, sendo necessário a realização de videolaparoscopia para o diagnóstico. Também é válido destacar que não existe nenhum exame laboratorial capaz de fazer o diagnóstico de endometriose, portanto, não há indicação de exame de sangue para o diagnóstico".
Andreia relata, ainda, que há um atraso de seis a oito anos no diagnóstico da endometriose. "Não existe uma maneira de impedir o surgimento de endometriose nas pacientes predispostas ao seu desenvolvimento, porém, temos como prevenir a progressão da doença para formas mais severas, que levam a prejuízos na fertilidade e qualidade de vida. A prevenção é realizada por meio de acompanhamento médico periódico e rigoroso", pontua.