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Opinião

Antagonismo Feminino

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Marcos Vinicius Simon Leite
Por Marcos Vinicius Simon Leite
Foto Rodrigo Finardi

Esses dias eu recebi no meu celular uma notificação tentadora. Dessas que nos chegam a todo o momento. Não resisti e resolvi abrir a pseudo-reportagem. Falava sobre as pensões pagas às filhas de militares. Dizia a notificação, do Yahoo Finanças: filha de militar: quanto ganham as herdeiras da ditadura.

Três citações

O pequeno artigo possuía três citações. A primeira, que a filha de Ustra ganhava pensão vitalícia de R$ 15 mil. A segunda, que 73 viúvas e filhas de militares atuantes na ditadura são pagas pelo governo e a terceira, de que a União teria gasto, em 2020, 19 bilhões em benefícios. Depois, dizia que “se engana quem pensa que precisa ser político ou artista para receber um salário polpudo”. Concluía dizendo que havia no Brasil outra profissão que rendia pagamentos generosos: ser filha solteira de militar falecido. Por isso, se você não tem discernimento, é melhor nem continuar a leitura.

É preciso ter discernimento

Para um leitor distraído, estamos diante de mais um extremismo. Num mesmo balaio, colocou políticos e artistas e, nos meus cálculos essa conta não fecha. É preciso ter discernimento. Passados quase 60 anos dos chamados “anos de chumbo”, ainda tem gente que busca, sem olhar para o próprio passado, julgar os fatos sem o devido contraditório, sem entender as razões pelas quais esses fatos ocorreram em nossa História. Assim, no meu entender, o artigo buscava, através de um benefício legal, e de moral absolutamente questionável, falar mal dos simpatizantes da lei e da ordem. Logo, num silogismo puro, quem assim o faz é contra a lei e contra a ordem – subversivo.  No dicionário, este termo significa: aquele que contraria as ideias ou opiniões da maioria ou, ponto de vista etimológico, aquele que cria uma sub versão, ou uma versão “inferior” das coisas.

Discussão moral

Isso tudo é para gente ver como, em uma sociedade polarizada, a discussão foge do propósito, do que interessa discutir. Perde o foco. Ora, o que se viveu há 60 anos já era. É passado, é história. Diversos artistas e políticos recebem pensões por conta da tal ditadura. Isso o texto não fala. Portanto, o que o artigo deveria provocar é justamente a discussão moral, mas não, fica remoendo o passado e de forma tendenciosa. Quanto ao mérito, de fato, não faz nenhum sentido pagar pensão às filhas solteiras de militares, assim como não faz sentido pagar indenizações a artistas e políticos. Ser solteira não é deficiência.

Rescaldos do passado

Mas o que chama atenção é saber que, muitas dessas filhas de militares acabaram valendo-se dessa premissa legal para simplesmente não casar. Isso a gente sabe. Vivem uma espécie de relação subversiva. São estáveis, têm filhos, levam a vida normal. Só não se casam e, sem qualquer ética, locupletam-se da pensão, passando a viver na obscuridade da lei. Daí pode? Nem vou perder meu tempo pesquisando se ainda vigora este direito. Espero que não. São rescaldos do passado, do tempo em que a mulher infelizmente tinha outro valor. Sim, uma mulher tinha menos valor que um homem. Foi assim com sua avó e talvez até com sua mãe. Acredite.

O papel da mulher

Sérgio Jockymann, grande jornalista dos anos 80, escreveu a obra Clô Dias e Noites, em 1982. Descreveu o papel da mulher gaúcha na sociedade entre os anos 40 e 80. Quem tiver pressa, como eu, assista ao filme, disponível no Amazon com o nome Dias e Noites. Na história, a protagonista teve um casamento arranjado, sofreu violência, padeceu nas mãos do marido opressor e da justiça paternalista e só foi ajudada em troca de suas atribuições femininas. Mas muito além de ser uma bela mulher, era uma mulher forte, resiliente, que soube enfrentar um mundo machista, o mesmo mundo que criou a pensão para as filhas de militares. A história ainda conta a relação dela com o irmão, subversivo.

Velhos conceitos

E o antagonismo? Este reside no fato de que as mulheres, há tempos, buscam ser respeitadas, equiparadas em seus direitos e admiradas por seus talentos, que vão muito além de seus predicados sexuais. Mas não raro, entre bandeiras e discursos feministas, não se vê ninguém reformando esses velhos conceitos. Talvez por isso, os tais subversivos ainda consigam, a partir de uma premissa verdadeira, produzir falsos silogismos. Tudo em nome da polarização. Tomara que saibamos usufruir de nossos direitos para que nunca faltem.

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