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Blog do Coluna do Leitor

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Conjecturas sobre Arquivos, Memória e Identidades (III)

Por Coluna do Leitor

Por Henrique Antônio Trizoto - Doutorando em História UPF

Coord. AHM Juarez Miguel Illa Font

Encerrando a tríade de conjecturas sobre Arquivos, Memória e Identidades, abordaremos a construção das identidades a partir dos acervos dos Arquivos Históricos partindo do pressuposto que os “documentos são mais que simples indícios, registros ou instrumentos; são possibilidades de várias construções” (OLIVEIRA, 2017, p. 4). Sob este prisma, “os arquivos são evidências das atividades, processos e funções que os geraram, aspectos estes que articulam a memória social, conferindo-lhe movimento, dinamizando-a” (OLIVEIRA, 2017, p. 4).

Para Hartog, “Se os arquivos são a memória da nação, o dever de memória e a exigência (democrática) de transparência implicam que eles estejam em condições de ser facilmente pesquisados e não apenas por investigadores licenciados. Para questionar os arquivos, vem, desde então, ao primeiro plano, um vocabulário que se apoia tanto na crítica tradicional das fontes quanto na linguagem judicial. O arquivo é, com efeito, uma testemunha, uma prova; fala-se de sigilo, de dissimulação e de confissão” (HARTOG, 2011, p. 234).

            Candau afirma que existem três níveis de dimensão individual da memória. A primeira é considerada a memória de nível baixo ou protomemória composta pelo saber e pela experiência mais profunda e mais compartilhada pelos membros de uma sociedade e que se inserem na categoria de memória procedimental (repetitiva ou hábito) de Bérgson, socialmente compartilhada e fruto das primeiras socializações. A segunda, corresponde a memória de alto nível ou memória de lembranças (ou de reconhecimento), que incorpora vivências, saberes, crenças, sentimentos e sensações, podendo contar com extensões artificiais ou suportes de memória. E a terceira, a metamemória, ou seja, tanto a representação que cada indivíduo faz de sua própria memória, quanto aquilo que fala sobre ela, em uma dinâmica de ligação entre o indivíduo e seu passado, como uma memória reivindicada” (CANDAU, 2012, pág. 42).

            A partir desta incursão teórica, percebemos a importância dos Arquivos Históricos para a construção da memória e da identidade para uma comunidade. A análise dos documentos históricos pode caracterizar usos e costumes, apresentar / representar figuras icônicas que marcaram a localidade. Pensar os Arquivos como depósitos de papeis, é, portanto, ignorar a representatividade das informações disponíveis. É esquecer que ele tem um papel político e social perante esta sociedade. A construção de um acervo como vimos, é a correlação de forças entre o que lembrar e o que esquecer.

            A construção de uma narrativa sobre “como tudo começou”, é um exemplo deste embate entre o que lembrar e o que esquecer: perguntas como “quem veio”, “porquê veio” e “o que se deparou”, são questões simples de se fazer e complexas de se responder. A historiografia oficial anterior a Escola dos Annales se centraria na história dos grandes homens, naquilo que estava escrito nos documentos oficiais, ignorando por exemplo as populações autóctones e forasteiros que se estabeleceram num determinado espaço.

            Com o advento das novas correntes historiográficas outros elementos são inseridos no debate principalmente de cunho econômico e social num primeiro momento, mais tarde elementos culturais e das mentalidades engrossam este caldeamento de fontes. Lembrar e esquecer são alçados à outro patamar de discussão e análise.

Neste contexto, os Arquivos Históricos tem seu papel de salvaguarda da memória realçado, todavia, o impacto do que lembrar e do que esquecer é capaz de alterar a própria narrativa constitutiva de uma comunidade, inimigos nem tão inimigos, condutas ilibadas nem tão ilibadas assim... 

Encerro sugerindo a leitura da obra 1984 de George Orwell.

           

Referências

CANDAU, Joël. Memória e identidade. São Paulo: Contexto, 2012.

HARTOG, F. Evidência da história: o que os historiadores veem. SP: Autêntica, 2011.

OLIVEIRA, Lucia Maria Velloso de. Descrição e pesquisa: reflexões em torno dos arquivos pessoais. Rio de Janeiro: Móbile, 2012.

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