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Blog do Salus Loch

Para Marcio Pitliuk, transmitir o Holocausto é um modo de manter a história viva e presente

‘O que me motiva é a felicidade dos sobreviventes em registrar suas histórias. O carinho deles vale qualquer esforço’

Por Salus Loch

Holocausto

 

Ele estuda o Holocausto.

Escreve sobre o Holocausto.

Come pensando no Holocausto.

Dorme confrontando sonhos e pesadelos que tratam do Holocausto.

Esta quase obsessão a respeito do tema fez o cineasta, escritor, palestrante e publicitário paulista Marcio Pitliuk se tornar um dos mais respeitados especialistas do Brasil quando se trata de ensinar, contar e construir a memória dos sobreviventes e também daqueles 6 milhões de judeus mortos pela Alemanha Nazista e seus colaboradores entre 1933 e 1945, no que se convencionou chamar de Shoá, em hebraico, e Holocausto, para o resto do mundo.

Com 18 livros publicados - sendo ‘Sobreviventes II’, em parceria com o fotógrafo Luiz Rampazzo, o mais recente deles lançado no último domingo, 9, com a presença do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - Pitliuk também já realizou três longas e três curtas metragens, apresentou cerca de 200 palestras sobre o Holocausto e a II Guerra Mundial, além de ser curador do Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto, de São Paulo, e representante no Brasil do Yad Vashem, maior museu da Shoá no mundo, sediado em Jerusalém.

Na noite de segunda-feira, 10, por meio de entrevista via chamada de vídeo no WhatsApp, Marcio Pitliuk, entre um salgadinho e outro, concedeu, de sua ampla residência em Itu (onde tudo é grande), a entrevista que segue, falando, claro, sobre Holocausto - o que lhe motiva a seguir trabalhando no tema; quais suas apreensões em relação ao que está por vir; o que podemos/devemos fazer para evitar que a barbárie se repita; além de tratar de projetos para dar voz e cara às histórias dos sobreviventes; ações que contam, invariavelmente, com a ajuda do rabino Weitman, seu principal apoiador financeiro.

Veja um resumo do bate-papo:

 

Quais suas origens?

A família do meu pai, Nahum Pitliuk, é da Lituânia. Eles vieram para o Brasil em 1926, quando meu pai tinha 13 anos. Sua primeira parada no país aconteceu nas colônias do Barão Hirsch. Não sei exatamente o local, mas possivelmente tenha sido em Quatro Irmãos, onde meu pai permaneceu até por volta de 1940, quando foi a São Paulo - e conheceu minha mãe, Malvina. Eu já nasci em São Paulo, cidade em que passei boa parte da vida trabalhando, primeiro como publicitário por 35 anos (25 dos quais com agência própria), e, a partir de 2007 mais voltado ao Holocausto. Em 2010, vendi minha agência e me dedico integralmente à Shoá. Há três anos, procurando uma melhor qualidade para viver, moro em Itu.

 

O que lhe fez trocar uma bem-sucedida carreira publicitária, com mais de 100 prêmios nacionais e internacionais, pelo Holocausto? Há algum motivo particular?

Embora seja judeu, nunca fui praticante. Só costumava ir ao Clube Hebraica (tradicional clube judeu de SP) para jogar tênis. Tudo mudou depois de uma conversa que tive com o presidente da Disney no Brasil. Ele disse que precisava desopilar e iria fazer o Caminho de Santiago, na Espanha. Eu estava meio de saco cheio das coisas, e decidi que também deveria fazer algo semelhante. Não Santiago, que é coisa de ‘gói’ (gentio, não judeu). Então, em 2007, resolvi participar da 20a edição da Marcha da Vida (programa educacional para jovens adultos da comunidade judaica, na faixa etária de 20 a 35 anos. O roteiro de duas semanas inicia com o passado judaico na Polônia e em Berlim, e segue rumo à Israel). Porém, em vez de fazer a Marcha da Vida como todo mundo, decidi documentar em livro e filme. Levei comigo uma equipe de 20 pessoas para registrar o evento - só eu era judeu. Aquela Marcha mudou minha vida. Desde então, entendi que era preciso seguir falando sobre o Holocausto, em nome dos sobreviventes.

Os japoneses diriam que o Sr encontrou seu ‘Ikigai’, a ‘razão para viver’....

Eu diria o mesmo. E veja como são as coisas, dali em diante tudo parecia contribuir para que eu entrasse, cada vez mais, de cabeça na Shoá. Me envolvi com os sobreviventes que passei a entrevistar, vendi minha agência e segui em frente. No judaísmo, diz-se que não há coincidências; mas, talvez por obra do destino, conheci o brilhante publicitário e fotógrafo, Luiz Rampazzo - que numa noite chuvosa me convidou a ir a São Caetano, região metropolitana de SP, participar do lançamento de uma exposição sobre o Holocausto, que ele havia produzido porque disse que, mesmo sem ser judeu, ‘era o que devia ser feito’. Quando cheguei lá, fiquei de boca aberta com a qualidade do trabalho. Firmamos, então, uma parceria - com o inestimável apoio do Rabino Weitman -, que dura até hoje, levando a exposição para dentro do Memorial do Holocausto de SP, além de inúmeros outros trabalhos,  que incluem os livros ‘Sobreviventes I e II’, além do ‘Sobreviventes III’, que deve sair no primeiro trimestre de 2022.

Sua produção cinematográfica e literária a respeito da Shoá, em regra, mescla ficção e realidade. Foi assim com os livros ‘O Homem que venceu Hitler’, de 2012, e a ‘Alpinista’, lançado em fevereiro de 2021. Por que esse formato?

Primeiro, porque acredito que é fundamental levarmos o tema para fora da comunidade  judaica. Talvez, esse tenha sido meu grande mérito: transpor o Holocausto para um universo diferente, o que abriu portas para que eu pudesse falar sobre a Shoá na Globo, Band, Record, Folha e tantos outros veículos de comunicação de massa. Mas, fiz dessa forma, também, por acreditar que facilita o entendimento das pessoas. O livro tem que ser uma coisa interessante, que o povo goste de ler. Respeito as documentações reais e os fatos históricos, mas procuro apresentá-los numa trama que conduz o leitor pelas páginas. Ora, já é tão difícil que o brasileiro leia, que se ele pegar algo insosso, logo vai largar. O mesmo vale para as palestras que realizo. Procuro falar a linguagem do público, especialmente os jovens. Sem tanta cátedra... Hannah Arendt, Spinoza ou sei lá o quê. Não adianta! As pessoas precisam compreender o que você diz. Para essa galera mais nova, cito, por exemplo, que o que o Hitler fazia contra os judeus era um bullying perverso e criminoso - e que deve ser evitado por qualquer um de nós, na sala de aula, em casa, no trabalho ou com o vizinho. Devemos tratar o próximo com respeito, empatia e amor. Eles entendem! Não adianta teorizar ou filosofar. No Holocausto, não existe espaço para a filosofia.

A Shoá pode acontecer de novo? O que fazer para evitar?

A semente do totalitarismo ainda está presente entre nós. O Holocausto é algo recente, assim como o Stalinismo e tantos outros, a exemplo do Chavismo, na Venezuela, bem como líderes populistas de esquerda ou direita. Na Alemanha dos anos 30 e 40, tínhamos pessoas cultas, mas que se corromperam em nome de interesses e de uma ideologia nefasta, alimentada por fake news - e deu no que deu. Penso que é, sim, provável que se repita. Por isso, precisamos seguir vigilantes, reforçando o papel da educação no processo de formação de pessoas que respeitem o próximo, combatam o preconceito e a intolerância. Não podemos esquecer que basta um homem para destruir uma nação.

A Bebelplatz, em Berlim, ficou conhecida como a ‘Praça da Ignorância’, pois foi lá que há exatos 88 anos (em 10 de maio de 1933) foram queimados os livros na Alemanha nazista.  No Brasil contemporâneo, teríamos alguma espaço público que celebre nossa ignorância?

Olha, há vários. A ignorância grassa em nosso país, infelizmente. Mas, se eu nominar aqui, posso ser mal interpretado; pois, entendo que ao invés de livros, há outras coisas que deveriam ser queimadas.

 

O Sr já conviveu com dezenas de sobreviventes, como Julio Gartner, falecido recentemente. O que aprendeu com eles?

Não devemos olhar para trás, reclamando e resmungando da vida. Não temos ideia da força que o ser humano tem. É preciso, no entanto, aplicá-la para fazer o bem. A resiliência desse pessoal é inspiradora. Não à toa, se formos fazer uma pesquisa, veremos que os sobreviventes, depois de passarem pelo inferno dos campos de concentração e extermínio e perderem suas famílias, se tornaram, em bom número, empresários e pessoas de sucesso. Sabe o motivo? Porque eles têm coragem, foco e são extremamente fortes. O próprio Julio Gartner, que você citou, contava que seu único objetivo diário nos campos de concentração era encontrar comida para se manter vivo. Ele vivia 24 horas para isso. Há outros tantos exemplos. Para eles, algumas bobagens que nos preocupam hoje não tiram o sono, nem merecem atenção. Também aprendi com eles que, apesar dos pesares, o Brasil é um baita lugar para se viver, terra de oportunidades e onde todos se consideram brasileiros, mesmo quem vem de fora. Na Europa, por exemplo, essa diferença étnica segue sendo um grande complicador e potencial causador de conflitos.

 

Boa parte dos seus trabalhos é feita em caráter voluntário. O que te motiva a seguir?

São dois motivos principais. O primeiro é a felicidade dos sobreviventes em falar e serem retratados, documentados. O carinho deles vale qualquer esforço. Nesta pandemia, eles me ligam para conversar e, invariavelmente, pedem se não podemos realizar alguma palestra virtual... Enfim, criamos laços e relações de amizade profundas. O segundo motivo é a relevância do tema, que não pode cair no esquecimento. Por isso, assumi o papel de divulgar o Holocausto, e pretendo me manter firme a esse ideal enquanto tiver forças.

 

O Sr diz que faz o que faz pelos sobreviventes, mas, estamos convivendo com a última geração deles. E depois, o que lhe motivará?

A memória deles.

 

 

 

O que vem por aí?

Além do lançamento do livro ‘Sobreviventes III’, Pitliuk trabalha em nova construção literária, que abordará um viés ainda não explorado pelo autor. Ele, contudo, prefere não revelar o teor da trama. Paralelamente, está saindo do forno um novo longa metragem: ‘Não mais silêncio’, que traz, numa linguagem que aposta nos sentimentos e emoções, a vida de dez sobreviventes da Shoá.

Saiba mais sobre Marcio Pitliuk:

Atuação cultural e curadoria:

# Início como autor de Histórias em Quadrinhos nos jornais Folha de São Paulo, Estadão e Revista Playboy. Escritor, teatrólogo, cineasta e palestrante.

# Membro do Conselho Editorial da Revista Hebraica.

# Membro da Academia Ituana de Letras.

# Curador do Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto.

# Idealizador e promotor do “Ciclo de Palestras Sobreviventes do Holocausto”. 5 edições, de 2011 a 2015. Evento reunia sobreviventes do Holocausto que relatavam suas histórias, nos auditórios das livrarias Cultura e da Vila, em SP.

 

Alguns dos livros publicados:

# “O homem que venceu Hitler”. Editora Guttemberg, 2012. 2ª edição. Romance baseado na II Guerra Mundial onde discute o preconceito e a intolerância.

# “100 anos de imigração judaica do Leste Europeu”,

# “200 anos de imigração judaica do Mediterrâneo”,

# “150 anos de imigração judaica da Europa Central”, Trilogia sobre as imigrações judaicas ao Brasil. Editora Mayaanot.

# “Marcha da Vida”, Editora PitCult, 2009. Documenta o evento mundial Marcha da Vida, projeto educacional que leva anualmente milhares de pessoas para conhecer os campos de concentração nazista na Polônia ocupada.

# “Sobreviventes”. 17 entrevistas e retratos de sobreviventes do Holocausto que vivem no Brasil. Editora Mayaanot, 2018.

# “A alpinista”. Romance sobre uma alpinista social tendo como cenário a II Guerra Mundial. Editora Guttenberg, selo Vertigo.

# “Sobreviventes II”. 13 entrevistas e retratos de sobreviventes do Holocausto que vivem no Brasil. Editora Mayaanot, 2021.

 

Diretor de cinema:

# “100 anos de imigração judaica do Leste Europeu” 2011.

# “200 anos de imigração judaica do Mediterrâneo”, 2013.

# “150 anos de imigração judaica da Europa Central”, 2015.

# “Marcha da Vida”, 2011. Produtora: Conspiração Filmes. Longa-metragem. Exibido nos cinemas, televisão a cabo e DVD,

# “Sobrevivi ao Holocausto”, 2013. Primeiro filme em todo o mundo onde um sobrevivente, Julio Gartner, mostra pessoalmente todos os locais onde viveu antes, durante e depois da II Guerra Mundial. Filmado em 5 países. Ganhou melhor fotografia da Cinemateca Brasileira. Passou em festivais, nos cinemas, TV a cabo e DVD.

# “Sobreviventes”. Filme com entrevistas de sobreviventes do Holocausto. Produtora Mayaanot. 2019.

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