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Blog do Coluna do Leitor

Farrapos e Esfarrapados

Por Coluna do Leitor

Neusa Cidade Garcez

Pesquisadora – Escritora – URI

 

A História, geralmente , não admite respostas fechadas, definitivas. Aceita revisões, releituras. E, principalmente, exige pesquisas em documentos, com o auxílio da Arqueologia e das novas tecnologias.

Em respeito a isso, como pesquisadora responsável que me considero, procuro reler e buscar possíveis dados novos para cada data comemorativa de acontecimentos regionais, nacionais ou sobre Próceres considerados notáveis. Sobre a Revolução Farrapa, desejei voltar a ler. Inicialmente me apoiei em rascunhos de pesquisas por mim encetadas tempos atrás. Igualmente em autores conceituados e que possuem interessantes análises do fato.

Reli a obra de Alfredo Varela “Política Brasileira, interna e externa” onde o autor elaborou uma tese que ligava a Revolução Farroupilha ao ciclo platino.

Esse viés me intrigou pois fiquei por 2 anos pesquisando em todo o território oriental para meu trabalho de Mestrado e, na época, tive uma vasta e profunda visão da história da Cuenca do Prata. Varela afirmava que o triunfo da política praticada no Prata – no período – seria plena e totalmente atingida se Brasil se fragmentasse em Repúblicas menores. Para sedimentar sua tese, Varela citava fatos e tratados que envolviam Manuel Oribe com imperiais e ao mesmo tempo com Farrapos. Idênticos Tratados envolveriam depois D. Frutuoso Rivera. Para o autor, o Rio Grande do Sul era uma zona de origem brasileira, mas com costumes uruguaios.

Tal tese embora instigante enfrenta opositores como o meu professor e Historiador Dr. Moacir Flores, para quem a Revolução Farroupilha insere-se no contexo das revoluções brasileiras, as quais procuraram impor o ideário liberal que pretendia maior autonomia do Legislativo evitando a ditadura do Executivo. Contradizendo os escritos de Varela, o Profº Flores afirma que os casamentos, o compadrio, as lutas de fronteira, facilitavam a troca de doutrinas políticas, mas que esse intercâmbio era feito com “doutrinas pertencentes ao idiário Universal.”

Ao se comentar uma revolução que chamamos de “nossa” os nomes que enfoquei como nos aponta a historiografia, Bento Gonçalves, Bento Manuel Ribeiro, Manuel Oribe e Frutuoso Rivera, levam o pesquisador a enfrentar questões como: teriam sido heróis ou mito? Ou simplesmente homens do seu tempo – homens momento? Oribe e seu partido Blanco, Frutuoso Rivera e seu partido Colorado. Este recebia dinheiro do Império para combater os farroupilhas, que ele fingia apoiar. Ninguém cumpriu os tratados que propuseram. Os dois lados fizeram jogo duplo. Os farrapos em um momento apoiaram Oribe, em outro, Rivera. Avaliar, aceitar? Tudo depende da ótica e do filtro do pesquisador. Por isso é tão importante as revisões desapaixonadas.

Considero salutar não só fazer loas aos acontecimentos que duraram 10 anos e que tiveram momentos inglórios como a traição feita aos lanceiros negros. Análises séries e sem ufanismos nos conduzem a maior conhecimento e compreensão, acrescentando novas luzes e discussões.

Revendo o passado farroupilha pude compará-lo com o presente de dois tipos de esfarrapados e concluí que em realidade vivemos uma guerra tão ou mais cruenta do que aquela. Não é uma guerra gaúcha, ela engloba o Brasil inteiro. De um lado um grupo cínico e ávido de poder esfarrapou o que é considerado a decência, a moral, a ética, a lisura, a cidadania, locupletando-se com conchavos espúrios e nojentos. Esfarraparam a justiça e as leis usando-as ao seu favor. Esfarraparam  a verdade e o Direito. Enfrentando essa podridão odiosa estamos nós, o povo trabalhador que, sem defesas vê, ouve e sente serem esfarraparde sua esperança, sua dignidade, sua saúde, seu futuro.

Como acreditar e confiar em utopias quando, citando somente o caso revoltante dos professores, estão eles há 6 anos sem reposições e falar em aumento é blasfemar. Não há dinheiro. Não há dinheiro? Para que cloaca ele escorreu? Que gestores indignos permitiram toda sorte de desvios de mau uso e abusos. Como se chegou a doze milhões de desempregados?

Como aconteceram tantos envios de nosso dinheiro, de nosso suor, do trabalho de milhares de brasileiros para “presentear” a tantos países? E como suportar a riqueza imensa e repentina de tantos protegidos, enquanto um assalariado mal ganha para comer, faltando-lhe para a saúde, educação? Lazer é outra palavra “anátema” e segurança – só cabe aos que a conseguiram nas graças do poder.

Somos os sonhos esfarrapados, somos o povo que elege aqueles que nos esbofeteiam com sua falta de pudor. Essa camarilha unipresente na sociedade mata e enterra sorrindo o porvir de tantas gerações.

Os Farrapos passaram. Os esfarrapados no corpo e na alma esperam, gemem, caem, levantam. Quando brilhará a aurora?

O Dr. Alcides Stumpf enviou para a Academia Erechinense de Letras um interessante artigo de Nizan Guanaes “Algo Novo no Ar”.

Considerei apropriado parafraseá-lo – em parte – nesse momento em que se debate a Revolução Farroupilha, onde os que já caminharam 5 – 6 décadas, estão desesperançados sentindo em farrapos a maioria de seus sonhos e projetos, exauridos que estão nas batalhas avassaladoras e invencíveis de impostos sempre crescentes, injustiças à espreita e engôdos, mentiras e toda sorte de desilusões.

Guanaes fala aos jovens na importância de perder o medo, em especial do peso inquestionável da tecnologia. Aponta ele os grandes avanços, jamais imaginados na história da humanidade, onde as futuras gerações viverão mais que 120 anos. O futuro, diz Guanaes será petulante, desconcertante, mas espetacular. Afirma também que a Tradição do mundo é mudar: a grande plataforma é a mental – a atitude. Conclui Guanaes ordenando que se  “pare de ficar com medo, que se respire fundo pois há algo novo no ar como a telemedicina, como o aprender, o consertar pelo caminho, o desafiar de peito aberto o sistema, o protocolo e regulamentação”

 O porvir das gerações vindouras – na ótica de Nizan Guanaes será promissor. Mas, eu, simples mortal pertencente ao grupo desiludido dos esfarrapados, me pergunto se esse novo futuro defenestrará para sempre os que rasgam e esfarrapam seus semelhantes.

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